domingo, 17 de junho de 2007

Os pequenos gigantes do cinema fantástico-Parte 3


Curtis Harrington:

Harrington é daqueles artistas que pagaram
o preço da própria originalidade. Começou como curta-metragis-
ta de vanguarda e estréiou sob a batuta do Roger Corman com uma maravilhosa fantasia onírica estrelada por um jovem Dennis
Hopper chamada The Night Tide; a este seguiram-se mais algumas
produções para Corman, mas começou a chamar a atenção mesmo
com um elogiadíssimo suspense chamado Games e filmes cujo rigor estético (em se tratando de cinema comercial de baixo orçamento), cultura cinematográfica e originalidade de visão o colocaram dentre os mais individualistas e idiossincráticos diretores do cinema fantástico. Quantos diretores teriam a manha de colocar num mesmo filme um adorável número infantil, uma cinquentona psicótica,
espetáculos grand-guinol digno dos melhores slashers, embalados numa história de suspense embebida em nostalgia e humor farsesco?
Assistam What's the Matter With Helen? e Who Slew Aunt Roo? e comprovem.

Ame ou odeie Harrington é um original.

Uzumaki Vol's 1,2 e 3 - Resenha de mangá

Uzumaki - Editora Conrad




Uzumaki Vol. 1

Sinopse:
Na cidade de Kurouzu, moradores começam
a apresentar estranho comportamento e desen-
volvem uma estranha obsessão com qualquer ob-
jeto ou animal que contenha a forma espiral.

Crítica:
Uzumaki (espiral em japonês) é uma maxi-série
de caráter episódico dividida no ocidente em 3 volumes
totalizando mais de 600 páginas.
Neste mangá você não encontrará vampiros, lobisomens,
fantasmas e outros monstros emblemáticos das HQ's de
terror.O horror aqui têm um conceito mais vago, abstrato
e surreal e justamente por isso mais assustador e pertubador.
A idéia central de Uzumaki é tão simples e tão eficiente que
fica difícil acreditar como a idéia das espirais não tenha sido
explorada anteriormente. Neste primeiro volume vêmos como
a obssessão pelas espirais afeta vários habitantes e suas conse-
quências catastróficas. Em um episódio o pai de um dos perso-
nagens fixos da série desenvolve a obssessão a tal ponto que lhe
desperta o desejo de transformar o seu corpo numa espiral orgâ-
nica. Noutro uma cicatriz na testa de uma garota toma forma de
uma espiral que aos poucos lhe devora, literalmente. Pode parecer
absurdo e até mesmo ridículo mas esse horror abstrato e surreal
funciona maravilhosamente bem (pelo menos neste primeiro vo-
lume) graças a excelente sustentação, motivação e verossimi-
lhança psicológica. Além da sustentação psicológica, outro ponto
central do sucesso artístico de Uzumaki é sem sombra de dúvida os
extraordinários desenhos do Junji Ito. Há um realismo orgânico em
seus desenhos quase palpável, é como se ele conseguisse dar forma
ao horror abstrato e disforme de suas histórias; imaginem o Shinya
Tsukamoto, David Cronemberg e o David Lynch produzindo um
comic
de horror.
Não é todo dia que aparece uma HQ de horror tão original quanto
Uzumaki.
Nunca mais vou olhar para uma espiral da mesma maneira.

Cotação: ****1/2 de *****


Uzumaki Vol. 2

Sinopse:
A maldição das espirais se alastra e começa
a provocar destruição e bizarras mutações
nos moradores.

Crítica:
No primeiro volume resenhado anteriormente, ressaltei
que um dos segredos do sucesso deste mangá, além
dos extraordinários desenhos do Junji Ito, era a ótima
sustentação psicológica por trás dos eventos bizarros.
Infelizmente neste segundo volume a série inicia
sua vertiginosa queda montanha abaixo justamente pela
falta desta sustentação. Ainda narrada episodicamente
porém com um maior elo de ligação entre os capítulos,
neste volume vemos o Ito exercitando sua imaginação
maravilhosamente bizarra em algumas das cenas mais
pertubadoras já mostradas nas HQ's. Num dos melhores
episódios (infelizmente prejudicado por um final abrupto
e insatisfatório; falha constante neste volume) vemos um
estudante obeso aos poucos ser transformado em uma les-
ma gigante, noutro um dos personagens fixos visita um farol
supostamente assombrado por espirais (mais uma vez o final
é abrupto), em outro um recém nascido exige que lhe enviem
de volta ao útero da mãe. Vão-se a densidade psicológica e su-
tileza, entra em cena espetáculos gores pirotécnicos (magnifica-
mente desenhados é bom ressaltar) e alguma dose de silliness
que será acentuada ad-nauseum no terceiro volume. Também
é de se notar que as espirais têm menos influência nos eventos
que no primeiro volume e as ações são mais gratuitas.
Mesmo não estando no mesmo nível do primeiro volume, Uzumaki
Vol. 2 é indispensável para o fã de horror.

Cotação: ***1/2 de *****


Uzumaki Vol. 3

Sinopse:
A tragédia das espirais toma proporções
gigantestas dominando a cidade por com-
pleto, provocando destruição e obrigando
aos habitantes já totalmente possuídos pela
obssessão a tomarem medidas drásticas a
fim de sobreviverem.

Crítica:
Neste último volume o Ito opta pela continui-
dade narrativa, mas infelizmente pouco existe
neste epílogo daquilo que fez de Uzumaki em
seus primeiros episódios uma série tão especial.
As situações absurdas se amontoam umas sobre
as outras sem nenhuma explicação, tem-se a im-
pressão que o autor as vai jogando aleatoriamente;
as idéias começam a se desgastar devido a repetição
(as espirais nas cascas dos caramujos e a subsequente
transformação dos cidadãos, em particular). Algumas
sacadas como os movimentos que provocam ventanias
e a habilidade das crianças em criar furacões são bem
legais (ainda que a falta de motivação e explicação
impeça que essas idéias não realizem todo seu potencial),
outras como os homens-borboleta com a capacidade de
"navegar" furacões beiram o ridículo.
É importante ressaltar que mesmo em seus piores momentos
o mangá é salvo pela extraordinaria imaginação visual do Ito.
Eu estava disposto a dar uma cotação mais baixa mas o
capítulo final, que pode ser lido como uma homenagem
as obras do Lovecraft, especialmente Nas Montanhas da
Loucura, me pegou de surpresa pela sua beleza plástica
e inventividade.

Cotação: *** de *****

Impressão final: mesmo com todos os seus defeitos,
Uzumaki é uma das mais originais séries de horror já
lançadas e indispensável para os fãs do gênero.