quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Night in Malnéant (1929)-Clark Ashton Smith-Resenha de conto


 

Sinopse:
Jovem andarilho consumido pela culpa e remorso por ter
influenciado indiretamente a morte da sua amada, vai parar
em uma misteriosa cidade chamada Malnéant. Pertubado
pelo funéreo badalar dos sinos que o faz retornar a memória
da sua amada e vagando por ruas tortuosas à procura de uma
pensão para passar a noite, ele toma contato com soturnos mo-
radores que se preparam para um misterioso rito funeral e, para
sua surpresa, descobre que a defunta compartilha do
mesmo nome da sua falecida. Confuso e atordoado, comple-
tamente consumido pelo remorso intensificado pelo badalar dos
sinos, o jovem encontra acidentalmente a catedral onde o rito se
desenrola e para lá se dirige a fim de aplacar a dúvida que o con-
some.

Crítica:
Nesta belíssima fábula sobre morte e culpa, 
Malnéant é menos a representação física de uma cidade
que um eco e reflexo da geografia e estado mental
do protagonista: ruas estreitas e tortuosas aparente-
mente sem direção, badalos funéreos que intensificam
as sensações de culpa, remorso, arrependimento,
e melancolia, moradores soturnos que parecem compartiilhar
da dor do protagonista, névoas que encobrem ruas
e ofuscam arquiteturas...
A história tem um ritmo e unidade atmosférica mara-
vilhosos, se lê mais como um poema longo que um
conto propriamente dito. As "pinturas verbais" e imagética
do Smith são de uma beleza ímpar. Em especial a cena
em que ele contempla dentro da catedral congelada no tempo
(o autor sugere que a cidade, e a catedral em particular,
"existem" em um time-stream e/ou espaço temporal isolado
e a parte do nosso) a amada e uma lágrima se congela no
vácuo ou "gelo" temporal (é como se o momento da morte
congelasse no tempo ad infinitum).
A Night in Malnéant é extremamente vago e ambíguo
e alguns pontos não ficaram muito claros , mas por outro lado,
talvez pela riqueza simbólica, caráter ambíguo ou força poética,
me deixou uma profunda impressão como poucas histórias
me deixaram e acabei por reler mais duas vezes (nada me
garante que eu não vá lê-lo novamente nos próximos dias!!!!).
Autores geralmente são os piores críticos de suas obras,
mas neste caso o Smith acertou em cheio ao selecioná-lo para
lendário panfleto/chapbook The Double Shadow and
Other Fantasies resenhado entusiasticamente pelo Lovecraft
no igualmente lendário ensaio O Horror Sobrenatural na Litera-
tura.
Fica difícil imaginar este conto sendo publicado em uma
revista como a Weird Tales: durante sua vida criativa Smith
sofreu e penou com as constantes rejeições de seus contos
e muitas vezes era obrigado a reescreve-los
(leia-se: imbecilizá-los) com o intuito de torná-los mais pala-
táveis para o leitor médio (isso QUANDO conseguia conseguia
publicá-los).
Frequentemente o Farnsworth Wright (editor da revista em
em sua golden age) ) retornava os manuscritos ao autor
com comentários do tipo: "muito bom, mas não se adequa
ao público da revista" o que em outras palavras queria dizer:
bom e sofisticado demais para a revista (o Lovecraft
passou por semelhante situação durante sua vida criativa)
e a triste verdade é que na maioria das vezes o Wright
estava certo, pelo menos no que diz respeito ao gosto do
público médio (o Lovecraft e o Smith eram mais "conhecidos"
na época mais pela INTENSIDADE da admiração de alguns
leitores que pela quantidade de leitores. Uma das ironias
é que a grande maioria dos escritores populares da época
hoje não passam de meras curiosidades históricas enquanto
que uns poucos visionários hoje gozam de crescente
popularidade a ponto do Lovecraft ser incluso na seleta
coleção The Library of America ao lado de gigantes como o
Hemingway e William Faulkner).
A Night in Malnéant é o tipo de conto que costuma
dividir opiniões (quando o lí não tinha a menor idéia
do que esperar) e para leitores que gostam de contos
classicamente estruturados com enredos claros, precisos, sem
ambiguidade e obliquidade poderá desagradar e irritar,
mas como externalização de culpa e remorso provocado
pela perda de uma pessoa querida o conto é uma obra
prima.
Poe e Dunsany em seus túmulos frios, escuros e claustrofóbicos,
estão rindo à toa com tão bela homenagem aos seus escritos.

Cotação: ***** de *****


3 comentários:

veralucia disse...

Belíssima resenha, Ramon. E adorei esta capa vintage do Weird Tales.
beijos
Vera
http://altereddreams.blogspot.com/

Ramon Bacelar disse...

Thanks! As capas da Weird tales são um charme só!!!

Ramon Bacelar

Anônimo disse...

a tradução do conto de Smith, encontra-se aqui:

http://rogsildefar.blogspot.com/2010/02/conto-de-clark-ashton-smith-por-nos.html