segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Daydreams and Nightmares-Resenha de HQ











Crítica:
Winsor McCay é considerado quase que por unanimidade
como o primeiro gênio inconteste dos quadrinhos, e a meu
ver é dificil discordar. Claro que seu contemporâneo George
Herriman já fazia barulho com versões mais primitivas do seu
Krazy Kat (considerado por muitos, incluindo este que vos fala,
como a maior tira de HQ já feita) mas Herriman só começou a
acertar o passo e chamar a atenção da intelligentsia e vanguar-
distas no começinho dos anos 20, enquanto que McCay em suas
primeiras tiras já demonstrava sua esplêndida imaginação
visual e virtuosismo gráfico.
Se o sucesso e longevidade do seu magnífico The Little Nemo
in the Slumberland teve um lado negativo foi justamente o de
ofuscar seus outros trabalhos.
Este álbum chega em boa hora para tentar corrigir essa injusti-
ça e o faz maravilhosamente bem. Fazendo uma espécie de retros-
pectiva cronólogica, Daydreams and Nightmares cobre toda a
carreira do McCay (excetuando as tiras do Nemo) desde seu come-
ço como ilustrador, a tiras diárias de sucesso na época (algumas
injustamente esquecidas/ofuscadas como a genial The Dreams of
the Rarebit Fiend) passando por experimentos falhos de curta
duração como Poor Jake, a maravilhosas ilustrações de fundo
filosófico cujo didatismo e sermões ocasionais felizmente são ofus-
cados pelo virtuosismo do McCay.
Por maior e merecido reconhecimento que ele tenha conquistado
como ilustrador, é como artista inovador dos quadrinhos que ele
será primeiramente lembrado.

Vou relacionar as principais tiras desta coleção com breves comentários:

Little Sammy Sneeze - Tira que narra as trapalhadas de uma criança
com um espirro destruidor. Primeiro sucesso do artista, Sammy é
visualmente uma tira belíssma, mas a idéia central deixa pouco
espaço para evolução e depois de algum tempo acaba se tornando
um pouco repetitiva. Por estes motivos teve curta duração.



The Pilgrim's Progress - Andarilho vagueia pelo mundo tentando se
livrar de um fardo/pasta preta com a inscrição Dull Care. Tira aberta-
mente alegórica e filosófica, é provavelmente a mais intelectualiza-
da e instigante do McCay. Visualmente não chega a ser tão genial,
mas serve de interessante contraponto aos seus outros trabalhos
cuja beleza gráfica acaba por ofuscar os textos.

The Dreams of the Rarebit Fiend- O Rarebit Fiend do título se refere
a uma espécie de torrada européia que provoca terríveis pesadelos
para quem as come antes de ir para cama. Aqui o McCay exercita
toda a sua imaginação e humor bizarro-surreal numa sequência de
pesadelos cujas experimentações gráficas atingem um grau de criati-
vidade, sofisticação e beleza plástica somente igualado pelo seu
Little Nemo.
As tiras ora são hilárias e ingênuas, ora bizarras e surreais e as vezes nightmarish
e pertubadoras.



O restante do álbum nos apresenta várias sequências explorando
a sempre interessante temática dos sonhos/pesadelos (sempre com uma deliciosa inclinação para o surreal e o absurdo) e tiras comparativamente menores , porém com momentos interessantes e ocasionais flashes de genialidade.

Se você que consome HQ's importadas está pensando em adquirir esse
álbum essencial, o meu conselho é que corra, corra. A primeira edição se esgotou
rapidinho e esta segunda não vai demorar muito tempo nas prateleiras


Cotação: ***** de *****

Sorum (2001)-Resenha de filme


Direção: Jong-chan Yun

Sinopse:
Jovem motorista de táxi com uma
fixação por Bruce Lee se muda para
um soturno e decrépito edifício
marcado por tragédias e mortes mis-
teriosas. Tomando contato com os
moradores e envolvendo-se afe-
tivamente com uma mulher casada
que lhe relata uma morte ocorrida em
seu apartamento recentemente, acaba
por descobrir uma sinistra cadeia de
eventos e (outras) mortes ocorridas
antes da sua chegada que podem ter
alguma conexão com seu passado.





Crítica:
Ingmar Bergman meets David Lynch
meets Kiyoshi Kurosawa. Da leva do
horror oriental pós O Chamado, Acacia
e Sorum são, a meu ver, os filmes mais
injustiçados desse boom. Amado e odia-
do mais ou menos na mesma proporção
e com a mesma intensidade, esta pequena
obra prima do horror psicológico têm con-
fundido e maravilhado cinéfilos dentro e
fora do gênero. Estranho e soturno demais
para ser engolido pela maioria do público
mainstream; literato, sensível, profundo e
oblíquo em excesso para se adequar com
conforto no cinema de gênero, Sorum é um
pássaro raro, e como consequência acabou
adquirindo o status de cult, apesar de ser um
filme relativamente novo.
Concordo com algumas críticas: ritmo lento,
humor (as vezes) forçado, excessivamente frag-
mentado; mas Sorum não é, a nível de enredo,
um filme incompreensível, pelo menos no que
diz respeito aos seus principais segredos.
Por vezes confuso, é verdade, mas seria mais
correto classificá-lo como complexo.
Não tentem entender tudo numa primeira assistida.
Para ser devidamente apreciado vejam pelo menos
duas vezes e só depois formem uma opinião (não
me veio como surpresa que a maioria das críticas
"sem noção" tenham partido de gorehounds).
O diretor Jong-chan Yun entende do riscado e sabe onde
está pisando. Sorum é um filme rico em emoções com
creepiness e atmosfera saindo pelos poros, têm ótima
direção de atores, enquadramentos estilosos e uma
bela fotografia. Mesmo aqueles não muito interessados
em abordagens mais intelectuais e oblíquas do cinema
de entretenimento, dificilmente negarão a qualidade téc-
nica deste filme sui-generis.

Cotação: ****1/2  de  *****

John Mortonson`s Funeral-Ambrose Bierce-Resenha de conto



Sinopse:
Durante o funeral de John Mortonson,
em meio aos pêsames, rezas e cantos,
sua viúva recebe um choque ao contem-
plar o caixão e para surpresa dos paren-
tes e amigos um macabro segredo é re-
velado.


Crítica:
Resenhar vinhetas literárias não é algo que faço
frequentemente pelo fato de que em sua esmagadora
maioria não passam de puro entretenimento superficial
que se esvaem da memória como fumaça no ar.
Felizmente não é esse o caso de alguns escritores como
Bierce e mais uma meia dúzia de gatos pingados como o
Fredric Brown.
Bierce e Brown são escritores negros cuja visão de mundo é
profundamente pessimista (ou realista dependendo do ponto
de vista) mas cujo talento para o humor sardônico e alfinetadas
críticas e ácidas, telegrafadas com a precisão de um relógio suíço,
distanciam seus contos do mero entretenimento insubstancial.
Em Mortonson, Bierce escancara toda a pompa e hipocrisia que
rodeiam os ritos funerais: "amigos" que prestam homenagens aos
falecidos quando estes não mais precisam de atenção nem home-
nagens; penetras que fazem tudo pelo "social"; ritos funerais e pa-
dres cuja pompa e cânticos parecem importar mais que o próprio
morto; parentes "preocupadíssimos"com a morte do ente querido.
Bierce, em pouco mais de uma página, através de um estilo direto
e certeiro, não deixa pedra sobre pedra, e como bônus, no final,
ainda nos mostra que um certo animalzinho de estimação pode
ser menos inocente que aparenta.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 8 de dezembro de 2007

The Outer Limits: The Sixth Finger-Resenha de episódio


Sinopse:
Cientista desenvolvendo experimentos relacionados
a longevidade e aumento de inteligência usa um jo-
vem mineiro como cobaia, mas o experimento to-
ma um rumo inesperado e o jovem passa a se tornar
uma ameaça para a humanidade.





Crítica:
The Outer Limits era uma daquelas séries que tinha tudo
para dar errado: um orçamento ridículo, concorrentes
de peso no mesmo horário e exigências do anunciante
(naquela época os horários televisivos eram geralmente
"comprados" por apenas um anuciante) a torná-lo um
programa mais palatável. Consequentemente os produ-
tores se viram meio que obrigados a colocar um "mons-
tro" por episódio (carinhosamente apelidados como
"Monster of the Week") que acabavam por consumir mais
de 60% do ridículo orçamento. Mas tinha o outro lado da
moeda: concepção e supervisão criativa do Leslie Stevens,
(autor do clássico maldito Incubus estrelado pelo William
Shatner), Joseph Stefano (que mais tarde escreveria o script
de Psicose), um grupo de roteiristas profundamente familia-
rizado com a FC literária e o oscarizado diretor de fotogra-
fia, o gênio do preto e branco, Conrad Hall.
Pelo seu tom sério e realista, boas caracterizações e uma
habilidosa manipulação do que a gente costuma classificar
em inglês como "the suspension of disbilief" (algo como
"a suspenção da incredulidade") TOL pode e deve ser consi-
derado como o real precursor de Arquivo-X ( a meu ver a
semelhança com Kolchak: The Night Stalker é apenas super-
ficial).
The Sixth Finger têm todos os elementos que fizeram de TOL
uma série cultuada, além daqueles já citados: eficiente uso de
sons e background sonoro, atmosférica fotografia e um roteiro
maravilhosamente filosófico e literato.
Adorei a idéia de colocar o laboratório em um casarão semi-gótico
no meio de um vale (sou um profundo admirador do cinema
e estética gótica). Deu um têmpero soturno e melancólico
no que poderia se tornar um conto friamente científico.
O resultado final é uma obra que caminha a fina linha entre o
cheesy e o sofisticado; o ingênuo, despretensioso e ao mesmo tempo
profundo e cerebral; entretenimento superficial e substância na
medida certa. É justamente essa fusão do high brow e low brow
que torna TOL uma série tão carismática e admirada.

Cotação: ***** de *****

The Overworld (1966)-Jack Vance-Resenha de conto





Sinopse:
Comerciante falido e aventureiro trapaceiro cha-
mado Cugel, após ouvir uma tentadora proposta de
um colega de trabalho, resolve roubar o isolado cas-
telo do temido mago Iucounu, mas acaba se perden-
do num labirinto de vidro pouco antes de abandonar
a moradia do mago, e acaba por ser descoberto pelo
próprio retornando da feira onde Cugel vendia seus
falsos talismãs.
Como punição o mago promete enviar o trapaceiro
para os recônditos do inferno a não ser que ele acei-
te a proposta de viajar por meios mágicos para o
mundo de Cutz e recuperar uma esfera mágica perdi-
da durante uma guerra ancestral com o poder de pos-
sibiltar ao usuário "visualizar" uma espécie de mundo
espiritual ou dimensão superior onde a realidade obje-
tiva é descortinada e consequentemente o Overworld
revelado. Como "garantia" de lealdade a missão, Iu-
counu coloca por meios mágicos ao lado do fígado de
Cugel uma criatura-vigia espinhuda e ganchuda pronta
para causar danos no trapaceiro.
No teto da excêntrica morada do mago, Cugel é "con-
vencido" pelo próprio a entrar em uma gaiola-transporte
e após uma invocação, ele e sua criatura-vigia são
arremessados e rebocados por um demônio alado em
direção ao norte afim de cumprir sua missão e pagar o
seu débito com Iucounu.


Crítica:
Não se deixem enganar pela sinopse um tanto comum e formu-
laica de Overworld. Em Vance o enredo é apenas um prop ou
manequim para sustentação de infindável invenção, ornamentos,
arcaísmos, barroquismos e experimentações linguísticas que vão
de palavras inventadas ou ultra-obscuras (não leiam o Vance sem um
bom dicionário na mão) a diálogos indiretos de uma inventividade
e refinamento incomuns na fantasia e FC.
Nesta primeira aventura de Cugel (na verdade o episódio ini-
cial do segundo livro da série Dying Earth: The Eyes of the
Overworld
) nota-se uma mudança radical no tom em relação
ao primeiro romance da série (The Dying Earth aka Mazirian
the Magician
). Com a introdução de um trapaceiro amoral as
aventuras se tornam mais picarescas, movimentadas e (infeliz-
mente) menos poéticas e melancólicas. Se no primeiro livro
Vance evocava fantasistas clássicos como o Lord Dunsany
e o Clark Ashton Smith, aqui, pelo humor sardônico, diálogos
sarcásticos e tom geral de farsa as aventuras lembram positi-
vamente a genial Sword & Sorcery Fahfrd and the Grey
Mouser
do Fritz Leiber.
Não é a toa que Cugel é o personagem mais popular do Van-
ce dentre os leitores. Apesar de ser um trapaceiro amoral pou-
quíssimo confiável, é também um trapalhão carismático.
The Overworld pode não ser dos trabalhos mais substanciais
do Vance mas é certamente um dos mais criativos, coloridos e
com um personagem realmente memorável.

Cotação: ****1/2 de *****

domingo, 25 de novembro de 2007

BALANÇO 2007 (PARTE 1)

A partir desta semana estarei dando início a uma série de posts
relacionados ao que li e vi de interessante durante o ano.
Naturalmente só estarei relacionando aquilo que não foi re-
senhado anteriormente ou fazendo alguns comentários adicio-
nais sobre o que já foi postado.

CONTOS:

D.F. Lewis



Comentário:
D.F. Lewis é o William Burroughs da weird fiction
contemporânea. Incansável experimentalista, publi-
cou mais de 1.500 (!!) contos em apenas 10 anos
de carreira. É natural que em meio a tão prodigiosa
produção tenha escrito muita coisa fraca: alguns
contos são excessivamente experimentais, vagos e
abstratos e outros não passam de mera contemplação
do próprio umbigo. Mas separando o joio do trigo
e com uma boa dose daquele têmpero conhecido
como "gosto pessoal" a obra do Lewis se revela
uma das mais ecléticas e pessoais da weird fiction.
Pela sua produção inumana pode ficar a impressão
de ser um mero hack esrevendo no piloto automático.
Não.D. F. Lewis é um dos mais literatos e sofisticados
escritores da atualidade.
Nesta relação abaixo vocês encontrarão uma releitura
pós moderna do mito do vampiro, uma mini fantasia visi-
onária digna de um William Hope Hodgson, um espelho
transdimensional, dentre outras demências e maluquices
que só poderiam sair de sua cabeça.



Dognanhyi-D.F. Lewis ============================= ***1/2
Always in Dim Shadow-D.F.Lewis =================== ****1/2
Shiftlings-D.F.Lewis ============================= ****1/2
The Sun is Setting-D.F.Lewis ===================== *****
The Doorman Couldn't Sleep...-D.F.Lewis ========== ****1/2
Wiles-D.F.Lewis ================================== ****
The Abacus-D.F.Lewis ============================= ***1/2
The Caretaker-D.F.Lewis ========================== ***1/2
The Swing-D.F. Lewis ============================= ****1/2
The Christmas Angel-D.F.Lewis ==================== ***1/2
Second Best-D.F. Lewis =========================== *****
Migrations of the Heart-D.F.Lewis ================ **
Find Mine-D.F.Lewis ============================== ****1/2

ROMANCES:

The Tenant-Roland Topor






Comentário:
O romance de Topor que deu origem ao filme do
Polanski é ainda mais pertubador e inquietante.
Escrito em um estilo simples e direto, Topor é
um pequeno mestre das palavras precisas. The
Tenant é um suspense/thriller existencial que só
poderia têr sido escrito por um europeu.
A introdução do Thomas Ligotti é erudita e in-
formativa.
Além do texto na íntegra, esta excelente edição da
Millipede Press reúne alguns contos do autor
e uma galeria de sua arte surrealista.
 

Retribution-Sakebi (2006)-Resenha de filme



Direção: Kiyoshi Kurosawa

Sinopse:
Uma série de mortes misteriosas em
água salgada leva o policial encarregado
do caso a se aprofundar na investigação.
Para sua surpresa uma série de evidências
o aponta como principal suspeito ao mes-
mo tempo que outras mortes ocorrem com
várias similaridades entre sí. Confuso e ator-
doado, consumido por dúvidas e com a
vida pessoal atribulada, ele se envolve ainda
mais na teia de mistérios e contradições, apa-
rentemente sem solução.



Crítica:
Kiyoshi Kurosawa é o diretor de Cure e Kairo, dois
dos melhores filmes de horror de todos os tempos.
Ainda que tenha se especializado em thillers horro-
ríficos com enredos crípticos, protagonistas alie-
nados e boa dose de comentário social, ao longo dos
anos têm se mostrado um artista extremamente
versátil. Bright Future é um "drama" ou "sátira social"
(dependendo do ponto de vista), Doppellganger é
uma genial comédia negra grotesca, Charisma um
críptico (assim como todos seus filmes da fase ma-
dura) drama-arthouse, Seance uma inteligente ghost
story
. Kurosawa (nenhum parentesco com "o outro")
é mais um desconstrucionista/pós-modernista que fre-
quentemente usa os tropes e elementos do cinema de gê-
nero para tratar de temas Bergmaneanos e Tarkovskeanos
como solidão, alienação, isolamento espiritual, memória
e identidade, em filmes que atingem um fantástico equilí-
brio entre entretenimento e o cinema de arte.
Retribution pode ser considerado como um filme-resumo
de sua carreira que toma elementos de suas obras mais
conhecidas e os recicla em um formato (ligeiramente) mais
comercial. Sim, temos um enigmático assassino-semi-deidade
(ou assassinos) que exala mistério e maldade como em Cure,
o clima apocalíptico, o sense of doom e o horror puramente
metafísico da obra prima Kairo, e como bônus uma aparição
fantasmagórica que se tornou o clichê mais insuportável do
cinema oriental, graças a falta de talento e criatividade de reali-
zadores sem um décimo do talento de um Nakata ou do
Kurosawa. Um aspecto interessante em Retribution é que ao
mesmo tempo que é uma obra extremamente complexa (a ní-
vel de enredo), por outro é, em certos aspectos, seu filme mais
accessível. As intrusões sobrenaturais, por exemplo, são con-
duzidas com menor obliquidade e em muitos aspectos é um filme
mais direto. Que não fique a impressão que o Kurosawa se
vendeu. Sim, ele ainda usa e abusa dos takes de média distância,
da manipulação de efeitos sonoros e do silêncio (poucos cineastas
entenderam tão bem o uso do silêncio), do seu estilo gélido de
direção, dos fantásticos enquadramentos (a cena inicial é um
primor). Outros aspectos que eu não poderia deixar de ressaltar é
a excelente direção de atores e seu fino senso dramático; ele
nos joga dentro dos dramas e dilemas dos personagens, brinca
com a nossa percepção num fascinante jogo de realidades onde
nada é fixo e permanente.
Retribution não aringe o mesmo nível de Cure e Kairo, e talvez
nem seja tão bacana quanto Doppelganger, mas é cinema de
qualidade, filmado com um público alvo mais, digamos, espe-
cífico, mas deixa no chinelo a maioria das produções orientais.
Kurosawa é o trapaceiro cinemático que constantemente  
manipula a solidez do chão e nos puxa o tapete com a sutileza de
um hábil prestidigitador e a sabedoria de um piadista cósmico,
o Deus da risada negra.
Quem aprecia as obras do Philip K. Dick não terá dificuldades
em digerir este filme críptico, confuso mas ao mesmo tempo
belo e fascinante.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 17 de novembro de 2007

Epicuro: Os Filhos de Helena (Capítulo 4)



Argumento: William Messner-Loebs
Desenhos: Sam Kieth


Sinopse:

Epicuro e seus companheiros partem de Atenas
em um barco, são atacados por piratas e vão parar
em uma ilha onde presenciam uma série de estra-
nhos e absurdos eventos.

Crítica:
O principal problema com este último episódio é
que não existe um fio condutor narrativo que ligue
as cenas e com isso acaba se tornando fragmenta-
e episódico.
Encarando-o como uma série de "gags históri-
co-filosóficas" funciona muito melhor que como
uma narrativa contínua. Eu ia dar uma cotação mais
baixa mas o Sam Kieth (mais uma vez) nos deleita
com um orgasmo visual (em matéria desenhos este
capítulo é tão bonito quanto o primeiro)

Cotação: ***1/2 de *****

The Unseeable (2006) Direção: Wisit Sasanatieng-Resenha de filme




Sinopse:
Camponesa tailandesa grávida, à procura
do marido desaparecido, vai parar numa
espécie de hotel decrépito no meio do campo
comandado por uma viúva solitária que mora
em uma casa separada nos fundos.
Recebido por uma jovem, ela é apresentada
a uma soturna governanta que concorda em
hospedá-la por uma noite. Inquieta, curiosa
e desobedecendo aos avisos a camponesa
caminha pelas redondezas e se depara com
um homem cavando o chão. Fazendo rapi-
damente amizade com a jovem tagarela e
sendo constantemente reprimida pela go-
vernanta, ela acaba por dar a luz dentro do
hotel e a seu pedido concorda em visitar
a misteriosa e amargurada viúva com o intuito
de consolá-la com seu bebê. Inadvertidamente
ela começa a se envolver mais do que deveria
na sinistra teia de mistérios e segredos que 
rondam a viúva e o pensionato.




Crítica:
Quando assisti a Citzen Dog pela primeira vez
tive a sensação de ter tomado contato com um
diretor de uma visão peculiar, mesmo sabendo
e até concordando com algumas reclamações de
alguns cinéfilos que não gostaram nem um pouco
da semelhança de Citzen com Amélie Poulain.
O que eu não apostava era que o Wisit embarcaria
nas águas do horror gótico na linha de Os Outros
e Os Inocentes. Não só ele embarcou como se saiu
razoavelmente bem.
The Unseeable é um filme com muitos erros e acer-
tos e apesar de considerá-lo uma obra acima da
média tenho lá minhas dúvidas se o diretor fez um gol
chorado ou acertou na trave com um lance de bicicleta.
Algumas atuações me pareceram um tanto histéricas
e afetadas (em especial da jovem tagarela), talvez pela
sua predileção pelo absurdo e situações surreais de seus
filmes anteriores, ele não tenha encontrado um maior
equilíbrio num gênero que exige interpretações mais
controladas. Em algumas cenas o que era para ser
momentos de intensidade dramática (como em toda boa
ghost-love-story que se preze), descamba para a histeria
e histrionismo. Durante seus noventa minutos vemos
uma parada de fantasmas e aparições numa profusão
que acaba por diluir o impacto e efeito em alguns momentos.
Faltam aos sustos e intrusões sobrenaturais a sutileza e le-
veza de um Hideao Nakaka ou Takashi Shimizu ou a obliqui-
dade de um Kiyoshi Kurosawa. Sustos e aparições são tele-
grafadas e acabam por não produzir o efeito esperado (tendo
visto o fantástico Shutter anteriormente pode ter contribui-
do para minha decepção neste aspecto).
Talvez o maior defeito seja justamente esses excessos sobre-
naturais e, mais importante,  a maneira como eles são condu-
zido e/ou manipulados: há uma "objetividade" em The
Unseeable pouco saudável. Objetividade esta que as vezes
passa a impressão de serem "intrusões" não-sobrenaturais, de
não haver um "choque" entre o real e o irreal.
Mas seria injusto não comentarmos suas (muitas) qualidades.
The Unseeable é riquissimo em creepiness e atmosfera e não
se pode negar que o Wisit é um puta dum artesão de imagens,
cada tomada têm a beleza de um cartão postal, e o background
sonoro é em sua maior parte bastante eficiente. A belísssima
paleta de cores de tons predominantemente esverdeados
acaba por dialogar cinematicamente com a paisagem mas
também funcionando como um símbolo para decadência
e putrefação.
The Unseeable está longe de ser um filme perfeito, mas é bom
vermos diretores seguindo a cartilha do gótico clássico numa
época em que a previsibilidade e mesmice do cinema de horror
oriental atinge niveis insuportáveis.

Cotação: ***1/2  de  *****

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Pat & Tik-Resenha de curta de animação



Sinopse:
Homem tenta a todo custo chamar a atenção de uma jovem
num banco de praça. Mal sabe ele que a chave para a con-
quista pode estar em gestos simples.



Crítica:
Nesta pequena vinheta poética de animação, Gibaux nos mostra
como gestos simples e honestidade emocional podem, às vezes,
ser a saída para nossos labirintos e abismos emocionais e existenciais.
O visual puro e inocente, conseguido pela hábil manipulação
de cores alegres e tons suaves, manipulação sonora e varia-
ção tonal no terço final do curta, acabam por criar uma obra
sentimental sem cair na pieguice e melodrama.
Pat & Tik tem a graça e encanto dos melhores Chaplins e a ho-
nestidade e força poética de um De Sica ou Tornattore.

Cotação: ***** de *****

A Night in Malnéant (1929)-Clark Ashton Smith-Resenha de conto


 

Sinopse:
Jovem andarilho consumido pela culpa e remorso por ter
influenciado indiretamente a morte da sua amada, vai parar
em uma misteriosa cidade chamada Malnéant. Pertubado
pelo funéreo badalar dos sinos que o faz retornar a memória
da sua amada e vagando por ruas tortuosas à procura de uma
pensão para passar a noite, ele toma contato com soturnos mo-
radores que se preparam para um misterioso rito funeral e, para
sua surpresa, descobre que a defunta compartilha do
mesmo nome da sua falecida. Confuso e atordoado, comple-
tamente consumido pelo remorso intensificado pelo badalar dos
sinos, o jovem encontra acidentalmente a catedral onde o rito se
desenrola e para lá se dirige a fim de aplacar a dúvida que o con-
some.

Crítica:
Nesta belíssima fábula sobre morte e culpa, 
Malnéant é menos a representação física de uma cidade
que um eco e reflexo da geografia e estado mental
do protagonista: ruas estreitas e tortuosas aparente-
mente sem direção, badalos funéreos que intensificam
as sensações de culpa, remorso, arrependimento,
e melancolia, moradores soturnos que parecem compartiilhar
da dor do protagonista, névoas que encobrem ruas
e ofuscam arquiteturas...
A história tem um ritmo e unidade atmosférica mara-
vilhosos, se lê mais como um poema longo que um
conto propriamente dito. As "pinturas verbais" e imagética
do Smith são de uma beleza ímpar. Em especial a cena
em que ele contempla dentro da catedral congelada no tempo
(o autor sugere que a cidade, e a catedral em particular,
"existem" em um time-stream e/ou espaço temporal isolado
e a parte do nosso) a amada e uma lágrima se congela no
vácuo ou "gelo" temporal (é como se o momento da morte
congelasse no tempo ad infinitum).
A Night in Malnéant é extremamente vago e ambíguo
e alguns pontos não ficaram muito claros , mas por outro lado,
talvez pela riqueza simbólica, caráter ambíguo ou força poética,
me deixou uma profunda impressão como poucas histórias
me deixaram e acabei por reler mais duas vezes (nada me
garante que eu não vá lê-lo novamente nos próximos dias!!!!).
Autores geralmente são os piores críticos de suas obras,
mas neste caso o Smith acertou em cheio ao selecioná-lo para
lendário panfleto/chapbook The Double Shadow and
Other Fantasies resenhado entusiasticamente pelo Lovecraft
no igualmente lendário ensaio O Horror Sobrenatural na Litera-
tura.
Fica difícil imaginar este conto sendo publicado em uma
revista como a Weird Tales: durante sua vida criativa Smith
sofreu e penou com as constantes rejeições de seus contos
e muitas vezes era obrigado a reescreve-los
(leia-se: imbecilizá-los) com o intuito de torná-los mais pala-
táveis para o leitor médio (isso QUANDO conseguia conseguia
publicá-los).
Frequentemente o Farnsworth Wright (editor da revista em
em sua golden age) ) retornava os manuscritos ao autor
com comentários do tipo: "muito bom, mas não se adequa
ao público da revista" o que em outras palavras queria dizer:
bom e sofisticado demais para a revista (o Lovecraft
passou por semelhante situação durante sua vida criativa)
e a triste verdade é que na maioria das vezes o Wright
estava certo, pelo menos no que diz respeito ao gosto do
público médio (o Lovecraft e o Smith eram mais "conhecidos"
na época mais pela INTENSIDADE da admiração de alguns
leitores que pela quantidade de leitores. Uma das ironias
é que a grande maioria dos escritores populares da época
hoje não passam de meras curiosidades históricas enquanto
que uns poucos visionários hoje gozam de crescente
popularidade a ponto do Lovecraft ser incluso na seleta
coleção The Library of America ao lado de gigantes como o
Hemingway e William Faulkner).
A Night in Malnéant é o tipo de conto que costuma
dividir opiniões (quando o lí não tinha a menor idéia
do que esperar) e para leitores que gostam de contos
classicamente estruturados com enredos claros, precisos, sem
ambiguidade e obliquidade poderá desagradar e irritar,
mas como externalização de culpa e remorso provocado
pela perda de uma pessoa querida o conto é uma obra
prima.
Poe e Dunsany em seus túmulos frios, escuros e claustrofóbicos,
estão rindo à toa com tão bela homenagem aos seus escritos.

Cotação: ***** de *****


Sweets to the Sweet (1947)-Robert Bloch-Resenha de conto



Sinopse:
Governanta abandona casa onde trabalha devido aos mal tratos
de um pai para com a filha orfã.

Crítica:

Em se tratando de Robert Bloch quanto menos se souber o enredo,
maior o prazer da leitura.
Sweets to the Sweet é um conto clássico de humor negro em que
a inocência, horror e humor andam de mãos dadas. Rendeu um
belo episódio no filme-antologia da Amicus The House
That Dripped Blood.

Cotação ****1/2 de *****

domingo, 7 de outubro de 2007

Epicuro: Domando Sol (Capítulo 3)



Sinopse:
Em meio a uma pescaria Epicuro e Platão
presenciam a inusitada cena do sol sendo
rebocado (!!!) por uma carruagem que a-
caba por cair no rio gerando um eclipse
momentâneo. Descobre-se que o filho de
Apollo, ao ser ridicularizado na academia,
tenta provar o seu valor e agora o filósofo
da moderação tenta encontrar uma solução
para uma possível catástrofe solar.

Crítica:
Neste capítulo vemos o traço do Kieth sem
o (excelente) colorido dos episódios anteri-
ores e como resultado o que se perde em vo-
lume e dimensionalidade se ganha muito em
detalhe.
Mais breve e talvez menos elaborado que os
capítulos anteriores Domando Sol é movimentado,
tresloucado, ridículo , absurdo e divertido como
os diabos.

Cotação: **** de *****

Ferenc Cako:Sand Perfomance-Resenha de performance com areia




Crítica:
Ferenc Cako é um animador e performer húngaro que usa uma
estranha técnica que ficou conhecida como sand animati-
on
. Basicamente são desenhos "moldados" ou "desenha-
dos em uma superfície de vidro transparente usando areia
fina (como a de praia) e a mão como pincel.
Cako é considerado o melhor do mundo nesta arte que têm
comparativamente pouquíssimos performers. Dono de uma té-
técnica impressionante, em pouco segundos ele é capaz de
"pintar" faces, nuvens, casas e paisagens de uma beleza e preci-
são que beiram a heresia, o efeito é belíssimo.
Acessando o youtube.com e digitando o nome do artista você
poderá vêr esse gênio húngaro em ação.

Cotação: ***** de *****

sábado, 29 de setembro de 2007

Alucarda (1975)-Resenha de filme



Direção: Juan Lopez Monteczuma

Sinopse:

Em um convento de freiras duas jovens passam
a apresentar comportamento estranho e traços
de possessão demoníaca. Em meio a histeria re-
ligiosa e o temor das madres superioras, uma das
jovens é despossuída através de um ritual maca-
bro que acaba por lhe tirar a vida. Em meio ao
caos um padre é chamado para controlar a situ-
ação.







Crítica:

O enredo desta produção mexicana dos anos 70
é apenas uma desculpa para um desfile infindável
de freiras histéricas, jovens maliciosas transbor-
dantes de sensualidade e sexualidade, torturas,
violência, blasfêmias, nudez e muita, muita gritaria.
Monteczuma tem a mão pesada (controle e suti-
leza definitivamente não entram em seu vocabu-
lário cinematográfico). As cenas de possessão
demoníaca e êxtase religioso são tratadas
com um sensacionalismo e histerismo que é
impossivel levá-las a sério e quase sempre indu-
zem o espectador ao riso involuntário. Parado-
xalmente Alucarda é um dos filmes exploitation
mais estilosos já feitos, com um trabalho de fo-
tografia e direção de arte muito acima da média.
Ainda que não seja um filme de todo coeso, al-
gumas cenas, pela sua intensidade visual, são
simplesmente memoráveis e me faz pensar sobre
o resultado final caso fosse dirigido por um di-
retor com uma mão mais leve e mais talento na
direção de atores.
Eu queria gostar mais de Alucarda pois é um fil-
me com muitas qualidades e é certamente uma
obra que merece uma segunda visita (em breve
vou revê-lo) mas de momento o que posso dizer
é que apesar de toda a sua exuberância visual é
preciso ter saco de ouro para suportar tanta gri-
taria, histeria e sensacionalismo.

Cotação: *** de *****

Epicuro o sábio:Os Muitos Amores de Zeus (Capítulo 2)-Resenha de HQ



Sinopse:
Após fundar sua escola de filosofia sem muito sucesso,
Epicuro e seus companheiros da primeira aventura se
deparam com uma série de estranhas ocorrências, todas
envolvendo mulheres que passam por experiências amo-
rosas tanto em sonhos como na realidade e acaba-se por
descobrir que Zeus está a solta com sua libido a todo va-
por destruindo lares e famílias e sua ciumenta mulher Hera
disposta a freiar o maridão tarado usando as mulheres "vi-
timadas" por Zeus como alvo.

Crítica:
Nesta segunda aventura o time artístico tira o pé do freio
de vez e cria um conto descontroladamente hilário, grotes-
co, erótico, safado e escatológico. A arte do Kieth está
comparativamente menos barroca, a diagramação mais con-
vencional, mas o que se perde (um pouco) no departamento
artístico se compensa no maravilhoso texto do Messne-
Loebs ainda mais cativante e hilário que no primeiro capí-
tulo. Sempre achei seu trabalho para a Marvel e DC absoluta
rotina mas depois de Epicuro ele subiu muito na minha escala
de preferência. Das avacalhações e desconstrução de duas fá-
bulas de Esopo (A Raposa e as Uvas e O Rato e o Leão), as
hilariantes intervenções do pequeno Alexandre O Grande, Epi-
curo: Os Muitos Amores de Zeus é um maravilhoso pesadelo cômico.

Cotação: ***** de *****

Swamp Thing V1 #10-Resenha de HQ



Argumento: Len Wein
Desenhos: Bernie Wrightson



Sinopse:
Nos pântanos da Louisiana o Monstro encontra uma ex-escrava
que lhe relata a história de um escravo que, pouco antes de ser
queimado vivo em uma estaca, jura vingança sobre os crimes
cometidos pelo seu captor.
Repentinamente o monstro é atacado pela horda de homens sinté-
ticos liderado por um Anton Arcane ressussitado pela suas criatu-
ras e colocado em um corpo disforme.
Em meio ao conflito, uma antiga maldição começa a tomar forma.

Crítica:
Neste último número produzido pelo time artístico encontramos
o Monstro encarando seu antigo adversário em novos "trajes"
e suas criaturas enfrentando uma "vingança do além". Gostei do
ângulo histórico que funciona muito bem com os elementos horro-
ríficos.
Um fase de ouro se encerra com esta história. Teríamos que esperar
mais de oito anos até que um tal de Alan Moore nos presenteasse com
uma abordagem do pantanoso memorável.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 22 de setembro de 2007

Angst (1983)-Resenha de filme


Direção: Gerald Kargl

Sinopse:
Psicopata recém saído da prisão começa
a apresentar os mesmos impulsos assassi-
nos que o levaram a cela. Sem meios para
conter seus impulsos ele planeja novas mor-
tes e vai parar em uma mansão onde aterro-
riza uma idosa, seu filho com problemas
mentais numa cadeira de rodas e uma jo-
vem, enquanto relembra sua infância proble-
mática com a mãe, irmã e o padrasto.





Crítica:
Filmes sobre psicopatas são figurinha fácil no
mainstream hollyoodeano; alguns deles estão
entre os melhores produzidos neste filão temá-
tico, mas, por maior sucesso comercial e artís-
tico que essas obras alcancem não se pode ne-
gar que a maioria destes filmes pintam um retra-
to um tanto heróico e glamourizado dos psico-
patas e cabe ao cinema independente remover o
verniz romântico, desnudar o protagonista e mos-
trar ao espectador os mecanismos da mente pertu-
bada e criminosa sem frescuras. Angst é um dos
mais realistas filmes sobre psicopatas já feitos, em
parte por um maravilhoso uso do monólogo interi-
or. Praticamente desprovido de diálogos, a ação é
costurada e entrecortada pelos monólogos interi-
ores do protagonista gerando uma espécie de "sus-
tentação" ou "justificativa" psicológica para seus
atos abomináveis. Comparado positivamente por
alguns críticos com o Henry: Retrato de um Assa-
ssino, a meu ver Angst é ainda melhor e no departa-
mento técnico muito superior ao filme do diretor
John Macnaughton.
A trilha sonora eletrônica (típica dos anos 80) é,
em sua maior parte, discreta e eficiente com algu-
mas camas de teclado me lembrando vagamente
as do Mark Snow em Arquivo-X.
A direção do Kargl é segura com boa direção de
atores, mas é no espetacular trabalho de câmera do
premiado curta metragista Zbigniew Rybczynski que se
concentra o poder de fogo de Angst: usando e abusando
de tomadas de longa distância, wide-angle-shots, ân-
gulos impossíveis, e complexos, intrincados movi-
mentos de câmera que transmitem não apenas a an-
siedade e confusão mental do protagonista mas
também a angústia e o desespero de uma mente
profundamente pertubada que o filme se revela mui-
to superior a esmagadora maioria das produções do
gênero.
Angst têm a intensidade alucinada e destreza técnica
dos melhores Argento, simplesmente uma obra prima,
não posso colocar de outra maneira.

Cotação: ***** de *****

The Secret (1966)-Jack Vance-Resenha de conto



Sinopse:
Morador de uma ilha paradisíaca, consumido pela
solidão, após auxiliar um colega na construção de
um barco com o intuito de levá-lo ao oeste, decide
construir um catamaran para reencontrar os anti-
gos amigos e descobrir o Segredo do Oeste.


Crítica:
Os primeiros aspectos que saltam aos olhos nesta
fábula lírica e poética é a ausênsia de humor e uma
surpreendente economia de estilo. Para quem não
sabe Jack Vance é um autor que se especializou em
aventuras e romances planetários com um forte fla-
vour
de fantasia decadente, personagens (melhor
seria classificá-los como "tipos") idiossincráticos
(as vezes deliberadamente flamboyant e caricatos),
humor ultra-refinado, e um estilo complexo, labirin-
tino e barroco que lhe valeram críticas de escritores
como o Brian Aldis, elogios (para não dizer vene-
ração) de contemporâneos como o Terry Dowling
e o fenômeno editorial George R. R. Martin, e uma
fan-base fiel e fanática a ponto de reeditar toda a o-
bra do autor em capa dura com os textos revisados
sem as "intrusões" editoriais tão comuns na pulp
fiction.Vance é amado e odiado na mesma propor-
ção.
Contemplativo e intensamente psicológico, atípico
(para Vance) e praticamente desprovido de plot
com estilo e atmosfera no forefront, The Secret é
uma maravilhosa fábula reflexiva que agradará tan-
to aos leitores dos contos do Orson Scott Card dos
anos 80 como aos admiradores do Robert Silverberg
dos 60 e 70.
Altamente recomendado.

Cotação: ****1/2 de *****

Epicuro o sábio:Visitando o Hades (Capítulo 1)-Resenha de HQ



Sinopse:
Na Grécia antiga o filósofo Epicuro chega a Atenas
com o intuito de abrir uma escola de filosofia. Na
acrópole ele toma contato com Sócrates, Aristóteles,
e se une a Platão e um temperamental Alexandre O
Grande adolescente para combater, a pedido de ou-
tro filósofo, uma catástrofe glacial provocada por
uma deusa da natureza, após sua filha Perséfone ter
sido sequestrada por Hades e levada as profundezas
do inferno.

Crítica:
Tenho lido a respeito dessa revista há vários anos
e confesso que nunca me despertou o menor interesse,
até tomar conhecimento do time artístico por trás desse
gibi. Messner-Loebs e Sam Kieth (mais conhecido pelo
público mainstream como o co-criador de Sandman) são
a força criadora por trás de The Maxx, um dos gibis mais
idiossincráticos e insanamente geniais já criado. Claro que
isso não garante nada, mas quando se toma contato com
um artista tão original, criativo e vigoroso como o Kieth (
não é de estranhar que ele tenha se sentido criativamente
preso na Sandman e tenha abandonado o gibi após 5 edi-
ções) as expectativas aumentam consideravelmente.
Epicuro têm uma proposta extremamente ousada: misturar
filosofia, mito, história e humor em um gibi cujo desenhista
demonstra forte inclinação para o grotesco, caricato, absur-
do e surreal. Ao argumentista resta a difícil tarefa de equili-
brar e costurar elementos e referências históricas e filosóficas
na tapeçaria narrativa e temperá-la com boas doses de imagi-
nação e humor. O que era para ser um amontoado de refe-
rências costuradas numa boneca de pano disforme, se trans-
forma num maravilhoso gibi histórico-filosófico com uma
narrativa ágil, leve mas ao mesmo tempo erudita; a mágica
funcionou e apesar das minhas tentativas de destrinchá-la o
truque ainda continua guardado a sete chaves pelo time cria-
tivo.
Inteligente, engenhoso e hilário, Epicuro é um gibi absolu-
tamente indispensável.

Nota sobre a edição brasileira:
Mais uma vez a Editora Conrad dá um show de profissionalismo
e respeito ao leitor com uma edição em capa dura, muito bem
editada, traduzida, impressa e com um exclusivo e informativo
prefácio que dá um bom contexto para os leitores não familiaria-
rizados como história, mitologia e filosofia (deixa no chinelo a
edição americana).

Cotação: ***** de *****

Swamp Thing Vol1 #9-Resenha de HQ


Argumento: Len Wein
Desenhos: Bernie Wrightson

Sinopse:
Ao retornar ao pântano da Louisiana o Monstro
descobre em seu antigo laboratório uma nave ali-
enígena e entra em um conflito quase fatal com o
alien após descobrir que ele usou equipamentos e
material do seu laboratório para tentar reparar a
nave e com isso impossibilitando o Monstro de
desenvolver a fórmula que poderia o reverter a sua
antiga forma humana.
Matt Cable, a mando do governo, auxilia o resgate
da nave e captura do alienígena, mas a criatura con-
tará com uma ajuda inesperada.


Crítica:


Neste conto de FC o verdão mais uma vez exercita seu huma-
nismo criando um estranho laço com o alien após o confronto
inicial e ultimamente o auxiliando na fuga do nosso planeta.
Belo conto.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 15 de setembro de 2007

Umberto D. (1952)-Resenha de filme



Direção: Vittorio De Sica

Sinopse:
Idoso solitário, prestes a ser despejado da pensão,
tenta arrecadar fundos vendendo objetos pessoais en-
quanto se desentende com a pensionista e cuida do
seu cão vira-lata.



Crítica:
Em Umberto D. De Sica exercita toda sua sensibilidade e
humanismo, mas desta vez seu olhar é mais melancólico e
desiludido que em Ladrões de Bicicletas. Nele também es-
tão presentes todos os elementos que eu classificaria co-
mo "siqueanos": excelente uso de locações externas tornan-
do a cidade quase como um personagem, interpretações na-
turais (ninguém "dirige" atores amadores como o De Sica),
boa dose de sentimentalismo sem nunca descambar para
xaropada, cenas de grande força poética (a sequência em
que o protagonista se recusa a pedir esmolas e coloca seu
vira-lata para fazer o "serviço sujo" é inesquecível), humor
low-key, understated e melancólico (a cena em que ele veste
sua melhor roupa para ser carregado de maca para o hospital
é de uma beleza e simplicidade absurdas, mas ao mesmo tempo
hilária e profunda), e uma graça e sensibilidade ao tratar da
condição humana que muito me lembra o Chaplin.
Pela seu tom melancólico e fatalista Umberto D. pode não ter
para algumas pessoas o mesmo fascínio e encanto que Ladrões
de Bicicleta, mas nele vemos De Sica no topo da forma.
Falar de mestres é andar em círculos, é chover no molhado, é
ser previsível, portanto me perdoem se eu cair no óbvio:
VITTORIO DE SICA É GÊNIO.

Cotação: ***** de *****

The Horla-Guy de Maupassant-Resenha de conto



Sinopse:
Cidadão de classe média passa a sentir em sua casa
a presença de uma entidade invisível que se alimenta
de água e leite. Fatigado físico e mentalmente pela su-
posta criatura, viaja para fora e após presenciar uma
poderosa sugestão hipnótica em que ele nota uma estra-
nha conexão com suas experiências, retorna a sua casa.
Batizado de Horla, sua presença se faz gradativamente
mais dominadora e aos poucos a vítima sucumbe a cria-
tura.

Crítica:
The Horla é um conto de loucura e paranóia como nenhum
outro. A descida gradual a loucura do protagonista é narrada
com uma intensidade e realismo psicológico digno dos melhores
contos do Edgar Allan Poe; notável também é a maneira como
o Maupassant estrutura o conto (mini capítulos divididos em
mês e data) permitindo que o leitor acompanhe "de perto" e
passo a passo o drama do protagonista (existe uma primeira
versão deste conto estruturado de maneira tradicional porém
menos impactante). Apesar do leitor atento sacar logo de cara
que a criatura invisível não passa do produto de uma mente
pertubada, o modo como o Maupassant sugere sua existência
e a maneira como ela afeta o protagonista é um primor de
artesanato. As constantes alusões a uma nova raça de seres,
ao seu poder de influência sobre os humanos e o parágrafo
final, são de gelar o sangue e vender os tabletes como picolé de
morango no maracanã em dia de Fla-Flu.
The Horla é considerado a obra prima do Maupassant e a meu ver
justifica toda a fama que têm.

Cotação: ***** de *****

AMPHIGOREY AGAIN-Resenha de HQ em inglês





Review:

Amphigorey Again is a wonderful addition to the now
classic Amphigorey Series (the others being Amphigorey,
Amphigorey Too and Amphigorey Also).
Said that this fourth volume is by far the weakest,
but that's not to say it's bad (remember we're not
talking about hacks) : Gorey in his less inspired moments
is still worth buying.
There are a number of very short pieces here as well as some
wonderful ilustrations but the most interesting pieces
are the lenghty ones, even though some of them seems
like an incomplete draft.
Amphigorey Again is not the best introduction  for those
who wants to immerse for the first time in Gorey's
demented genius but if you are a Gorey addict this volume
is ABSOLUTELY INDISPENSABLE.
 
AMPHIGOREY AGAIN:

The Galoshes of Remorse (illustration) ==========
Signs of Spring ================================= ***1/2
Seasonal Confusion ============================== ***1/2
Random Walk ===================================== ***1/2
Category (illustration) =========================
The Other Statue ================================ ****
10 Impossible Objects =========================== -
The Universal Solvent =========================== -
Scénes de Ballet ================================ ***1/2
Verse Advice ==================================== ***
The Deadly Blotter ============================== ***
Creativity ====================================== ***
The Retrieved Locket ============================ ***
The Water Flowers =============================== ***1/2
The Haunted The-Cosy ============================ ***1/2
Christmas Wrap-up (illustration) ================
The Headless Bust =============================== ****
The Just Dessert ================================ **1/2
The Admonitory Hippopotamus ===================== ***1/2
Negected Murderesses ============================ ***1/2
Tragédies Topiaries ============================= ****
The Raging Tide ================================= ****
The Unknown Vegetable =========================== ****
Another Random Walk ============================= ***1/2
Serious Life: A Cruise ========================== ***1/2
Figbash Acrobate (Illustrations) ================
La Malle Saignante ============================== ****
The Izzard Book ================================= ***