sábado, 28 de julho de 2007

Os pequenos gigantes do cinema fantástico-Parte 4


Higuchinsky:

Quando vi Uzumaki pela primeira vez, sem nenhuma
expectativa, me perguntei se esse Higuchinski seria capaz de repetir a
proeza (o mundo da música e cinema nos têm dado vários exemplos de artistas "one hit wonder"). Ao assistir The Long Dream, (filme feito para a TV japonesa por uma merreca) além das minhas dúvidas terem se dissipado por completo, tive a sensação de ter descoberto um artista com uma capacidade de invenção e talento incomuns. Não que Long Dream atinga o mesmo nível do Uzumaki, mas o que o diretor conseguiu com uma produção limitadíssima é qualquer coisa de tirar o chapéu. Numa era em que o cinema fantástico é dominado pela repeticão (alguém mais aguenta as Sadakos de cabelos longos ou os remakes japoneses feitos em Hollywood?) e pobreza visual, Higuchinsky demonstra ser um diretor que entende que o
plot
é apenas UM aspecto do cinema, sabe da importância da criação de uma atmosfera, do poder da sugestão e alusão, sabe usar gore e ultra-
violência na medida certa e têm plena consciência de que aquilo que "não é mostrado" pode ser muito mais assustador do que o que é mostrado. Indirectness, strangeness, otherworldliness e obliquiness também entram em seu vocabulário cinematográfico. Preciso mencionar que ele é um notável estilista visual? Uzumaki é um colírio para os olhos.
Não me atreveria a afirmar que o Higuchinsky é o futuro do horror mas que ele têm talento de sobra a mim não resta dúvida.

Swamp Thing (House of Secrets # 92)-Resenha de Hq


Argumento: Len wein

Desenhos: Bernie Wrightson


Sinopse:
Homem amargurado sabota laboratório
de um amigo cientista com o intuito de
casar com sua esposa. Após o desastre
o cientista volta a vida na forma de uma
imensa criatura pantanosa composta por
lama, lodo e raízes e se vinga do amigo
traidor.

Crítica:
Aqui tudo começou. Nesta história de oito
páginas o amado Monstro do Pântano apa-
rece pela primeira vez e com várias caracte-
rísticas que iriam marcar sua inúmeras apari-
ções e diversas encarnações nos anos poste-
riores, pelas mãos de diversos artistas e escri-
tores incluindo a memorável passagem do
Alan Moore pela revista nos anos 80.
O aspecto que salta aos olhos, apesar do pou-
co espaço, é a excelente caracterização da
criatura. A identificação do leitor com o per-
sonagem central é imediata e no final a criatura
acaba suscitando muita mais pena e simpatia que
repulsa.
Em essência este pequeno conto é um drama
gótico-romântico com um vilão meio Byrônico
e um monstro em seu centro.
Uma pequena pérola.

Cotação: ****1/2 de *****

Swamp Thing Vol.1 #1-Resenha de Hq


Argumento: Len Wein

Desenhos: Bernie Wrightson

Sinopse:
Casal de cientistas se isola em um celeiro
reformado em uma região pantanosa com o
intuito de dar continuidade a pesquisas para
o desenvolvimento de uma revolucionária
fórmula bio-restauradora de plantas. Após
ter o seu laboratório sabotado por uma mis-
teriosa organização com interesse na fórmula,
o cientista, após explosão do laboratório,
foge desesperadmente com o corpo em
chamas, mergulha em um pântano e tem o
seu corpo transformado em uma mescla
de raízes, lama e lodo pela ação da fórmu-
la bio-restauradora em contato com a pele
e o pântano.
Confuso e amargurado com a sua nova con-
dição, teme contato com sua esposa e um
amigo que, após primeiro contato não o
reconhece e o ameaça de morte. Sem alterna-
tiva só lhe resta fugir.

Crítica:
Um ano após sua estréia nas páginas da House of
Secrets (leia resenha acima) o monstrengo ga-
nha revista própria com o mesmo time artístico e
uma nova origem.
A ambiência gótica e o clima melancólico permanece,
o texto do Wein é melodramático (para alguns melo-
dramático demais) emocional e envolvente, mas é na
maravilhosa arte atmosférica do Bernie Wrightson
que o gibi mostra a sua força. Seu traço é forte, som-
breado e expressivo, seus ângulos inusitados criam
um efeito inquietante e ameaçador, como se os perso-
nagens e cenários exalassem um ar de mistério e corru-
pção. Infelizmente o Wrightson abandonou o gibi após
10 edicões e o Wein partiu três meses depois.
Ainda que a fase de Alan Moore seja disparada a melhor,
esta primeira encarnação é memorável e merece toda a fa-
ma cult que têm.

Cotação: ****1/2 de *****

Lord Dunsany: Mestre da fantasia onírica - Artigo

Para o leitor médio, quando se fala em fantasia literária,
J. R. R. Tolkien e J. K Rowling são os nomes que pri-
meiro vem a mente, parte por serem os autores do gênero
mais divulgados por aqui, parte pelas adaptações cinema-
tográficas, e parte, talvez, por serem autores de inclinação
mais comercial. O que muitos desconhecem, é que muito
antes de Tolkien planejar os primeiros esboços da terra
média, a fantasia como gênero literário já era uma realidade,
diferente das obras pós-Tolkien, mas fantasia mesmo assim.
A phantasy (como era conhecida na época) de meados do
do século 19 a primeira metade do século 20 era fortemente
influênciada pelo folclore local, fairy tales, medievalismo
(influência ainda forte em obras de high-fantasy ou fantasia
épica), e as vezes tomavam forma de alegoria moral e religio-
sa (apesar de não ser a forma dominante, escritores contêm-
porâneos como Vera Nazarian, Jane Yolen e Patricia McKillip
se mantém na tradição da fantasia clássica e são mais influên-
ciadas pela tradição fantástica pré Tolkien).
E.T.A Hoffmann, Ludwig Van Tieck, Baron de La Motte-Fouqué,
George Macdonald, William Morris, Kenneth Morris, todos escre-

veram fantasia de alto calibre. Porém, de todos os fantasistas clás-
sicos, ninguém escreveu com tamanha originalidade, delicadeza,
finura de estilo, fertilidade de imaginação, intensidade poética e
imagética e riqueza filosófica como o irlândes Lord Dunsany.
Dunsany era um aristocrata que tinha como passatempo caçar le-
bres com os amigos e fazer safáris na África (esta faceta de "caça-
dor profissional" talvez seja o aspecto menos atraente de sua per-
sonalidade) que em 1905 escreve e publica por conta própria um
pequeno livro de contos e vinhetas semi-poéticas sobre um mundo
imaginário e um panteão de deuses chamado The Gods of Pegana.
O que o Dunsany conseguiu em pouco mais de 100 páginas, outros
escritores com línguas fluentes e prolixas não conseguem em livros
de 1000 páginas: criar um mundo povoado por deuses de uma be-
leza, riqueza e intensidade que têm-se a impressão (em suas palavras)
ter sido criado por uma imaginação não-humana. A meu ver parte
do sucesso artístico desta obra (e de sua obra como um todo)
se deve principalmente ao
extraordinário uso da língua inglesa. Seu estilo de
prosa, definida sabiamente pelo Lovecraft como "cantante e cristalina",
é um acquired taste, ou melhor, ou você ama ou odeia, não tem meio
termo.
Se fosse para definir a obra do Dunsany em uma palavra eu definiria
como: LINGUAGEM.
Time and the Gods (metade dos contos tratam do mundo de Pegana
e seus deuses mesquinhos e egoístas) e suas coletâneas subsequentes
(The Sword of Wellerann, A Dreamer`s Tales, The Book of Wonder,
Fifty-One Tales, The Last Book of Wonder e Tales of Three Hemis-

pheres) apresentam grande variedade estilística e temática (de fábulas
irônicas e vinhetas poéticas a ghost stories e precursores de fantasia
épica, fantasia onírica etc.).
No começo dos anos 20, com 5 peças de teatro sendo encenadas
simultaneamente na Broadway e com seus contos sendo publicados
nas revistas mais populares e prestigiadas da época, Dunsany atinge
seu auge de popularidade nos EUA.
Após esta primeira explosão criativa (1905-1920), Dunsany entra num
limbo literário por alguns anos e ressurge como romancista (tudo levava
a crer que a sua carreira como contista estava encerrada) e lança em
rápida sucessão 4 romances, dentre eles The King of Elfland's Daughter
(considerado um clássico
e o precursor de O Senhor dos Anéis).
Com o sucesso comercial dos romances (um dos motivos do Dunsany
ter abandonado os contos, além do esgotamento criativo, foi a sua in-
satisfação de ser apenas um "escritor cult" e um writer's writer) ninguém
imaginaria que o Dunsany voltaria aos contos, mas em 1926 (após 5 anos
sem publicar histórias curtas) eis que surge The Tale of the Abu Laheeb,
primeiro de mais de 150 contos de uma série sobre um mentiroso aventu-
reiro chamado Jorkens. Pela quantidade de contos que ele escreveu sobre
Jorkens pode-se dizer
que estas histórias foram o maior sucesso comercial
de sua carreira (ele as escreveu por mais de 30 anos até o ano de sua morte).
Apesar de ser mais lembrado como um escritor de fantasia onírica e o adjetivo dunsaneano ser aplicado exclusivamente em referência aos seus contos do começo do século 20, Dunsany já nos anos 30 começava a experimentar com modos e gêneros literários mais accessíveis, dentre eles a literatura de mistério (Two Bottles of Relish é um dos contos mais reimpressos da língua
inglesa); a coletânea The Tales of Smethers chegou a ser selecionada por Ellery Queen dentre os clássicos da literatura de mistério.
Dunsany escreveu muito e escreveu como poucos, dono de um talento camaleônico e multifacetado, uma imaginação idiossincrática e ao mesmo tempo romântica, um poeta e artista de sensibilidade incomum que trocou o pincel por uma caneta-tinteiro para "pintar com palavras".
Sempre considerei o Dunsany como o pai legítimo da fantasia moderna, ou para colocar em outras palavras, se o Tolkien é o pai, o Dunsany é o vovô sábio.


Master Zacharius (1874)-Jules Verne-Resenha de Conto



Sinopse:
Renomado, orgulhoso e ególatra relojoeiro genovense
se vê a beira da insanidade quando os seus delicados re-
lógios artesanais, admirados nos quatro cantos da euro-
pa, começam quase que simultaneamente a parar sem
motivo aparente. Em meio as suas infrutíferas tentativas
de consertá-los, sua já frágil saúde fisica e mental come-
ça a deteriorar. A situação se agrava quando seu com-
portamento e excentricidade passam a sugerir desequilí-
brio mental a ponto do relojoeiro declarar que sua vida
se definha na medida que seus relógios param, pois, sua
alma, assim como as batidas do seu coração, está contida
nas carcaças e intricada mecânica de suas obras de arte.
Em meio ao desespero, sua filha, criada e seu fiel assistente
passam a acreditar que a estranha aflição que atinge o relo-
eiro e suas peças se trata de "obra do demônio".
O drama toma contornos ainda mais sinistros quando um
estranho e diabólico anão (a representação física dos relógios
e da natureza do tempo) chantangeia o relojoeiro, lhe prome-
tendo dar um fim a sua aflição contanto que ele case com sua
filha, já prometida ao assistente.

Crítica:
Em vinte anos de leituras incessantes, a literatura fantástica
vez por outra me pega de calças curtas. Por pura ignorância
de minha parte, eu seria incapaz de imaginar que o maravilho-
so autor de Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas
Submarinas poderia escrever um conto de horror metafísico (quase
dez anos antes da sua estréia "oficial" como escritor, quando da sua
frutífera parceria com o editor Hetzel) assombrado pela insanidade,
fatalismo e horror existencial. Um conto histérico à moda do Hoff-
man, salpicado pelo melodrama do Poe (porém sem a flamboyância

estilística do mesmo) e com
verniz alegórico-religioso do Nathaniel Hawthorne.
Em uma cena pertubadora, o relojoeiro ensandencido abre o alçapão
que dá acesso a corrente de um caudaloso rio no qual sua casa se
sustenta por meio de vigas subterrâneas, e em meio ao devaneio encara o "abismo Nietchzeano". Racional e irracional constantemente
entram em choque e essa tensão é magistramente bem conduzida.
O estilo direto e objetivo do Verne dá um tom realista ao conto, en-
quanto os constantes hints ao "modelador da forma" e ao "destruidor da forma" produz o desequilíbrio necessário para instigar o leitor.
A personificação do natureza do tempo e dos relógios na forma do anão é diabólica, assustadora e sugere grande poder.
Master Zacharius pode não estar incluso entre os contos mais lite-
rários e alguns podem até questionar sua validade como conto de puro horror, mas a meu ver é um dos contos fantásticos mais criativos e engenhosos já escritos, um deleite do começo ao fim.

Cotação: ***** de *****