Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Creepy #1-Resenha de HQ


Depois de uma maratona lendo os contos
do Edgar Allan Poe e O Médico e o Monstro
do Stevenson me bateu uma vontade dana-
de lêr algo mais "vísual" mas dentro do gênero
gótico e fantástico, e eis que me cai em mãos
a MARAVILHOSA compilação da Dark Horse
colecionando os seis primeiros números da
revista Creepy.Naturalmente é impossível
formar uma opinião lendo apenas o primeiro
número que geralmente funciona mais como
um "laboratório" e training ground para 
edições posteriores, mas graças a excep-
cional qualidade do material, pode-se tirar
algumas conclusões. O primeiro aspecto que 
me salta aos olhos é a altíssima qualidade
da arte: enquanto que os primeiros gibis 
da E.C. comics (já resenhados no blog), 
ainda que excelentes, demonstravam uma
certa crueza na arte, Creepy chega chutando
o pau da barraca com alguns dos mais bonitos
desenhos já feitos para as HQ's. Também nos 
lembra este primeiro número que diferença faz
um grande roteirista. O texto do Archie Goodwin
(que assumiria o cargo editorial no segundo
número) fica a anos luz do restante, e é um dos
motivos de alguns destes contos serem
considerados clássicos. Aliás, um dos pontos 
negativos deste #1 é justamente a qualidade
dos roteiros escritos por outras mãos, que são,
comparativamente inferiores, embora nada que 
chegue próximo da (baixa) qualidade do material
da editora Atlas que geralmente tem arte muito
acima da média mas scripts absolutamente podres 
fedorentos.
Como roteirista de horror o Goodwin me parece ocupar 
uma posição meio que secundária quando
comparado a nomes como o Marv Wolfman;
mas assim como o grande Al Feldstein (ro-
teirista da E.C.), merece um lugar de destaque,
pois, enquanto não exatamente influente e
inovador como o Feldstein, demonstra um talento
nato como storyteller e um hábil criador de twists.
Neste ponto se faz necessário mencionar uma
importante diferença em approcah e método de
ataque: os melhores contos do Feldstein de-
monstram ritmo e ação cinematográficos com
uma profusão textual no box de narrativa e 
balões de diálogo que beiram o absurdo; 
Goodwin escreve com uma simplicidade e 
economia de estilo desconcertantes. Se 
o primeiro pode ser comparado estiliscamente
ao Stephen King o segundo se aproxima
mais do Roald Dahl.
Abaixo relaciono os contos com breves co-
mentários.


Voodoo! [Bill Pearson/Joe Orlando]


Sinopse:
Marido alcoólatra persegue a esposa 
envolvida com vodu no Haiti e se de-
para com um bizarro segredo.

Crítica:
Conto rotineiro e previsível com um final
opaco e anticlimático mas redi-
mido pela atmosférica arte do 
Orlando.

Cotação: ***1/2


H2O World! [Larry Ivie/Al Williamson & Roy G. Krenkel]

Sinopse:
Casal de merguladores resolvem explorar
uma desconhecida cidade marinha mas são
surpreendidos por criaturas marinhas.

Crítica:
Muita exposição e descrição atravancam o
ritmo deste conto mas a arte detalhada do Williamsom
é um verddairo colírio para os olhos.

Crítica: **** de *****



Vampires Fly At Dusk! [Archie Goodwin/Reed Crandall]

Sinopse:
Mortes em um vilarejo obrigam a polícia
a visitar um castelo e interrogar um temido
casal.

Crítica:
E entra em cena o roteirista Godwin e imedia-
tamente nota-se uma diferença abismal na 
qualidade do texto. A arte do Reed Crandall 
foi meu motivo primário para morrer em 35 doletas
neste encadernado. 
Belíssimo conto gótico com um final surpreendente,
poético e trágico. 

Cotação: ****1/2 de *****

Werewolf! [Larry Ivie/Frank Frazetta]

Sinopse:
Caçador profissional é chamado para
caçar uma estranha criatura que aterroriza
uma vilarejo.

Crítica:
Última história desenhada pelo lendário
Frank Frazetta. Roteiro fraco e um final
tosco prejudica este conto belamente 
desenhado.

Cotação: ***1/2 de *****

Bewitched! [Larry Ivie/Gray Morrow] 

Sinopse:
Cético resolve executar um feitiço
encontrado em um antigo livro sobre
bruxaria com resultados catastróficos.

Crítica:
Arte excepcional do Morrow redime este 
conto confuso que mistura sonhos,
vodu e bruxaria.

Cotação: **** de *****

The Success Story [Archie Goodwin/Al Williamson]

Sinopse:
Cartunista famoso conta a dois
companheiros sua trajetória do
poço ao topo.

Crítica:
Excepcional conto onde o Goodwin
demonstra todo seu talento misturando
crítica, ironia, humor negro e horror .
A sacada de gênio fica por conta da
maneira como ele "conta" a história
de sua trajetória para seus amigos
e consequentemente o leitor: os amigos
"sabem" apenas uma parte
da história contada no box de diálogos,
enquanto que nos balões de diálogo
do flashback, o leitor conhece "o outro
lado da moeda".Uma das melhores histó-
rias sobre as armadilhas e segredos do 
processo criativo. Brilhante, brilhante...

Cotação: ***** de *****

Pursuit Of The Vampire! [Archie Goodwin/Angelo Torres]

Sinopse:
Prefeito de um vilarejo aguarda os habitantes
voltarem do sepultamento de duas moças
para caçar um assasino que pode ser um vampiro.


Crítica: 
Um conto de horror de época no estilo Hammer,
com o texto economicamente rebuscado do
Goodwin, aliado a arte do calibre de um Torres
só poderia resultar num belíssimo poema visual.

Cotação: ****1/2 de *****

Sábado, 11 de Julho de 2009

Fell-Resenha de HQ


Argumento: Warren Ellis
Arte: Ben Templesmith

Sinopse:

Detetive Richard Fell é transferido para um local
sombrio e decadente conhecido como Snowtown.
Enquanto se adapta a nova vida e toma contato
com os estranhos e superticiosos moradores,
investiga crimes progressivamente mais estra-
nhos e macabros que revelam não apenas
a natureza dos seus moradores como também a
face oculta de Snowtown.



Crítica:
Como um grande roteirista faz a diferença. Do
pouco que conheço do trabalho do Ben
Templesmith, considero-o um dos melhores
ilustradores do horror e macabro da atualidade;
sua arte vaga e surreal (em Fell menos abstrata
e com contornos mais definidos) é perfeita para
este tipo de história mas, sinceramente, nunca achei
os roteiros do Steve Niles a altura do talento do
Templesmith como ilustrador (considero 30 Dias de
Noite um gibi divertido mas nada que justifique
tanto bafafá). Com Fell ele finalmente encontra um
roteirista que realmente faz jus a seu talento e a quí-
mica é perfeita! Fell é um dos melhores gibis de
de investigação macabra que já li e uma das prin-
cipais razões do seu sucesso artístico é a perfeita
sintonia e interação entre texto e desenho. Falar
que Warren Ellis é competente é subestimar seu
imenso talento como roteirista, sua habilidade em
fisgar o leitor com narração e diálogos certeiros, por
vezes melancólicos e amargos, outras de cunho
existencial e filosófico, é inigualável. Ainda que Fell
tenha passagens de violência extrema, seu prota-
gonista tende a resolver os casos com o cérebro
e muita, muita psicologia. Não existem contos ruins
neste encadernado, difícil mesmo é selecionar os
melhores. Acho que os meus preferidos são os nú-
meros 3, 5 e 6 que tratam de um homem bomba
num brechó, um misogenista solitário e um pai egoísta
e pervertido.
Fell é um gibi sombrio e denso, carregado de tensão e passa-
gens de profunda melancolia, solidão, abandono e desolação,
mas também carregado de humanismo e compaixão. Ao
mesmo tempo é um gibi super acessível (seus contos são
inteiramente independentes que em conjunto formam um
big canvas de uma cidade que quanto mais se desintegra
e apodrece mais viva se torna).
Pode não ter a complexidade e a mesma veia satírico-irônica
de um Transmetropolitan, mas é provavelmente sua obra
mais equilibrada.
Imperdível.

Cotação: ***** de *****

Sábado, 4 de Julho de 2009

The Uninhabited -Resenha de HQ

Conto gráfico integrante da revista Strange Tales #6

Sinopse:
Astronautas pousam na lua para
tentar finalizar missão na qual
outras expedições fracassaram,
mas o grupo explorador começa
a sofrer baixas inexplicáveis que
os sobreviventes atribuem a uma
enigmática e poderosa força invi-
sível.


Crítica:
Taí um baita exemplo de como idéias
não necessariamente originais (para
falar verdade já eram clichês na 
década de 50) podem ser muito
muito bem aproveitadas nas mãos
de profissionais competentes.
Com suspense e tensão exalando pelos
poros, essa FC muito me lembrou os
suspenses espaciais escritos pelo A.
E. Van Vogt nos anos 40. O texto é en-
volvente da primeira a última linha mas
é na arte extraordinária do grande Russ
Heath que se encontra o verdadeiro delei-
te The Uninhabited. Um pequeno clássico
visual da pulp sci fi.

Cotação: ***** de *****

Shade: O Homem Mutável #1-10-Resenha de HQ


Argumento: Peter Milligan
Arte: Chris Bachalo
Arte final: Mark Pennignton


Sinopse:
Alma do habitante de um planeta conhecido
como Meta, por intermédio de uma espécie
de encruzilhada cósmica, vai parar na Terra
e se apossa do corpo físico de um sanguinário 
psicopata prestes a ser excecutado. Ao se 
encontrar com uma jovem alcoólatra cujos
pais foram brutalmente assassinados pelo
psicopata, tenta convencê-la de sua origem
alienígena e parte com ela em uma viagem
pela américa a fim de deter uma misteriosa
epidemia de loucura e uma enigmática força
de nome O Grito Americano. Repetidamente
levados pela " correnteza da loucura" por uma 
América caótica e surreal, Shade e sua com-
panheira combatem uma esfinge de JFK, uma
câmera que externaliza e materializa as perver-
ções e obsessões de uma já decadente Hollywood,
um guru picareta movido a LSD que tenta 
combater a loucura com uma sobrecarga de
"amor", dentre outros caoticismos e bizarrerias.



Crítica:
Da chamada invasão britânica capitaneada
pelo Alan Moore na primeira metade dos
anos 80 e que deu uma bela sacudida no 
estagnado mercado americano, nomes como
Neil Gaiman e Grant Morrison são figurinhas
carimbadas. Com um pouco de esforço pode-
ríamos citar o irregular mas importantíssimo 
Jamie Delano (aquele que deu alma a John 
Constantine em Hellblazer). Talvez eu não tenha
lido Peter Milligan o suficiente para colocá-lo no 
mesmo patamar de excelência que os três citados
acima, mas tendo como base obras como Skreemer,
O Extremista e este Shade, considero-o, disparado, 
o mais subestimado escritor do selo Vertigo. Na
primeira metade do novo milênio ele conseguiu
um inesperado (e merecidíssimo) sucesso no
mainstream escrevendo X-Factor/X-Stasis mas 
ainda hoje não tem metade do reconhecimento 
de público que merece.
Shade The Changing Man é um caminhão surreal
e psicodélico carregado de nitroglicerina guiado
por um maníaco literato e visionário, e é justamente 
nestas características que residem suas maiores 
qualidades e, felizmente em menor número,
seus defeitos.O texto do Milligan ora é ácido e 
afiado como um fio de navalha, ora humano, passional
e poético (o conto Os Inominados em especial é um
belíssimo poema gráfico de horror que toca em temas sociais
com uma elegância e britishness não muito distante do
horror social do Ramsey Campbell) e por vezes 
excessivamente oblíquo, vago e verboso beirando
a incompreensibilidade.Shade certamente não é 
para todos os gostos mas é impossível ficar indiferente !!!
Só não leva cinco estrelhinhas por alguns excessos
(em certos momentos o leitor corre o risco de sofrer
um overload sensorial!!!)
e uma certa auto indulgência por parte do Milligan,
mas o saldo final é mais que positivo. Para quem gosta
de obras como Doom Patrol e Os Invisíveis do Morrison
ou os livros do Philip K. Dick, Shade é altamente 
recomendado.

Cotação: ****1/2   de   *****

Sábado, 30 de Maio de 2009

Moonchasers and other stories-Resenha de coleção


Ed Gorman is the most underrated writer of the last 20 years.
Although admired by writers like Dean Koontz, Gorman's work is leagues apart from the formula and routine of ultra commercial stuff of King's clones.He is an extraordinarily prolific romancist but his best work can be found in the short story form.
Although Gorman is an american original his influences can be traced.
His deceptively simple style is a highly original blend of
Bradbury's poetry and nostalgia, Rod Serling's Twilight Zone humanism, King's local colour, the raw nihilistic energy of classic hardboiled writers like Dashiell Hammet and Mickey Spillaine and the "Gorman touch". His plots are tight but his real strenght resides in his masterful characterizations; Gorman's characters are common people "trying to strike a kind of weary bargain with the world", in his own words.
All Gorman's collections are uniformly excellent but I think that Moonchasers and Other Stories is the most eccletic and representative of his short works.The title novella is a little masterpiece of nostalgia, not unlike Bradbury's short works of 40's and 50's and King's novella The Body.
Ed Gorman is a master of the form and deserves a major audience.


MOONCHASERS AND OTHER STORIES:

Moonchasers ============================ *****
Turn Away ============================== ****
Seasons of the Heart =================== ***1/2
En Famille ============================= ****1/2
Mother Darkness ======================== ****
The Beast in the Woods ================= ****1/2
One of Those Days, One of Those Nights = ****
Surrogate ============================== ***1/2
The Reason Why ========================= ****1/2
The Ugly File ========================== ****1/2
Friends ================================ **1/2
Bless us O Lord ======================== ****
Stalker ================================ *****
The Wind from Midnight ================= ***1/2
Prisoners ============================== ****1/2
Render Unto Caesar ===================== ****
Out There in the Darkness ============== *****

Domingo, 17 de Maio de 2009

Mini conto e flash fiction contemporânea parte 3



D.F. Lewis- Lewis é um pequeno mestre da
vinheta surreal. Insanamente prolífico
e muitas vezes auto-indulgente, suas
melhores estórias demonstram
um refinamento e sofisticação incomuns.
Profundamente britânico.


W.H. Pugmire-Dentre os escritores de 
ficção lovecrafteana não existe nada 
remotamente semelhante aos contos
do Pugmire. Menos preocupado em
criar mais um livro oculto proibido,
ou um novo deus de nome exdrúxulo,
seus contos e flash fiction são acima
de tudo viagens emocionais e espirituais
embalados em prosa suave e macia 
como seda.The Hour of Their Appetite
nos conta a estória de um ator famin-
to e desempregado que, ao entrar num
cinema decrépito, acaba por servir de 
alimento a deuses famintos. Em 
The Jigsaw Boy um homem sem 
coração a procura de sua humanidade
perdida encontra sua salvação (ou
danação dependendo do ponto 
de vista) na corrente de um rio.
Em The Sign That Sets the Darkness
Free, um deficiente vocal é atraído
por uma estranha melodia no pátio
de uma igreja, e lá encontra a chave
para sua salvação e o caminho para
o desejo do seu coração.
Meus resumos não fazem jus a 
beleza e riqueza simbólica destes 
micro contos. 
Mais difícil que ficção 
lovecrafteana de qualidade (além do
mero pastiche) é encontrar tamanha 
delicadeza e sensibilidade neste tipo
escrita. Pugmire não só o faz como 
talvez seja o único. 
Talvez seu estilo poético e atmos-
férico e seu foco em emoções
e imagética espectral seja muito
outré para leitores mais interessados
em enredos bem estruturados e 
prosa impessoal, mas a minha aposta
é que sua obra daqui a uns anos
ocupará um lugar de destaque na 
weird fiction contemporânea.