sábado, 28 de julho de 2007

Master Zacharius (1874)-Jules Verne-Resenha de Conto



Sinopse:
Renomado, orgulhoso e ególatra relojoeiro genovense
se vê a beira da insanidade quando os seus delicados re-
lógios artesanais, admirados nos quatro cantos da euro-
pa, começam quase que simultaneamente a parar sem
motivo aparente. Em meio as suas infrutíferas tentativas
de consertá-los, sua já frágil saúde fisica e mental come-
ça a deteriorar. A situação se agrava quando seu com-
portamento e excentricidade passam a sugerir desequilí-
brio mental a ponto do relojoeiro declarar que sua vida
se definha na medida que seus relógios param, pois, sua
alma, assim como as batidas do seu coração, está contida
nas carcaças e intricada mecânica de suas obras de arte.
Em meio ao desespero, sua filha, criada e seu fiel assistente
passam a acreditar que a estranha aflição que atinge o relo-
eiro e suas peças se trata de "obra do demônio".
O drama toma contornos ainda mais sinistros quando um
estranho e diabólico anão (a representação física dos relógios
e da natureza do tempo) chantangeia o relojoeiro, lhe prome-
tendo dar um fim a sua aflição contanto que ele case com sua
filha, já prometida ao assistente.

Crítica:
Em vinte anos de leituras incessantes, a literatura fantástica
vez por outra me pega de calças curtas. Por pura ignorância
de minha parte, eu seria incapaz de imaginar que o maravilho-
so autor de Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas
Submarinas poderia escrever um conto de horror metafísico (quase
dez anos antes da sua estréia "oficial" como escritor, quando da sua
frutífera parceria com o editor Hetzel) assombrado pela insanidade,
fatalismo e horror existencial. Um conto histérico à moda do Hoff-
man, salpicado pelo melodrama do Poe (porém sem a flamboyância

estilística do mesmo) e com
verniz alegórico-religioso do Nathaniel Hawthorne.
Em uma cena pertubadora, o relojoeiro ensandencido abre o alçapão
que dá acesso a corrente de um caudaloso rio no qual sua casa se
sustenta por meio de vigas subterrâneas, e em meio ao devaneio encara o "abismo Nietchzeano". Racional e irracional constantemente
entram em choque e essa tensão é magistramente bem conduzida.
O estilo direto e objetivo do Verne dá um tom realista ao conto, en-
quanto os constantes hints ao "modelador da forma" e ao "destruidor da forma" produz o desequilíbrio necessário para instigar o leitor.
A personificação do natureza do tempo e dos relógios na forma do anão é diabólica, assustadora e sugere grande poder.
Master Zacharius pode não estar incluso entre os contos mais lite-
rários e alguns podem até questionar sua validade como conto de puro horror, mas a meu ver é um dos contos fantásticos mais criativos e engenhosos já escritos, um deleite do começo ao fim.

Cotação: ***** de *****

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