domingo, 6 de maio de 2007

Barbarella-Resenha de filme


Barbarella, 1968, Direção: Roger Vadim

Sinopse:
Agente transplanetária é chamada para investigar o paradeiro de
um piloto chamado Duran Duran, mas no meio da viagem
sua nave cai numa espécie de labirinto subterrâneo que dá acesso
a uma cidade governada por um tirano. Ao ser resgatada por um
anjo cego, Barbarella lhe devolve a energia vital e a vontade
de voar e o anjo consegue levá-la à cidade proibida a fim de en-
contrar Duran Duran, mas encontram dificuldades e passam por
vários perigos.




Crítica:
O antológico strip-tease da Jane Fonda nos créditos de abertura
já entrega o jogo a respeito das "metas artísticas" do diretor
Roger Vadim (na época casado com Fonda). Para colocar de uma
maneira mais clara: Barbarella é cinema camp exploitation, gra-
tuito, safado, desavergonhado, filme produzido quase que exclusivamente
para explorar os "dotes artísticos" da Jane Fonda. É também um
dos filmes mais fíéis a estética das HQ's safadas européias (quem
já leu O Vagabundo dos Limbos sabe do que eu estou falando)
já feitos, um triunfo da imaginação. O roteiro é pavoroso, o ritmo irregular,
os diálogos e atuações têm a profundidade de um pires, mas o filme,
graças a presença da Jane Fonda que transborda tesão e sensualidade por
milímetro na telona e a primorosa direção de arte (sua imagética influenciou
meio mundo) funciona maravilhosamente bem como comédia camp.
Barbarella não é um filme, é um espetáculo circense, e dos melhores.

Cotação: ****1/2 de ******

Os pequenos gigantes do cinema fantástico-Parte 2

TERENCE FISHER

Quando se fala em horror gótico ou
horror de época, o nome dos estúdios Hammer, junto com
seus astros Lee e Cushing e seus monstros emblemáticos,
nos vem a mente. O que poucos se lembram é de um dos
principais responsáveis pelo sucesso artístico e comercial
da sua fase de ouro. Terence Fisher era um diretor de muitas
qualidades que mesmo em seus momentos menos inspirados
(pelo menos em seus trabalhos para a Hammer) nunca deixava
de ser interessante. Dono de um estilo que primava pela simpli-
cidade e precisão, não era chegado a floreios, firulas nem ma-
labarismos exibicionistas, para Fisher menos era mais.Tinha um
extraordinário senso de posicionamento de câmera e extremo
bom gosto no uso das cores (no filme A Múmia atentem para o
uso surreal do colorido na cena da emergência da múmia no
pântano), Fisher tinha os olhos de um pintor.
Os filmes da Hammer já são cultuados o suficiente para serem
considerados injusticados, eles não precisam de reconhecimento;
Fisher sim.


JIRI BARTA

Este discípulo do Jan Svankmajer (comentado em outro post) tem em seu currículo menos de uma dúzia de curtas e médias metragens, mas como quantidade nunca foi sinônimo de qualidade
já deixou sua marca na animação underground. Assim como seu mestre, mistura em várias obras animação stop-motion com live-action, diferente dele, opta por um approach menos surrealista e obtuso (o que não quer dizer que as obras do Barta sejam comerciais) porém com a mesma intensidade visual. Poderíamos classificar suas melhores obras como "contos morais"
tendo como egoísmo e ganância seus temas principais. Sua obra prima ainda é The Pied Piper of Halmin, pertubadora releitura da fábula moral que conta a história de uma vila dominada pelos ratos e de como um flautista se vinga de seus gananciosos habitantes que lhe recusaram a
pagar por um trabalho.
Há vários anos Barta angaria fundos para a produção de uma adaptação do clássico do Gustav Meyrink The Golem. A julgar pelo trailer que rola na net promete ser sua obra prima.


The Venus of Ille-Prosper Mérimée-Resenha de conto


Sinopse:
Arqueólogo parte para a região dos Pyrennes em direção
do vilarejo de Ille a fim de se hospedar na casa do amigo
de um amigo com o intuito de fazer pesquisas arqueló-
gicas na região. Ao chegar, se depara com uma fascinante e
curiosa descoberta arquelógica: uma estátua em cobre de
Vênus (deusa do amor) porém com estranhas expressões fa-
ciais e olhos de prata. Ao descobrir que o filho do anfitrião
está prestes a se casar, se vê obrigado a viajar com a família
para o casamento. Um pouco antes da partida, o noivo desa-
fia catalões para uma partida de tênis e quando de sua par-
tida para a cerimônia se esquece de retirar a aliança da es-
tátua que ele colocou durante a partida de tênis. No primei-
ro dia de casados uma catástrofe abala as famílias.

Crítica:
Paganismo x cristianismo, materialismo x espiritualidade,
passado x modernidade, idealismo x comercialismo.
Em uma passagem, o noivo mostra ao arqueólogo sua alian-
ça adornada em diamantes, em que o arquéologo comenta
que, artisticamente ela seria mais bela sem os diamantes,
porém a (limitada) noção do noivo sobre o belo está condi-
cionada ao valor financeiro do objeto. Noutra, pedestres ca-
çoam da estátua e lhes jogam pedras e "ela" responde com o re-
torno da pedra para o seu agressor. Ille é um conto fantástico
de choques e contrastes. A figura da Vênus é a representação
dos aspectos mais sombrios e negativos do amor, uma força
de um poder destruidor e devastador, também é um símbolo
de um passado glorioso que se "ergue" contra um mundo frio
movido por interesses puramente materiais (a cena da aliança
ilustra muito bem este contraste) carente da "espiritualidade"
pré-cristã.
The Venus of Ille é maravilhosamente bem escrito, a tensão entre
o "possível e o impossível" é manejada com muita classe. Ao
mesmo tempo que o autor nos fornece explicações racionais para
as ocorrências, ele as mina com extrema sutileza e comedimento.
O final chocante e pertubador não procura "provar" a existência
do sobrenatural como a ficção sobrenatural pseudo-ocultista-espiritualista
vitoriana, mas que a existência humana e a realidade são complexas
demais para serem compreendidas em sua totalidade.

Cotação: ****1/2 de *****