sábado, 28 de abril de 2007

Os pequenos gigantes do cinema fantástico-Parte 1

É fácil falar dos gigantes consagrados.
Fácil demais.
Este post é dedicado a três PEQUENOS GIGANTES do cinema fantástico.



Pupi Avati:


A produção fantástica do Avati se resume a 4 ou 5 filmes (ele é mais conhecido como um realizador mainstream), mas das poucas vezes que se aventurou no cinema de gênero dei-
xou sua marca. Apesar de obras tão díspares como O Arcano Encantador e Zeder, seus filmes fantásticos são caracterizados por um meticuloso build -up, sutileza e uma finura psicoló-

gica digno dos melhores Hitchcock. Sua obra prima, e um dos melhores thrillers psicológicos
já feitos, é o House With the Laughing Windows.


Yasuzo Masumura:



Se o Masumura tivesse feito apenas The Blind Beast (a mais perfeita tradução do universo obssessivo e paranóico do Edgar Allan Poe, ainda que não tenha sido baseado diretamente em nenhuma obra), já mereceria ter entrado para a história.Trabalhando sempre como diretor contratado, conseguiu impôr sua visão cinematográfica em meio a máquina do cinema comercial japonês; seus filmes têm a acessibilidade do cinema de entretenimento porém com uma identidade toda própria; neste ponto seu cinema pode ser comparado favoravelmente ao do Sam Peckinpah e Samuel Fuller. Dono de uma obra extensa (mais de 50 filmes) e diversificada, filmou praticamente de tudo: de horror psicológico (o já citado The Blind Beast) a dramas eróticos assombrados pelo espírito de Poe (Manji), sátira pop (Giants and Toys), gangsters (Afraid to Die) dramas de guerra sobrenaturais (Red Angel), comédias etc. Admirado por mestres como Nagisa Oshima, é considerado como o pai e grande precursor da new wave japonesa dos anos 60.


Jan Svankmajer:

Apelidado pelos admiradores (dentre eles o famoso roteirista de HQ`s Grant Morrison que declarou ter se inspirado em sua obra para criar os delírios psicótico-surrealistas do genial gibi A Patrulha do Destino) como O Alquimista do Surreal , primeiro deixou sua marca, a partir dos anos 60, numa série de curta-metragens em que misturava live-action, animação em stop-motion, humor negro, crítica social, surrealismo grotesco e escatológico em obras de grande impacto e intensidade visual. A partir dos anos 80 estréia no mundo dos longas com uma maravilhosa releitura pós-moderna de Alice no País das Maravilhas; a ele segue-se (sempre fiel a sua filosofia artística) Faust (mais outra releitura) e outros filmes surrealistas de alto calibre; ainda está na ativa. As obras do Svankmajer tendem a despertar reações extremas; não têm meio termo, ou você ama ou odeia.Talvez seja o último rebelde do cinema. Nas próximas semanas estarei dando continuidade a este post.

Ladrões de Bicicleta-Resenha de filme


Ladri di biciclette - Direção:Vittorio de Sica, 1948

Sinopse:
Numa Itália pós-guerra com um alto índice de desemprego,
desempregado consegue serviço como "colador de posters"
mas no primeiro dia têm a sua bicicleta roubada e parte numa
busca desesperada, junto com o filho, pelos bairros pobres a fim
de recuperar seu indispensável instrumento de trabalho.



Crítica:
Para um cinéfilo que já passou e muito dos três mil filmes
assistidos (incluindo reprises e séries de tv), elaboração
de listas dos melhores filmes é sempre uma tarefa excrucian-
te; esquecimento e injusticas sempre pairam como nuvens
negras durante o processo e o resultado é quase sempre insa-
tisfatório devido as limitações de espaço. Se por um lado a
dúvida está sempre presente, por outro há aqueles filmes que,
nunca, jamais (pelo menos para mim) saem da lista e ge-
ralmente são os primeiros que me vêm a mente. Um Corpo
que Cai, O Crepúsculo dos Deuses, A Montanha dos Sete
Abutres, Kwaidan, O Homem de Palha e... Ladrões de Bicicleta.
Clássico máximo do neo-realismo italiano, o mestre Vittorio de
Sica conseguiu o que muitos tentam mas poucos realmente conseguem: fazer um filme extremamente simples, accessível, poético, até sentimental (porém sem jamais cair na pieguice)
mas ao mesmo tempo profundo e filosoficamente complexo.
As linhas que separam o simples do simplório, sentimental do
piegas, acessibilidade do "comercialismo barato" são tênues e
só os poetas dotados de gênio e uma sensibilidade sobrenatural são capazes de transformar matéria bruta em pura poesia visual,
fazer o simples parecer fácil; mágica e poesia
são sinônimos e cinema a arte da ilusão.
O diretor, movido pela necessidade econômica em filmar fora dos estúdios,
tira o máximo das
limitações da produção e faz um ma-
ravilhoso uso das locações externas levando o espectador a um tour
pelas áreas mais pobres e
pelo drama humano.
A fotografia é um importante componente no sucesso artístico do filme:
na medida que o diretor
nos joga na espiral dos dilemas e dramas humanos
a fotografia se torna progressivamente mais escura.
Mas talvez seja na extraordinária direção de atores que de Sicca demonstre com maior clareza sua genialidade. Composto quase que exclusivamente de atores amadores, ele arranca
"performan
ces" de uma naturalidade e honestidade emocional que beiram a heresia.
Ladrões de Bicicleta encanta o espectador por ser acima de tudo
um filme honesto em seus
sentimentos e emoções, mas também é hipnoticamente devastador.
Inesquecível.

Cotação: ***** de *****

The Slap of Charlotte Corday-Alexandre Dumas - Resenha de Conto


Sinopse:
Em um jantar da classe alta, convidados debatem sobre uma
pouco ortodoxa teoria científica sobre o recebimento de es-
tímulos sensorias de uma cabeça mesmo depois de separada
do corpo por meio da guilhotina. Discordando veemente des-
ta teoria, médico concorda em ouvir uma estranha história vi-
vida pelo anfitrião que lhe garante a veracidade da mesma.
O anfitrião conta um bizarro conto de como seu interesse
pela estranha teoria foi incendiado após presenciar o guilho-
tinamento de Charlotte Corday (assassina de um dos líderes da
revolução francesa) e de um subsequente estímulo de sua ca-
beça já decepada após receber um humilhante tapa do excecu-
tor. Após este intrigante incidente, o anfitriào conta como en-
controu uma misteriosa jovem e de como ele ajudou ao seu pai a
fugir da França, em meio as suas pesquisas envolvendo a "teoria
dos estímulos após guilhotinamento".

Crítica:
Horror embebido em história ou história com toques de horror?
Sim, assim como seus colegas contemporâneos, o autor de Os Três Mosqueteiros, O Homem da Máscara de Ferro e mais outros clássicos do "romance de folhetim" (nome dado aos romances populares publicados na França no século 19 que hoje corresponderiam aos best sellers) também caminhou pelas estradas mais escuras da literatura.
Charlotte Corday começa muito bem com um instigante debate pseudo-científico sobre estímulos pós-mortem, porém ao desen-
rolar da narrativa, o ângulo histórico acaba aos poucos por dissipar os efeitos de horror e consequentemente o interesse do leitor.
Talvez o problema seja muito mais comigo, mas a meu ver o conto foi uma escolha inadequada para inclusão em uma antologia de contos fantásticos , pois, apesar dos elementos fantásticos, o ângulo
é histórico.
Os elementos históricos são inseridos no texto sem que estes prejudiquem o ritmo folhetinesco
(Dumas era um storyteller de alto
calibre) mas a meu ver o que falta ao conto é a densidade linguistica de um Villiers ou o aprofundamento psicológico do Balzac.
O final é um espetáculo gore/grand-guinol digno de um Tales from the Crypt mas no final o conto acaba funcionando melhor como ficção histórica que horror.

Cotação: ***1/2 de *****

sábado, 21 de abril de 2007

The Sign(1868) / Véra (1876)-Villiers de l'Isle-Adam-Resenha dupla de contos



The Sign

Sinopse:
Advogado parisiense hipersensível e com tendência
a crises de melancolia,
viaja para um vilarejo para se
encontrar
com um padre amigo de longa data.
Ao chegar no presbitério e durante sua
estada, ele
passa por uma série
de "experiências metafíscas" a que
atribui a fadiga mental e emocional.
Ao voltar a Paris em
caráter emergencial, encontra-se
com o criado
do padre que lhe faz um estranho pedido.

Crítica:
Em suas incursões pelo metafísico-espiritual, Villiers
(mais conhecido como o criador e
divulgador do subgênero
conte cruel: contos em sua maioria
não-sobrenaturais que bus-
cam
ressaltar o lado negro da natureza humana e investigar
a capacidade
humana para o sadismo e crueldade sem sen-
sacionalis
mo, porém com doses de cinismo e ironia) têm usado
o sobrenatural, dentre outros propósitos, como veículo de ques-
tionamento e investigação da natureza da realidade.
The Sign põe em dúvida o racionalismo do advogado mas nunca
"entrega"
totalmente o jogo.
Assim como em Véra, a ambiguidade é magistralmente manejada
pelo Villiers,
mas a linha final do conto deixa mais ou menos claro a
"vitória"
do sobrenatural-espiritual sobre o material.
Que fique claro que o autor não é mais um daqueles propagandistas
sem talento tão comuns no
século dezenove que usavam a ficção
sobrenatural
como meio para divulgação de idéias pseudocientíficas
e teorias fantasiosas em meio a onda espiritualista da época.
Seu trabalho é muito mais uma reação violenta aos movimentos
realista e
naturalista que procuravam "reproduzir a realidade
em sua particularidade" q
ue fazer qualquer tipo de proselitismo
místico-espiritualista.
As manifestações supostamente sobrenaturais são narradas com
uma
sutileza, precisão e economia de efeito que só o amor a arte
da palavra escrita pode produzir.
Um conto magistral.

Cotação: ****1/2 de *****



Véra

Sinopse:

Aristocrata francês perde a jovem esposa subitamente

e após visitá-la pela última vez no mausoléu da família
cai em uma profunda melancolia.
Ao retornar para sua mansão, aos poucos é tragado pela
pela ilusão da presença da finada e fantasia seu cotidiano
com a amada como se ela não tivesse falecido. Sua "pre-
sença" na mansão se faz gradualmente mais forte, até que
no primeiro aniversário de sua morte...

Crítica:
"O amor é mais forte que a morte" assim começa esta fanta-
sia-onírico-decadente em que a atmosfera de profunda tris-
teza e melancolia reina suprema. O tema da esposa morta
que volta da tumba para o seu amado é um dos grandes temas
do decadentismo francês, mas no conto do Villiers ele atinge
um grau de beleza, finura psicológica e refinamento artístico
que, a meu ver, nem o Allan Poe conseguiu alcançar. A tensão
entre o "supostamente" real e o irreal, é conduzido magistral-
mente, graças ao perfeccionismo quase patológico do autor.
Véra é profundamente romântico sem ser piegas, dramático
sem cair no melodrama, decadente sem os excessos do movi-
mento. Não seria injusto colocá-lo entre as mais bonitas fanta-
tasias oníricas já escritas.

Cotação: ***** de *****

Dica: Estes contos foram lançados no Brasil na coletânea Contos Cruéis da editora Iluminuras.


The Veiled Man (1891)-Marcel Schowb-Resenha de Conto


Sinopse:
Homem psicologicamente pertubado adentra um va-
gão de trem e lá encontra apenas dois passageiros.
Influenciado pelo contínuo movimento e pulsação do
trem, seus pensamentos o levam a memória de um cri-
minoso que agia em vagões de trem de alta classe e
passa a desconfiar dos dois passageiros.

Crítica:
Ao término da leitura, palavras como patologia emocional,
alienação, identidade e ambiguidade nos vêm a mente.
O autor, logo nos primeiros parágrafos, nos joga em meio
a uma mente profundamente pertubada, e apesar da qua-
se certeza do leitor quanto a identidade do suposto criminoso,
é impossível não nos identificarmos. Neste fascinante jogo
de realidades onde a ambiguidade reina suprema (em parte
pela utilização da técnica do unreliable narrator) e nada
é fixo, Schwob em apenas duas páginas e meia, nos leva a um
tour
por uma mente pertubada com um refinamento e realis-
mo psicológico que faz os blockbusters americanos como
O Silêncio dos Inocentes parecerem romances escritos pela
Barbara Cartland.
The Veiled Man
é um belisíssimo conto psicológico como
só os simbolistas franceses (com as suas incessantes investi-
gações e explorações do subconsciente) sabem fazer.

Cotação: ***** de *****

The Red Inn (1831)-Honoré de Balzac - Resenha de Conto


Sinopse:
Na França no século 19, em um jantar promovido por um
banqueiro, mercador alemão entretém os convidados
contando uma estranha história de dois jovens assistentes
médicos, viajando de Boon para Andernach, que se hospe-
dam em uma taberna (a Red Inn do título) e fazem uma rá-
pida amizade com um alemão que, após uma bebedeira que
lhe solta a língua, lhes confidencia que carrega uma fortuna
em sua mala. À noite um dos assistentes, tentado pela for-
tuna, arquiteta um meticuloso plano para roubar o dinheiro
e se livrar do corpo do alemão, mas na hora h se arrepende e
sai da taverna por algumas horas para se acalmar.
No dia seguinte a cabeça do alemão é encontrada decepada
ao lado da cama, com o dinheiro e o outro médico-assistente desaparecidos.
Atormentado por um complexo de culpa por ter arquitetado um
plano tão elaborado (mesmo que não tenha executado o ato),
é levado a tribunal e condenado a
morte (ainda que não se tenha
notícia do paradeiro do dinheiro e do colega assistente).

Crítica:
No século 19, com o sucesso das traduções do americano Edgar
Allan Poe e do alemão E.T.A. Hoffmann, a França passava por
uma nova onda de literatura fantástica que acabou gerando uma
imensa quantidade de
imitadores e alguns escritores de nota trei-
naram a sua pena neste novo modo de literatura fantástica.
The Red Inn é uma tentativa deliberada de emular os temas
e modos do Hoffmnan e a meu ver, graças ao calibre do Balzac,
ele o faz com sucesso.
Ainda que os detalhes históricos acabem as vezes por pesar um
pouco na narrativa, o conto é um
maravilhoso exemplo de como
a idéia ou pensamento de um crime pode ser tão prejudicial para
um indivíduo como a execução propriamente dita. No conto o
assassino que cometeu o crime em "pensamento" é punido com
a morte, enquanto o executor desfruta da fortuna em liberdade
(mas não sem culpa e angústias).
Com um estilo lúcido e total controle autoral (o estilo
de Hoffman as vezes me parece como um caminhão sem
freios com as palavras por vezes "fugindo" do seu controle),
Balzac emula com perfeição o histerismo e intensidade psico-
lógica do seu modelo alemão e nos joga num mundo de culpas,
angústias e dilemas dostoyevskeanos ainda mais profundo e inci-
sivo que os contos do excêntrico alemão.
The Red Inn é intelectualmente estimulante, filosófico,
psicologicamente refinado e
profundamente pertubador.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 14 de abril de 2007

Malpertuis- Resenha de filme


Direção: Harry Kumel, 1971

Sinopse:
Jovem marinheiro em passagem pela sua cidade
natal, se envolve em uma confusão num bordel,
é atingido na cabeça e desperta em uma gigantes-
ca e enigmática mansão gótica habitada por um lor-
de moribundo (Orson Welles) e lá encontra sua irmã,
parentes e excêntricos moradores à espera da leitura
de um testamento e divisão de bens. Ao explorar a ex-
travagante mansão e aos poucos tomar contato com os
moradores, fica evidente ao marinheiro a existência de
segredos guardados a sete chaves. Em meio a explora-
ção frenética e paranóica, a fim de descobrir seus segre-
dos, acaba se apaixonando perdidamente por uma mora-
dora.


Crítica:
Cinema é uma arte fascinante e misteriosa. Existem aqueles
filmes que um cinéfilo atento nota logo de cara o esmero por
trás da obra; mas, ainda que os milimetrados movimentos de
câmera demonstrem um invejável conhecimento técnico ou a
riqueza de um roteiro literato e bem escrito fique evidente, o
resultado final, em alguns casos, acaba sendo opaco e tedioso.
Num pólo oposto, há aquelas obras que, apesar de visíveis falhas,
acabam por exercer um estranho fascínio no espectador.
Malpertuis é uma dessas obras.
A meu ver, seu ritmo irregular, falta de foco e humor grotesco
e caricato (quase felliniano) que nem sempre funciona (mas que
acaba contribuindo involuntariamente para a atmosfera paranói-
ca e demencial do filme) lhe tira o status de obra prima.
O diretor belga Harry Kumel, mais conhecido pelo clássico vam-
pírico art-house Daughter of Darkness, é um notável estilista vi-
sual e o seu afastamento do cinema fantástico gerado pela fracas-
so de bilhetria de Malpertuis (na época o filme mais caro feito
na Bélgica) é uma daquelas tragédias irreparáveis. Em seus dois
fil
mes assumidamente fantásticos ele trouxe uma rara cultura
e refinamento visual que o coloca naquele seleto clube dos gênios
no
qual o Bava, Tourneur e o Avati fazem parte. Não têm uma cena
que não seja um colírio para os olhos, um ângulo que não seja criativo.
A paleta de cores é rica e extravagante,
com berrantes vermelhos
e azuis nos provocando a cada segundo.
Fica difícil me aprofundar na história sem entregar o jogo, mas po-

sso adiantar que um elemento insatisfatório que não me agradou em
2/3 do filme acaba por ser parcialmente explicado no final
, mas...
o que posso dizer é que Malpertuis é uma fantasiagótico-barroco-
onírico-paranóico-demencial.
É como se o Fellini filmasse uma
fantasia psicótica roteirizada pelo
Philip K. Dick, ou, .. não, não
é nada disso; assista Malpertuis e tirem conclusões.

Cotação: ****1/2 de *****

Crime and Punishment - Resenha de curta metragem

Direção: Piotr Dumala, 2000

Sinopse:
Jovem assassina velha agiota e passa a ser assombrado
por um sentimento de culpa.


Crítica:
Piotr Dumala é o maior animador polonês da atualidade,
e um dos maiores do mundo. Esta adaptação livre do fa-
moso romance do Dostoyevsky é por demais abstrata e
elíptica para ser comentada objetivamente, mas as imagens
falam por sí. Dumala usa uma técnica de animação com ge-
so que resulta em uma animação esteticamente belíssíma.
A paleta de cores é predominantemente marrom-avermelhado
e seu estilo de direção puro Tarkovsky.
Ainda que alguns elementos da (mínima) história não tenham
ficado muito claros para mim, Crime and Punishment é um be-
líssimo exemplo da animação produzida no leste europeu.


Cotação: ****1/2 de *****

Franz Kafka-Resenha de curta metragem:

Franz Kafka-Resenha de curta metragem

Direção: Piotr Dumala, 1992


Sinopse:
Momentos da vida
do escritor tcheco,
da sua pré-adolescência a idade adulta.





Crítica:
Não muito a acrescentar ao que já foi dito em Crime
and Punishment exceto que desta vez o Dumala usa
uma paleta branco e preta (a reconstituição de praga
é linda) e adota um tom semi-documental entrecortado
por símbolos e imagens provenientes do seu romance
A Metamorfose.


Cotação: ****
de *****

The Collected Stories of Robert Silverberg Volume One: To Be Continued-Resenha de livro





The Collected Stories of Robert Silverberg Volume One: To Be Continued
Subterranean Press, 392 páginas

Em minhas peregrinações consumistas pela internet,
me deparei com um ambicioso projeto da editora in-
dependente Subterranean Press: lançar a quase totali-
dade da obra contística do Robert Silverberg em 9 vo-
lumes em capa dura. Imediatamente coloquei em mi-
nha wish-list, porém com um pé atrás em relação ao
primeiro volume que se propunha a reunir os seus me-
lhores contos escritos nos anos 50, fase em que o Silver-
berg trabalhava no piloto automático como escritor de
encomenda. Minhas experiências anteriores com o Sil-
verberg cinquentista não foram muito animadoras. Em
sua maioria, sua ficção científica era composta por aven-
turas slam bang com muito barulho, movimento e pouca
substância (seus melhores contos aventurescos de FC
dessa fase foram reunidos num volume da mesma editora
entitulado In the Beginning). Não que eu não goste deste ti-
po de FC, mas a meu ver outros escritores dos anos 30, 40 e
50 já fizeram melhor. Para minha surpresa, me deparei com
contos que se distanciavam da fórmula pela qual ele ficou co-
nhecido nos anos 50.
Neste volume vemos um jovem Silverberg em fase de aprendi-
zado, é verdade; mas um aluno extremamente interessado e
ambicioso, que não se cansava em experimentar: seja imitan-
do deliberadamente os seus ídolos ou tentando encontrar a sua
voz literária.
Para mim, como fà incondicional dos seus trabalhos dos anos 60
e 70, o mais gratificante foi descobrir um novo Silverberg.

Contos:

The Gorgon Planet (1953)

Sinopse:
Equipe de astronautas e pesquisadores encontram companheiro
misteriosamente petrificado em meio a vastidão vermelha do
planeta Bellatrix IV.
Líder da equipe organiza uma busca dividida em grupos e em meio
as investigações, outro membro da equipe é encontrado nas
mesmas condições. O plano B é posto em prática, desta vez com
o conhecimento prévio da forma e comportamento do inimigo.


Crítica:
Escrito aos 18 anos de idade, The Gorgon Planet foi a primeira
venda profissional da longa e prolífica carreira do Silverberg.
Apesar do enredo ser puro clichê (não muito longe do que era
publicado na época nas revistas de FC do segundo e terceiro es-
calões) e da escrita estilo "piloto automático" (distante do estilo
literário, intimista e emocional das suas histórias dos anos 60) o
conto funciona razoavelmente bem como diversão
despretensiosa e escapista.
Um criativo e inesperado twist no finalzinho contribui para a
minha cotação.

Cotação: **1/2 de *****


Road to Nightfall (1954)

Sinopse:
Em uma Nova York consumida e devastada por
guerras e conflitos, a escassez de comida obriga
aos cidadãos a recorrerem a outros meios de ob-
tenção de alimento. Quando a cidade é excluída do
fornecimento de alimentos e a população privada
das doações, a situação se agrava e eles começam
a recorrer ao canibalismo e tráfico de carne humana.
Em meio a esse cenário desesperador, Paul Katterson
se agarra aos últimos resquícios de ética e dignidade
que lhe resta e tenta sobreviver neste mundo caótico.

Crítica:
Finalizada em 1954, mas publicada quatro anos mais
tarde por ser considerada chocante demais pelos edi-
tores da época, Road to Nightfall é considerada, a meu
ver com toda justiça, como a melhor história escrita
pelo Silverberg na primeira fase de sua carreira. É tam-
bém prova cabal do seu talento precoce (escrita aos 18
anos de idade).
O drama e o dilema do personagem central são muito bem
trabalhados e em certos momentos me senti seguro e aliviado
em ser um mero espectador.
As descrições de uma Nova York em ruínas, narradas num
estilo frio e impessoal, são plausíveis e realistas.
Road to Nightfall é um conto memorável e minha im-
pressão final é de assombro e maravilhamento.
Renderia um belo filme.

Cotação: ***** de *****


The Silent Colony (1954)

Sinopse:
Três criaturas do Ninth World vagam pelo espaço
a procura de seres da mesma espécie; após de-
tectarem vagos sinais de vida inteligente no Third
World, aterrisam no planeta com o intuito de colo-
nizá-lo e encontram criaturas semelhantes a sua
espécie, porém com uma diferença fundamental.

Crítica:
Este mini conto escrito à moda do Robert Sheckley,
apresenta uma das mais esquisitas concepções alie-
nígenas da FC (revelar mais do que isso é estragar
a surpresa).
Apesar de se estender por pouco mais de duas páginas,
este engenhoso e criativo conto demonstra grande ri-
queza de imaginação.
Como a maioria de suas melhores histórias dos anos 50,
The Silent Colony é imaginativo, despretensioso e diver-
tido.

Cotação: **** de *****


The Songs of Summer (1955)

Sinopse:
Após distúrbio no tecido espaço-temporal, ambicioso
e frustrado cidadão do século XX é arremessado para
um futuro longuínquo e vai parar numa terra devastada
e escassamente povoada.
Ao ser salvo por um habitante e levado a um grupo de
pessoas prestes a conduzir uma espécie de ritual musical,
Dugan vê nos pacatos e inocentes habitantes a ferramenta
ideal para auxiliar nos seus planos de construção de uma
nova sociedade e deste modo aplacar sua ambição e sede
de poder.

Crítica:
Em sua introdução, o Silverberg fala do seu desejo em
experimentar com múltiplos narradores e pontos de
vista, e a meu ver ele o faz maravilhosamente bem.
As descrições da sociedade pós-bomba são esparsas
e eficientes; nos primeiros parágrafos pensei se tratar
de uma daquelas FC européias semi-experimentais
dos anos 60.
The Songs of Summer é um precursor dos seus con-
tos líricos, e como eles, belo, humano e poético.

Cotação: ****1/2 de *****




The Macauley Circuit (1955)

Sinopse:
Num mundo futuro onde métodos tradicionais de com-
sição e execução são substituídos por técnicas usando
auxílio de computadores, um músico e programador de
sintetizadores recebe de um aluno diagrama de um cir-
cuito semi-experimental que, caso posto em prática, pode
colocar os métodos de composição e execução num patamar
inimaginável.

Crítica:
Os perigos do crescimento desenfreado da tecnologia
é o tema deste conto. Silverberg, conhecido nos anos
50 como um escritor de aventuras de FC slam bang,
atinge um nível de sofisticação e understatement inco-
mum.
O texto é limpo e fluente, os dramas e dilemas dos persona-
gens centrais muito bem trabalhados.
The Macauley Circuit é inteligente, sutil, profundamente
humano e sinaliza o grande escritor que o Silverberg iria
tornar nos anos 60 e 70. Uma pérola.

Cotação: ****1/2 de *****


To Be Continued (1955)

Sinopse:
Romano quasi-immortal com mais de dois mil anos de
existência e com habilidade de assumir várias personali-
dades, procura a parceira ideal para lhe dar um filho
e deste modo dar continuidade a sua linhagem.

Crítica:
Imortalidade é um dos temas prediletos do Silverberg
e neste conto, sua primeira venda para uma revista do
primeiro time, é tratado com sua costumeira inventividade.
Gostei do estilo fluente, do tom leve e dos toques de humor.
Recomendado.

Cotação: **** de *****



Alaree (1956)

Sinopse:
Espaçonave faz pouso forçado para reparos em um planeta
semelhante a terra e a tripulação encontra alienígena perten-
cente a uma gestalt (união) com outros de sua espécie que
desconhece o conceito de individualidade e a palavra 'eu'.
Ao entrar em contato direto com o comandante, o alien
Alaree timidamente começa a tomar conhecimento dos
conceitos básicos de individualidade, mas este aprendiza-
do pode lhe custar caro.

Crítica:
Este fascinante conto aborda temas que mais tarde foram

tratados no romance A World of Change.

Silverberg deliberadamente se distancia do seu hack work
comum nos anos 50 e ensaia os temas dos seus trabalhos
sérios do final dos anos 60.
Um conto simplesmente memorável.

Cotação: ***** de *****


Artifact Business (1956)

Sinopse:
Arqueólogo sem dinheiro para voltar a terra se vê
obrigado a trabalhar para uma companhia de excava-
ções arqueológicas que usa a ciência com fins co-
merciais. Após descobrir a verdade sobre os artefatos
arqueológicos desenterrados e enviados a terra, ele
vislumbra um novo futuro para sua carreira.

Crítica:
Mais outro conto em que o Silverberg tenta sair do
lugar comum, desta vez fazendo uma crítica ao co-
mercialismo e ganância desenfreada das pessoas envol-
vidas em pesquisa e exploração científica para fins uni-
camente comerciais.
Excelente conto com um final extremamente satisfatório.

Cotação: **** de *****


Collecting Team (1956)

Sinopse:
Espaçonave de pesquisa e coleta zoológica, após infrutífera
busca pelo espaço, se vê obrigada a pousar por problemas
técnicos em um estranho planeta paradisíaco com uma riquís-
sima e até então desconhecida fauna. A equipe de pesquisas,

em trabalho de coleta, se vê fascinada com tamanha variedade,
mas o comandante não enxerga com bons olhos o estranho
comportamento dos animais supostamente selvagens.
O mistério se adensa quando o painel de controle da nave apa-
rece misteriosamente danificado.

Crítica:
Uma das coisas mais bacanas neste conto são as descrições
da exótica fauna alienígena, incluindo criaturas semelhantes
a penguins com oito pernas, cachorros sem pêlos e girafas
com tentáculos oculares. A tensão e o mistério do planeta
e das criaturas são bem conduzidos e o final, apesar de um
um pouco forçado e insatisfatório, é criativo e pega o lei-
tor de surpresa.
Mais um belo exemplar do Silverberg cinquentista.

Cotação: **** de *****


A Man of Talent (1956)
Sinopse:
Poeta frustado e sem reconhecimento tenta re-
construir a vida em um longuínquo planeta
colonizado e terraformed no passado por ricas
famílias da terra. Ao tomar contato com uma
antiga geração formada por pessoas com múl-
tiplas habilidades artísticas, ele se dá conta que
o seu almejado reconhecimento artístico será
tão dificil quanto no seu planeta natal.


Crítica:
Neste conto cerebral e psicológico o autor comenta
sobre o papel da arte na vida, assim como as vicissi-
tudes e o(s) objetivo(s) da criação artística (neste caso
a poética). Em nenhum conto do autor escrito nos anos
50 que eu li, fica mais claro e evidente o talento precoce
do Silverberg e de sua intenção em escrever uma FC mais
ambiciosa e cerebral. Se ele não o fez durante a década
com mais frequência foi mais por opção que por falta de
talento.
The Man of Talent é um conto notável.

Cotação: ***** de *****


One-Way Journey (1956)

Sinopse:
Comandante de uma espaçonave pertencente a uma
firma de importação/exportação se vê em apuros
quando um jovem membro de sua equipe com um
histórico de problemas psicológicos se apaixona por
uma alienígena exótica e resolve permanecer no planeta.
Temendo problemas futuros, o comandante tenta con-
vencer o jovem a retornar a nave e após sucessivos fra-
cassos, ele se vê obrigado a submete-lo, contra a sua
vontade, a uma terapia psicológica semi experimental.

Crítica:
Não se deixem iludir pela pieguice do tema central.
Apesar dos primeiros capítulos sinalizarem um conto
estilo "melodrama soap opera", o Silverberg dá um
giro de 180 e leva a história por um caminho totalmen-
te inesperado.
Gostei muito da conclusão inesperada e ao mesmo tempo
plausível.
OWJ é um fino conto psicológico que surpreende do começo
ao fim.

Cotação: **** de *****


World of a Thousand Colours(1956)

Sinopse:
Candidato a uma enigmática competição passada em um planeta
misterioso, é assassinado por um homem que lhe assume a iden-
tidade e parte para o planeta a fim de passar pelo "teste" e faturar
o desconhecido e cobiçado prêmio.

Crítica:
Na introdução de The Silent Colony o Silverberg declara
que o conto é uma tentativa deliberada de emular os temas
e estilo do Robert Sheckley, e a meu ver ele o faz com sucesso.
Em WoaTC ele tenta emular o estilo do Jack Vance e falha miseravelmente, simplesmente porque o estilo ornado, exótico, barroco e idiossincrático do Vance a só ele lhe pertence.
Ainda que possamos traçar algumas influências estilísticas
em seu trabalho (mais precisamente o Clark Ashton Smith
e alguns escritores de fantasia clássica pré-Tolkien), a escrita
do Vance é simplesmente única e a meu ver inimitável.
Dito isto, WoaTC é escapismo mediano.

Cotação: *** de *****



The Warm Man(1957)


Sinopse:
Homem misterioso e sociável com o poder de
absorver as dores e angústias de quem se apro-
xima, muda a rotina de um subúrbio nova yor-
kino ao se envolver com os moradores que lhes
confidencia problemas pessoais.

Crítica:
Neste sensível conto o Silverberg se afasta do estilo
pulp da época e cria uma bela fábula sobre desejos re-
primidos e incompreensão.O tema do vampirismo psí-
quico é tratado com sutileza e sensibilidade; o final é
puro pathos.
Caberia como uma luva na série clássica Além da Ima-
ginação.


Cotação: ****1/2 de ******


Blaze of Glory (1956)

Sinopse:
Em um planeta distante, técnico brilhante com um
histórico de distúrbios psicológicos, entra em con-
flito com um alienígena e tenta remediar a situação de
uma maneira pouco ortodoxa.

Crítica:
Neste conto o autor retrata um homem em eterno conflito
com o mundo e com ele mesmo.Não chega a ser empolgan-
te, mas o final é engenhoso.


Cotação: ***1/2 de *****


Why?-Robert Silverberg (1957)-Resenha de Conto

Sinopse:
Cientistas em uma longa missão exploratória de
planetas desconhecidos se deparam com um dile-
ma filosófico que os faz reavaliar o trabalho de
anos.


Crítica:
Conto de inclinação filosófico-existencial em que
a pergunta do título ganha um peso e dimensão i-
nesperada, graças aos excelentes diálogos e carac-
terização.
Cerebral e instigante, Why? é mais uma pérola
a ser descoberta.


Cotação: **** de *****


The Outbreeders-Robert Silverberg (1957)-Resenha de Conto

Sinopse:
Adolescente prestes a se casar, passa por um rito de passagem
em uma floresta inóspita e se apaixona por uma adolescente
de um clã rival, provocando a revolta do seu melhor amigo.


Crítica:
Mais um conto em que o meu resumo do enredo não faz
juz a riqueza do tratamento que o autor dá a história.
Os temas das diferenças, preconceitos e intolerância ra-
ciais são muito bem conduzidos pelo autor que emprega
um estilo de prosa simples, fluente e smooth.
Os diálogos são o ponto alto deste conto simplesmente
memorável.

Cotação: ****1/2 de *****


There Was An Old Woman (1957)

Sinopse:
Em uma mansão num subúrbio, uma cientista, através de
um método de inseminação artificial semi-experimental,
cria 31 gêmeos quase indênticos e os orienta com diferen-
tes vocações profissionais. No decorrer do desenvolvimen-
to de suas habilidades, com os talentos supostamente natu-
rais começando a se manifestar e desenvolver, cresce tam-
bém uma velada inquietação. Passados vários anos, com ca-
da membro da família supostamente adaptado em sua pro-
fissão, em uma reunião na antiga casa de criação, vem a tona
uma encubada revolta e profunda insatisfação com as esco-
lhas profissionais incutidas pela mãe, assim como seu rígido
controle.


Crítica:

Mais um conto em que o autor se distancia dos temas e estilo
pulp da época e adota um modo mais realista, semi-jornalisti-
tico, distante e ao mesmo tempo confessional. Não seria sur-
presa se fosse publicada num slick magazine (revistas de alta
circulação, impressas em papel de alta qualidade que tinham
nos leitores mainstream o público-alvo).
Um bom conto prejudicado por um final insatisfatório e um
tanto desagradável.


Cotação: **** de *****


The Iron Chancellor(1957)

Sinopse:
Famíla obesa de classe média adquire em uma li-
quidação um novo robô cozinheiro que passa a
controlar e monitorar uma rígida dieta para a fa-
mília.
Insatisfeito com a nova educação alimentar e o
excessivo senso de dever e proteção do robô pa-
ra com a família, um dos filhos tenta desativá-lo
e acaba provocando um curto circuito interno que
acaba por elevar seu senso de lealdade e proteção
a um nível patológico, resultando no confinamen-
to da família na própria casa.

Crítica:
Conto humorístico insubstancial e inofensivo que
cumpre exatamente o que promete: ser escapista e
divertir.
O Asimov e o Simak fazem melhor.

Cotação: ***1/2 de *****


Ozymandias (1958)

Sinopse:
Grupo de exploração composto por equipes ri-
vais de militares e arqueólogos aterrisa em um
planeta árido e pouco promissor.
A contragosto dos militares, os arquéologos con-
seguem um prazo de uma semana para exploração
do planeta e descobrem um robô que no passado
servia de guia turístico e vêem nele um inesgotá-
vel tesouro arquelógico.
Ao voltarem para nave, os arqueólogos decidem
manter a descoberta em segredo, mas os militares,
desconfiados do comportamento errático do grupo,
resolvem investigar e roubam a descoberta com o
intuito de colher informaçoes sobre a engenharia bé-
lica da antiga civilização a fim de utilizarem na terra.

Crítica:
Apesar do curto espaço o Silverberg maneja com maes-
tria a tensão entre os grupos rivais. A excelente carac-
terização do robô me lembrou as melhores histórias
do Simak.
Ozymandias é substancial e inteligente.

Cotação: **** de *****


Counterpart (1958)

Sinopse:
Ator frustado passa por uma psicoterapia experimental em que
absorve a personalidade carismática de um político influente a
a fim de recuperar seu prestígio e sucesso do passado. Mas o tratamento tem um efeito colateral inesperado e para piorar o
ator desenvolve uma obssessão para encontrar o político que também absorveu sua personalidade de ator.

Crítica:
Em meus comentários anteriores, ressaltei por mais de uma vez
do constante interesse do Robert Silverberg em escrever uma FC
tematicamente mais séria e ambiciosa, mas até então essas visíveis mudanças eram muito mais temáticas que estilísticas.
Em Counterpart noto pela primeira vez uma clara mudança no tom e estilo. Sua prosa se torna mais detalhada, densa, layered.
Um belo conto que, mais que qualquer outro dos anos cinquenta, sinaliza o "novo" Silverberg.

Cotação: ****1/2 de *****


Delivered Guaranteed (1958)

Sinopse:
Space trucker, acompanhado de uma jovem e atraente curadora
de um museu, se vê obrigado a transportar para Ganymede uma
cabana de madeira que pertenceu a um revolucionário. Durante a viagem a nave é sabotada por um revolucionário inconformado
com o transporte da cabine.

Crítica:
Gorgon Planet (conto que abre esta coleção) é mediocre mas retém um certo charme e valor histórico, Delivered Guaran-
teed é pura rotina. Porque o Silverberg o escolheu para fechar uma coleção que se propunha a traçar sua evolução como escri-
tor, pra mim é um mistério.
Melhor seria fechar com Counterpart.

Cotação: ** de *****






sábado, 7 de abril de 2007

Darby O'Gill and the Little People (1959)-Resenha de filme



Direção: Robert Stevenson

Sinopse:
Em um vilarejo irlandês, zelador viúvo entretém
os frequentadores de um pub com histórias sobre
Leprechauns (os pequeninos do título) e como ele
perdeu para o rei dos pequeninos, dentre outras
coisas, um pote de ouro, produto de um desejo mal
planejado.
Ao ser demitido e substituído amigavelmente pelo
seu patrão por um jovem zelador (um Sean Connery
recém saído da adolescência) e com um prazo de me-
nos de 20 dias para abandonar sua morada, o viúvo,
temendo uma reação negativa de sua filha de 20 anos,
resolve em acordo prévio com o novo zelador, escon-
der a verdade temporariamente.
Numa noite, ao atender o pedido de um padre para
buscar um sino em uma cidade vizinha, o viúvo Darby
O'Gill cai acidentalmente no poço da montanha e vai pa-
rar no mundo subterrâneo dos Leprechauns, e lá é
aprisionado pelo rei que lhe diz o têr salvo do seu mun-
do que não lhe dava mais oportunidades. Quando da
saída dos pequeninos do mundo subterrâneo, Darby con-
segue escapar e chegar no celeiro da sua casa, e lá encon-
tra o fanfarrão rei dos pequeninos. Vendo uma oportuni-
dade para se vingar da traição sofrida há anos quando ele
perdeu seu pote de ouro, Darby embebeda o rei e no raiar
do dia ele se vê impossibiltado de sair do celeiro pois os
poderes dos pequeninos só funcionam a noite.
Como retribuição e vingança, Darby propõe que o rei lhe
conceda três desejos em troca de sua liberdade, sendo que
o primeiro obrigaria o pequenino a permanecer longe do
seu mundo por aproximadamente 15 dias, tempo suficiente
para ele planejar seus pedidos e consequentemente fazer
uma melhor escolha que contribua para o futuro e felicidade
de sua filha.








Crítica:
Não, não e não. Qualquer tentativa de resumo da sinopse ja-
mais será capaz de transmitir com fidelidade a riqueza desta
primorosa produção dos estúdios Disney.
Darby O'Gill and the Little People era o projeto dos sonhos de
Walt Disney e demorou, entre planejamento e filmagem, quase
dez anos para ser finalizado, e o resultado de tanto esmero
e dedicação transparece em cada milímetro da tela.






O diretor Robert Stevenson (o house-director da Disney),
juntamente com seu diretor de fotografia, arte e cenários
conseguiram criar um mundo de rara beleza e intensidade.
A reconstituição do vilarejo irlandês exala uma robusta at-
mosfera local, forte sense of place;os eventos mágicos são
tratados com tamanha casualidade que passam a impressão
que o mundo dos pequeninos, perfeitamente integrado ao
cenário local, realmente faz parte da "história oficial".
Por essa "mágica natural e casual" Darby O'Gill pode ser
considerado como um belíssimo exemplo de realismo má-
gico cinematográfico.
Humor e fantasia são um casamento problemático que
quase sempre descamba para tongue-in-cheek e pastelão
(não que Darby não tenha seus momentos tongue-in-cheek
voluntário, mas o filme é muito bem dosado em todos os as-
pectos com o diretor Stevenson no controle absoluto do seu
material). Darby não apenas mescla estes elementos com
maestria, como adiciona um maravilhoso colorido irlandês
e o resultado final é aquele caso raro da química perfeita.
O viúvo Darby é um dos personagens mais carismáticos e
encantadores da fantasia cinematográfica. As canções sim-
ples, apesar de escassas, são puro deleite (é sempre inte-
ressante ver o futuro 007 cantarolando aos 4 ventos).
O filme foi rodado em glorioso technicolor, que dá a obra,
através deuma paleta de cores berrantes, um verniz irreal,
um colorido quase surreal que me parece perfeitamente
adequado para filmes de fantasia.
Apesar de ter sido feito há mais de 45 anos, os efeitos espe-
ciais ainda impressionam não só pela beleza plástica mas
também pela inventividade e maestria técnica.
A dança na caverna subterrânea, o duelo de inteligências no
celeiro, a aparição do Banshee e da carruagem da morte no
céu noturno, o filme inunda o espectador com uma sucessão
de cenas absolutamente memoráveis, é o ponto alto da Dis-
ney no cinema live action.
Pela sua riqueza de imaginação, esmero artístico e impecável
execução,Darby O'Gill and the Little People pode e deve ser
considerado como umdos melhores filmes de fantasia já feitos.

Cotação: ***** de *****

The Warm Man-Robert Silverberg (1957)-Resenha de conto


Sinopse:
Homem misterioso e sociável com o poder de
absorver as dores e angústias de quem se apro-
xima, muda a rotina de um subúrbio nova yor-
kino ao se envolver com os moradores que lhes
confidencia problemas pessoais.

Crítica:
Neste sensível conto o Silverberg se afasta do estilo
pulp
da época e cria uma bela fábula sobre desejos re-
primidos e incompreensão.O tema do vampirismo psí-
quico é tratado com sutileza e sensibilidade; o final é
puro pathos.
Caberia como uma luva na série clássica Além da Imaginação.

Cotação: ****1/2 de ******

World of a Thousand Colours-Robert Silverberg (1956)-Resenha


Sinopse:
Candidato a uma enigmática competição passada em um planeta
misterioso, é assassinado por um homem que lhe assume a iden-
tidade e parte para o planeta a fim de passar pelo "teste" e faturar
o desconhecido e cobiçado prêmio.

Crítica:
Na introdução de The Silent Colony o Silverberg declara
que o conto é uma tentativa deliberada de emular os temas
e estilo do Robert Sheckley, e a meu ver ele o faz com sucesso.
Em WoaTC ele tenta emular o estilo do Jack Vance e falha
miseravelmente, simplesmente
porque o estilo ornado, exótico,
barroco e idiossincrático do
Vance a só ele lhe pertence.
Ainda que possamos traçar algumas influências estilísticas
em seu trabalho (mais precisamente o Clark Ashton Smith
e alguns escritores de fantasia clássica pré-Tolkien), a escrita
do Vance é simplesmente única e a meu ver inimitável.
Dito isto, WoaTC é escapismo mediano.

Cotação: *** de *****

The Boogie Man Will Get You (1942)- Resenha de filme


Direção: Lew Landers

Sinopse:
Jovem compra um decrépito casarão de campo com o in-
tuito de transformá-lo em um hotel, na condição de preser-
var um porão onde um velho cientista conduz um
experimento
secreto em que pretende criar uma raça de super-huma-
nos usando vendedores ambulantes como cobaias.
Em meio a reforma (com o auxílio do namorado e dos três
moradores do casarão) um misterioso assassino começa a agir.



Crítica:
Sinopses, por mais detalhadas e bem escritas que sejam (nas quais
esta não se inclui), nunca, jamais vão fazer justiça a BONS filmes,
simplesmente porque a “mágica” não pode ser colocada em palavras.
Por outro lado, boas sinopses de filmes MEDÍOCRES podem ter um efeito
enganador. The
Boogie Man Will Get You é aquele caso clássico da sinopse
atrativa que não vinga na execução.
O principal problema de TBMWGY é que o subplot do assassino funciona
mais como um freio
narrativo e como consequência o plot principal
fica atolado em meio a lama de detalhes periféricos.
O humor caipira é heavy-handed e as vezes descamba para o puro
pastelão, mas algumas gags são hilárias e a presença do Karloff num
papel deliberadamente cômico não deixa de ser interessante.
Apesar da execução falha Boogieman não é um desastre total.

Cotação: **1/2 de *****

One-Way Journey-Robert Silverberg (1955)-Resenha de conto

Sinopse:
Comandante de uma espaçonave pertencente a uma
firma de importação/exportação se vê em apuros
quando um jovem membro de sua equipe com um
histórico de problemas psicológicos se apaixona por
uma alienígena exótica e resolve permanecer no planeta.
Temendo problemas futuros, o comandante tenta con-
vencer o jovem a retornar a nave e após sucessivos fra-
cassos, ele se vê obrigado a submete-lo, contra a sua
vontade, a uma terapia psicológica semi experimental.

Crítica:
Não se deixem iludir pela pieguice do tema central.
Apesar dos primeiros capítulos sinalizarem um conto
estilo "melodrama soap opera", o Silverberg dá um
giro de 180 e leva a história por um caminho totalmen-
te inesperado.
Gostei muito da conclusão inesperada e ao mesmo tempo
plausível.
OWJ é um fino conto psicológico que surpreende do começo
ao fim.

Cotação: **** de *****

A Man of Talent-Robert Silverberg (1956)-Resenha de conto


Sinopse:
Poeta frustado e sem reconhecimento tenta re-
construir a vida em um longuínquo planeta
colonizado e terraformed no passado por ricas
famílias da terra. Ao tomar contato com uma
antiga geração formada por pessoas com múl-
tiplas habilidades artísticas, ele se dá conta que
o seu almejado reconhecimento artístico será
tão dificil quanto no seu planeta natal.

Crítica:
Neste conto cerebral e psicológico o autor comenta
sobre o papel da arte na vida, assim como as vicissi-
tudes e o(s) objetivo(s) da criação artística (neste caso
a poética). Em nenhum conto do autor escrito nos anos
50 que eu li, fica mais claro e evidente o talento precoce
do Silverberg e de sua intenção em escrever uma FC mais
ambiciosa e cerebral. Se ele não o fez durante a década
com mais frequência foi mais por opção que por falta de
talento.
The Man of Talent é um conto notável.

Cotação: ***** de *****