domingo, 25 de novembro de 2007

BALANÇO 2007 (PARTE 1)

A partir desta semana estarei dando início a uma série de posts
relacionados ao que li e vi de interessante durante o ano.
Naturalmente só estarei relacionando aquilo que não foi re-
senhado anteriormente ou fazendo alguns comentários adicio-
nais sobre o que já foi postado.

CONTOS:

D.F. Lewis



Comentário:
D.F. Lewis é o William Burroughs da weird fiction
contemporânea. Incansável experimentalista, publi-
cou mais de 1.500 (!!) contos em apenas 10 anos
de carreira. É natural que em meio a tão prodigiosa
produção tenha escrito muita coisa fraca: alguns
contos são excessivamente experimentais, vagos e
abstratos e outros não passam de mera contemplação
do próprio umbigo. Mas separando o joio do trigo
e com uma boa dose daquele têmpero conhecido
como "gosto pessoal" a obra do Lewis se revela
uma das mais ecléticas e pessoais da weird fiction.
Pela sua produção inumana pode ficar a impressão
de ser um mero hack esrevendo no piloto automático.
Não.D. F. Lewis é um dos mais literatos e sofisticados
escritores da atualidade.
Nesta relação abaixo vocês encontrarão uma releitura
pós moderna do mito do vampiro, uma mini fantasia visi-
onária digna de um William Hope Hodgson, um espelho
transdimensional, dentre outras demências e maluquices
que só poderiam sair de sua cabeça.



Dognanhyi-D.F. Lewis ============================= ***1/2
Always in Dim Shadow-D.F.Lewis =================== ****1/2
Shiftlings-D.F.Lewis ============================= ****1/2
The Sun is Setting-D.F.Lewis ===================== *****
The Doorman Couldn't Sleep...-D.F.Lewis ========== ****1/2
Wiles-D.F.Lewis ================================== ****
The Abacus-D.F.Lewis ============================= ***1/2
The Caretaker-D.F.Lewis ========================== ***1/2
The Swing-D.F. Lewis ============================= ****1/2
The Christmas Angel-D.F.Lewis ==================== ***1/2
Second Best-D.F. Lewis =========================== *****
Migrations of the Heart-D.F.Lewis ================ **
Find Mine-D.F.Lewis ============================== ****1/2

ROMANCES:

The Tenant-Roland Topor






Comentário:
O romance de Topor que deu origem ao filme do
Polanski é ainda mais pertubador e inquietante.
Escrito em um estilo simples e direto, Topor é
um pequeno mestre das palavras precisas. The
Tenant é um suspense/thriller existencial que só
poderia têr sido escrito por um europeu.
A introdução do Thomas Ligotti é erudita e in-
formativa.
Além do texto na íntegra, esta excelente edição da
Millipede Press reúne alguns contos do autor
e uma galeria de sua arte surrealista.
 

Retribution-Sakebi (2006)-Resenha de filme



Direção: Kiyoshi Kurosawa

Sinopse:
Uma série de mortes misteriosas em
água salgada leva o policial encarregado
do caso a se aprofundar na investigação.
Para sua surpresa uma série de evidências
o aponta como principal suspeito ao mes-
mo tempo que outras mortes ocorrem com
várias similaridades entre sí. Confuso e ator-
doado, consumido por dúvidas e com a
vida pessoal atribulada, ele se envolve ainda
mais na teia de mistérios e contradições, apa-
rentemente sem solução.



Crítica:
Kiyoshi Kurosawa é o diretor de Cure e Kairo, dois
dos melhores filmes de horror de todos os tempos.
Ainda que tenha se especializado em thillers horro-
ríficos com enredos crípticos, protagonistas alie-
nados e boa dose de comentário social, ao longo dos
anos têm se mostrado um artista extremamente
versátil. Bright Future é um "drama" ou "sátira social"
(dependendo do ponto de vista), Doppellganger é
uma genial comédia negra grotesca, Charisma um
críptico (assim como todos seus filmes da fase ma-
dura) drama-arthouse, Seance uma inteligente ghost
story
. Kurosawa (nenhum parentesco com "o outro")
é mais um desconstrucionista/pós-modernista que fre-
quentemente usa os tropes e elementos do cinema de gê-
nero para tratar de temas Bergmaneanos e Tarkovskeanos
como solidão, alienação, isolamento espiritual, memória
e identidade, em filmes que atingem um fantástico equilí-
brio entre entretenimento e o cinema de arte.
Retribution pode ser considerado como um filme-resumo
de sua carreira que toma elementos de suas obras mais
conhecidas e os recicla em um formato (ligeiramente) mais
comercial. Sim, temos um enigmático assassino-semi-deidade
(ou assassinos) que exala mistério e maldade como em Cure,
o clima apocalíptico, o sense of doom e o horror puramente
metafísico da obra prima Kairo, e como bônus uma aparição
fantasmagórica que se tornou o clichê mais insuportável do
cinema oriental, graças a falta de talento e criatividade de reali-
zadores sem um décimo do talento de um Nakata ou do
Kurosawa. Um aspecto interessante em Retribution é que ao
mesmo tempo que é uma obra extremamente complexa (a ní-
vel de enredo), por outro é, em certos aspectos, seu filme mais
accessível. As intrusões sobrenaturais, por exemplo, são con-
duzidas com menor obliquidade e em muitos aspectos é um filme
mais direto. Que não fique a impressão que o Kurosawa se
vendeu. Sim, ele ainda usa e abusa dos takes de média distância,
da manipulação de efeitos sonoros e do silêncio (poucos cineastas
entenderam tão bem o uso do silêncio), do seu estilo gélido de
direção, dos fantásticos enquadramentos (a cena inicial é um
primor). Outros aspectos que eu não poderia deixar de ressaltar é
a excelente direção de atores e seu fino senso dramático; ele
nos joga dentro dos dramas e dilemas dos personagens, brinca
com a nossa percepção num fascinante jogo de realidades onde
nada é fixo e permanente.
Retribution não aringe o mesmo nível de Cure e Kairo, e talvez
nem seja tão bacana quanto Doppelganger, mas é cinema de
qualidade, filmado com um público alvo mais, digamos, espe-
cífico, mas deixa no chinelo a maioria das produções orientais.
Kurosawa é o trapaceiro cinemático que constantemente  
manipula a solidez do chão e nos puxa o tapete com a sutileza de
um hábil prestidigitador e a sabedoria de um piadista cósmico,
o Deus da risada negra.
Quem aprecia as obras do Philip K. Dick não terá dificuldades
em digerir este filme críptico, confuso mas ao mesmo tempo
belo e fascinante.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 17 de novembro de 2007

Epicuro: Os Filhos de Helena (Capítulo 4)



Argumento: William Messner-Loebs
Desenhos: Sam Kieth


Sinopse:

Epicuro e seus companheiros partem de Atenas
em um barco, são atacados por piratas e vão parar
em uma ilha onde presenciam uma série de estra-
nhos e absurdos eventos.

Crítica:
O principal problema com este último episódio é
que não existe um fio condutor narrativo que ligue
as cenas e com isso acaba se tornando fragmenta-
e episódico.
Encarando-o como uma série de "gags históri-
co-filosóficas" funciona muito melhor que como
uma narrativa contínua. Eu ia dar uma cotação mais
baixa mas o Sam Kieth (mais uma vez) nos deleita
com um orgasmo visual (em matéria desenhos este
capítulo é tão bonito quanto o primeiro)

Cotação: ***1/2 de *****

The Unseeable (2006) Direção: Wisit Sasanatieng-Resenha de filme




Sinopse:
Camponesa tailandesa grávida, à procura
do marido desaparecido, vai parar numa
espécie de hotel decrépito no meio do campo
comandado por uma viúva solitária que mora
em uma casa separada nos fundos.
Recebido por uma jovem, ela é apresentada
a uma soturna governanta que concorda em
hospedá-la por uma noite. Inquieta, curiosa
e desobedecendo aos avisos a camponesa
caminha pelas redondezas e se depara com
um homem cavando o chão. Fazendo rapi-
damente amizade com a jovem tagarela e
sendo constantemente reprimida pela go-
vernanta, ela acaba por dar a luz dentro do
hotel e a seu pedido concorda em visitar
a misteriosa e amargurada viúva com o intuito
de consolá-la com seu bebê. Inadvertidamente
ela começa a se envolver mais do que deveria
na sinistra teia de mistérios e segredos que 
rondam a viúva e o pensionato.




Crítica:
Quando assisti a Citzen Dog pela primeira vez
tive a sensação de ter tomado contato com um
diretor de uma visão peculiar, mesmo sabendo
e até concordando com algumas reclamações de
alguns cinéfilos que não gostaram nem um pouco
da semelhança de Citzen com Amélie Poulain.
O que eu não apostava era que o Wisit embarcaria
nas águas do horror gótico na linha de Os Outros
e Os Inocentes. Não só ele embarcou como se saiu
razoavelmente bem.
The Unseeable é um filme com muitos erros e acer-
tos e apesar de considerá-lo uma obra acima da
média tenho lá minhas dúvidas se o diretor fez um gol
chorado ou acertou na trave com um lance de bicicleta.
Algumas atuações me pareceram um tanto histéricas
e afetadas (em especial da jovem tagarela), talvez pela
sua predileção pelo absurdo e situações surreais de seus
filmes anteriores, ele não tenha encontrado um maior
equilíbrio num gênero que exige interpretações mais
controladas. Em algumas cenas o que era para ser
momentos de intensidade dramática (como em toda boa
ghost-love-story que se preze), descamba para a histeria
e histrionismo. Durante seus noventa minutos vemos
uma parada de fantasmas e aparições numa profusão
que acaba por diluir o impacto e efeito em alguns momentos.
Faltam aos sustos e intrusões sobrenaturais a sutileza e le-
veza de um Hideao Nakaka ou Takashi Shimizu ou a obliqui-
dade de um Kiyoshi Kurosawa. Sustos e aparições são tele-
grafadas e acabam por não produzir o efeito esperado (tendo
visto o fantástico Shutter anteriormente pode ter contribui-
do para minha decepção neste aspecto).
Talvez o maior defeito seja justamente esses excessos sobre-
naturais e, mais importante,  a maneira como eles são condu-
zido e/ou manipulados: há uma "objetividade" em The
Unseeable pouco saudável. Objetividade esta que as vezes
passa a impressão de serem "intrusões" não-sobrenaturais, de
não haver um "choque" entre o real e o irreal.
Mas seria injusto não comentarmos suas (muitas) qualidades.
The Unseeable é riquissimo em creepiness e atmosfera e não
se pode negar que o Wisit é um puta dum artesão de imagens,
cada tomada têm a beleza de um cartão postal, e o background
sonoro é em sua maior parte bastante eficiente. A belísssima
paleta de cores de tons predominantemente esverdeados
acaba por dialogar cinematicamente com a paisagem mas
também funcionando como um símbolo para decadência
e putrefação.
The Unseeable está longe de ser um filme perfeito, mas é bom
vermos diretores seguindo a cartilha do gótico clássico numa
época em que a previsibilidade e mesmice do cinema de horror
oriental atinge niveis insuportáveis.

Cotação: ***1/2  de  *****

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Pat & Tik-Resenha de curta de animação



Sinopse:
Homem tenta a todo custo chamar a atenção de uma jovem
num banco de praça. Mal sabe ele que a chave para a con-
quista pode estar em gestos simples.



Crítica:
Nesta pequena vinheta poética de animação, Gibaux nos mostra
como gestos simples e honestidade emocional podem, às vezes,
ser a saída para nossos labirintos e abismos emocionais e existenciais.
O visual puro e inocente, conseguido pela hábil manipulação
de cores alegres e tons suaves, manipulação sonora e varia-
ção tonal no terço final do curta, acabam por criar uma obra
sentimental sem cair na pieguice e melodrama.
Pat & Tik tem a graça e encanto dos melhores Chaplins e a ho-
nestidade e força poética de um De Sica ou Tornattore.

Cotação: ***** de *****

A Night in Malnéant (1929)-Clark Ashton Smith-Resenha de conto


 

Sinopse:
Jovem andarilho consumido pela culpa e remorso por ter
influenciado indiretamente a morte da sua amada, vai parar
em uma misteriosa cidade chamada Malnéant. Pertubado
pelo funéreo badalar dos sinos que o faz retornar a memória
da sua amada e vagando por ruas tortuosas à procura de uma
pensão para passar a noite, ele toma contato com soturnos mo-
radores que se preparam para um misterioso rito funeral e, para
sua surpresa, descobre que a defunta compartilha do
mesmo nome da sua falecida. Confuso e atordoado, comple-
tamente consumido pelo remorso intensificado pelo badalar dos
sinos, o jovem encontra acidentalmente a catedral onde o rito se
desenrola e para lá se dirige a fim de aplacar a dúvida que o con-
some.

Crítica:
Nesta belíssima fábula sobre morte e culpa, 
Malnéant é menos a representação física de uma cidade
que um eco e reflexo da geografia e estado mental
do protagonista: ruas estreitas e tortuosas aparente-
mente sem direção, badalos funéreos que intensificam
as sensações de culpa, remorso, arrependimento,
e melancolia, moradores soturnos que parecem compartiilhar
da dor do protagonista, névoas que encobrem ruas
e ofuscam arquiteturas...
A história tem um ritmo e unidade atmosférica mara-
vilhosos, se lê mais como um poema longo que um
conto propriamente dito. As "pinturas verbais" e imagética
do Smith são de uma beleza ímpar. Em especial a cena
em que ele contempla dentro da catedral congelada no tempo
(o autor sugere que a cidade, e a catedral em particular,
"existem" em um time-stream e/ou espaço temporal isolado
e a parte do nosso) a amada e uma lágrima se congela no
vácuo ou "gelo" temporal (é como se o momento da morte
congelasse no tempo ad infinitum).
A Night in Malnéant é extremamente vago e ambíguo
e alguns pontos não ficaram muito claros , mas por outro lado,
talvez pela riqueza simbólica, caráter ambíguo ou força poética,
me deixou uma profunda impressão como poucas histórias
me deixaram e acabei por reler mais duas vezes (nada me
garante que eu não vá lê-lo novamente nos próximos dias!!!!).
Autores geralmente são os piores críticos de suas obras,
mas neste caso o Smith acertou em cheio ao selecioná-lo para
lendário panfleto/chapbook The Double Shadow and
Other Fantasies resenhado entusiasticamente pelo Lovecraft
no igualmente lendário ensaio O Horror Sobrenatural na Litera-
tura.
Fica difícil imaginar este conto sendo publicado em uma
revista como a Weird Tales: durante sua vida criativa Smith
sofreu e penou com as constantes rejeições de seus contos
e muitas vezes era obrigado a reescreve-los
(leia-se: imbecilizá-los) com o intuito de torná-los mais pala-
táveis para o leitor médio (isso QUANDO conseguia conseguia
publicá-los).
Frequentemente o Farnsworth Wright (editor da revista em
em sua golden age) ) retornava os manuscritos ao autor
com comentários do tipo: "muito bom, mas não se adequa
ao público da revista" o que em outras palavras queria dizer:
bom e sofisticado demais para a revista (o Lovecraft
passou por semelhante situação durante sua vida criativa)
e a triste verdade é que na maioria das vezes o Wright
estava certo, pelo menos no que diz respeito ao gosto do
público médio (o Lovecraft e o Smith eram mais "conhecidos"
na época mais pela INTENSIDADE da admiração de alguns
leitores que pela quantidade de leitores. Uma das ironias
é que a grande maioria dos escritores populares da época
hoje não passam de meras curiosidades históricas enquanto
que uns poucos visionários hoje gozam de crescente
popularidade a ponto do Lovecraft ser incluso na seleta
coleção The Library of America ao lado de gigantes como o
Hemingway e William Faulkner).
A Night in Malnéant é o tipo de conto que costuma
dividir opiniões (quando o lí não tinha a menor idéia
do que esperar) e para leitores que gostam de contos
classicamente estruturados com enredos claros, precisos, sem
ambiguidade e obliquidade poderá desagradar e irritar,
mas como externalização de culpa e remorso provocado
pela perda de uma pessoa querida o conto é uma obra
prima.
Poe e Dunsany em seus túmulos frios, escuros e claustrofóbicos,
estão rindo à toa com tão bela homenagem aos seus escritos.

Cotação: ***** de *****


Sweets to the Sweet (1947)-Robert Bloch-Resenha de conto



Sinopse:
Governanta abandona casa onde trabalha devido aos mal tratos
de um pai para com a filha orfã.

Crítica:

Em se tratando de Robert Bloch quanto menos se souber o enredo,
maior o prazer da leitura.
Sweets to the Sweet é um conto clássico de humor negro em que
a inocência, horror e humor andam de mãos dadas. Rendeu um
belo episódio no filme-antologia da Amicus The House
That Dripped Blood.

Cotação ****1/2 de *****