sábado, 17 de fevereiro de 2007

The Marquis:Danse Macabre - Resenha


The Marquis: Danse Macabre (Oni Press, Tpb 170 pg)

AVISO: Esta é uma série difícil de ser resenhada sem entregar o jogo, portanto tenham em mente que o meu texto pode conter possíveis SPOILERS.

Sinopse:
Em uma França medieval que nunca existiu, em uma cidade de nome Venisalle controlada pelos exércitos Herzogueanos e pela inquisição, a massa comum vaga pelas ruas usando máscaras grotescas para esconder seus pecados; aqueles que se opõem ao regime são subjugados pelo exército e entregues a toda sorte de torturas e humilhações promovida pela inquisição. Para o expurgo dos pecados e "limpeza" da alma existe o confessionário, imensa estrutura dividida em salões orgiásticos onde ocorre todo tipo de depravações. Em meio a esse cenário caótico entra em cena Vol de Galle (o The Marquis do título), ex-soldado e inquisidor, que após uma crise espiritual gerada por dúvidas quanto ao seu papel de torturador e inquisidor, é supostamente visitado por um santo que lhe confere a missão de expulsar os demônios da massa comum, mandá-los de volta ao inferno e consequentemente expurgar os pecados das vítimas. Para isso ele mune-se com duas pistolas e um estranho espeto para torturar as supostas vítimas com o intuito de enfraquecer os demônios que habitam dentro deles e aplicar o golpe final.

Crítica:
O primeiro aspecto que salta aos olhos é o caráter extremamente ambíguo desta série.Vol de Galle é um personagem enigmático e complexo, se ele é heroi, anti-herói, justiceiro, vigilante, psicótico ou fanático religioso, depende inteiramente da interpretação do leitor. Seus atos as vezes são justificáveis, outras me parecem produto de um psicótico ou fanático religioso, e é justamente esse caráter ambíguo, esse constante questionamento do real, esse jogo de percepções e realidades, que é a força motriz da série .O traço do Guy Davis (mais conhecido no Brasil como o desenhista do B.P.D.P. e Sandman Teatro do Mistério) é sujo, solto, leve e com um nível de detalhe que beira a obssessão, e é justamente nos desenhos do Davis que essa França alternativa ganha vida e se torna o personagem principal. Pode-se comparar o trabalho do Davis (e consequentemente a série) com o trabalho do Eddie Campbell em Do Inferno, ambos artistas compartilham da estética do "unbeautiful".
Não existe refresco nem "leitura fácil", a cada quadrinho o leitor é instigado e questionado.Vol de Galle, habitantes, polícia, todos são participantes de um insano baile de máscaras onde nada é o que parece, nada é fixo ou permamente, inocente se torna culpado santo vira pecador e no processo o pobre leitor, tonto e exausto, é tragado no turbilhão de culpa, incerteza, dúvida, questionamento, pesadelo e desespero. Talvez a nossa única certeza seja a influência perniciosa da inquisição na sociedade. Ainda que alguns pontos do enredo não tenham ficado muito claros e uma cena em particular tenha me soado particularmente confusa, a conclusão final é extremamente engenhosa e satisfatória.
Ainda que possa ser comparada positivamente com Do Inferno, seria mais justo compará-la às obras do Philip K. Dick e outros escritores da irrealidade.
Por ter sido lançada por uma editora independente e produzida em preto e branco, por abordar temas polêmicos como fanatismo religioso, psicose, distorção espiritual e perda da fé, pela sua erudição e approach mais literário, The Marquis pode não agradar ao leitor tradicional, mas quem se interessar por uma HQ mais sui generis The Marquis: Danse Macabre é O gibi.

****1/2  de ******

2 comentários:

Orc Bruto disse...

O traço me parece semelhante ao de algumas ilustrações do RPG Vampiro: A Máscara, sobretudo do Livro do Clã: Nosferatu. Será o ilustrador o mesmo?

Ramon Bacelar disse...

Bem observado.É o mesmo.