sábado, 28 de julho de 2007

Lord Dunsany: Mestre da fantasia onírica - Artigo

Para o leitor médio, quando se fala em fantasia literária,
J. R. R. Tolkien e J. K Rowling são os nomes que pri-
meiro vem a mente, parte por serem os autores do gênero
mais divulgados por aqui, parte pelas adaptações cinema-
tográficas, e parte, talvez, por serem autores de inclinação
mais comercial. O que muitos desconhecem, é que muito
antes de Tolkien planejar os primeiros esboços da terra
média, a fantasia como gênero literário já era uma realidade,
diferente das obras pós-Tolkien, mas fantasia mesmo assim.
A phantasy (como era conhecida na época) de meados do
do século 19 a primeira metade do século 20 era fortemente
influênciada pelo folclore local, fairy tales, medievalismo
(influência ainda forte em obras de high-fantasy ou fantasia
épica), e as vezes tomavam forma de alegoria moral e religio-
sa (apesar de não ser a forma dominante, escritores contêm-
porâneos como Vera Nazarian, Jane Yolen e Patricia McKillip
se mantém na tradição da fantasia clássica e são mais influên-
ciadas pela tradição fantástica pré Tolkien).
E.T.A Hoffmann, Ludwig Van Tieck, Baron de La Motte-Fouqué,
George Macdonald, William Morris, Kenneth Morris, todos escre-

veram fantasia de alto calibre. Porém, de todos os fantasistas clás-
sicos, ninguém escreveu com tamanha originalidade, delicadeza,
finura de estilo, fertilidade de imaginação, intensidade poética e
imagética e riqueza filosófica como o irlândes Lord Dunsany.
Dunsany era um aristocrata que tinha como passatempo caçar le-
bres com os amigos e fazer safáris na África (esta faceta de "caça-
dor profissional" talvez seja o aspecto menos atraente de sua per-
sonalidade) que em 1905 escreve e publica por conta própria um
pequeno livro de contos e vinhetas semi-poéticas sobre um mundo
imaginário e um panteão de deuses chamado The Gods of Pegana.
O que o Dunsany conseguiu em pouco mais de 100 páginas, outros
escritores com línguas fluentes e prolixas não conseguem em livros
de 1000 páginas: criar um mundo povoado por deuses de uma be-
leza, riqueza e intensidade que têm-se a impressão (em suas palavras)
ter sido criado por uma imaginação não-humana. A meu ver parte
do sucesso artístico desta obra (e de sua obra como um todo)
se deve principalmente ao
extraordinário uso da língua inglesa. Seu estilo de
prosa, definida sabiamente pelo Lovecraft como "cantante e cristalina",
é um acquired taste, ou melhor, ou você ama ou odeia, não tem meio
termo.
Se fosse para definir a obra do Dunsany em uma palavra eu definiria
como: LINGUAGEM.
Time and the Gods (metade dos contos tratam do mundo de Pegana
e seus deuses mesquinhos e egoístas) e suas coletâneas subsequentes
(The Sword of Wellerann, A Dreamer`s Tales, The Book of Wonder,
Fifty-One Tales, The Last Book of Wonder e Tales of Three Hemis-

pheres) apresentam grande variedade estilística e temática (de fábulas
irônicas e vinhetas poéticas a ghost stories e precursores de fantasia
épica, fantasia onírica etc.).
No começo dos anos 20, com 5 peças de teatro sendo encenadas
simultaneamente na Broadway e com seus contos sendo publicados
nas revistas mais populares e prestigiadas da época, Dunsany atinge
seu auge de popularidade nos EUA.
Após esta primeira explosão criativa (1905-1920), Dunsany entra num
limbo literário por alguns anos e ressurge como romancista (tudo levava
a crer que a sua carreira como contista estava encerrada) e lança em
rápida sucessão 4 romances, dentre eles The King of Elfland's Daughter
(considerado um clássico
e o precursor de O Senhor dos Anéis).
Com o sucesso comercial dos romances (um dos motivos do Dunsany
ter abandonado os contos, além do esgotamento criativo, foi a sua in-
satisfação de ser apenas um "escritor cult" e um writer's writer) ninguém
imaginaria que o Dunsany voltaria aos contos, mas em 1926 (após 5 anos
sem publicar histórias curtas) eis que surge The Tale of the Abu Laheeb,
primeiro de mais de 150 contos de uma série sobre um mentiroso aventu-
reiro chamado Jorkens. Pela quantidade de contos que ele escreveu sobre
Jorkens pode-se dizer
que estas histórias foram o maior sucesso comercial
de sua carreira (ele as escreveu por mais de 30 anos até o ano de sua morte).
Apesar de ser mais lembrado como um escritor de fantasia onírica e o adjetivo dunsaneano ser aplicado exclusivamente em referência aos seus contos do começo do século 20, Dunsany já nos anos 30 começava a experimentar com modos e gêneros literários mais accessíveis, dentre eles a literatura de mistério (Two Bottles of Relish é um dos contos mais reimpressos da língua
inglesa); a coletânea The Tales of Smethers chegou a ser selecionada por Ellery Queen dentre os clássicos da literatura de mistério.
Dunsany escreveu muito e escreveu como poucos, dono de um talento camaleônico e multifacetado, uma imaginação idiossincrática e ao mesmo tempo romântica, um poeta e artista de sensibilidade incomum que trocou o pincel por uma caneta-tinteiro para "pintar com palavras".
Sempre considerei o Dunsany como o pai legítimo da fantasia moderna, ou para colocar em outras palavras, se o Tolkien é o pai, o Dunsany é o vovô sábio.


Nenhum comentário: