domingo, 25 de novembro de 2007

Retribution-Sakebi (2006)-Resenha de filme



Direção: Kiyoshi Kurosawa

Sinopse:
Uma série de mortes misteriosas em
água salgada leva o policial encarregado
do caso a se aprofundar na investigação.
Para sua surpresa uma série de evidências
o aponta como principal suspeito ao mes-
mo tempo que outras mortes ocorrem com
várias similaridades entre sí. Confuso e ator-
doado, consumido por dúvidas e com a
vida pessoal atribulada, ele se envolve ainda
mais na teia de mistérios e contradições, apa-
rentemente sem solução.



Crítica:
Kiyoshi Kurosawa é o diretor de Cure e Kairo, dois
dos melhores filmes de horror de todos os tempos.
Ainda que tenha se especializado em thillers horro-
ríficos com enredos crípticos, protagonistas alie-
nados e boa dose de comentário social, ao longo dos
anos têm se mostrado um artista extremamente
versátil. Bright Future é um "drama" ou "sátira social"
(dependendo do ponto de vista), Doppellganger é
uma genial comédia negra grotesca, Charisma um
críptico (assim como todos seus filmes da fase ma-
dura) drama-arthouse, Seance uma inteligente ghost
story
. Kurosawa (nenhum parentesco com "o outro")
é mais um desconstrucionista/pós-modernista que fre-
quentemente usa os tropes e elementos do cinema de gê-
nero para tratar de temas Bergmaneanos e Tarkovskeanos
como solidão, alienação, isolamento espiritual, memória
e identidade, em filmes que atingem um fantástico equilí-
brio entre entretenimento e o cinema de arte.
Retribution pode ser considerado como um filme-resumo
de sua carreira que toma elementos de suas obras mais
conhecidas e os recicla em um formato (ligeiramente) mais
comercial. Sim, temos um enigmático assassino-semi-deidade
(ou assassinos) que exala mistério e maldade como em Cure,
o clima apocalíptico, o sense of doom e o horror puramente
metafísico da obra prima Kairo, e como bônus uma aparição
fantasmagórica que se tornou o clichê mais insuportável do
cinema oriental, graças a falta de talento e criatividade de reali-
zadores sem um décimo do talento de um Nakata ou do
Kurosawa. Um aspecto interessante em Retribution é que ao
mesmo tempo que é uma obra extremamente complexa (a ní-
vel de enredo), por outro é, em certos aspectos, seu filme mais
accessível. As intrusões sobrenaturais, por exemplo, são con-
duzidas com menor obliquidade e em muitos aspectos é um filme
mais direto. Que não fique a impressão que o Kurosawa se
vendeu. Sim, ele ainda usa e abusa dos takes de média distância,
da manipulação de efeitos sonoros e do silêncio (poucos cineastas
entenderam tão bem o uso do silêncio), do seu estilo gélido de
direção, dos fantásticos enquadramentos (a cena inicial é um
primor). Outros aspectos que eu não poderia deixar de ressaltar é
a excelente direção de atores e seu fino senso dramático; ele
nos joga dentro dos dramas e dilemas dos personagens, brinca
com a nossa percepção num fascinante jogo de realidades onde
nada é fixo e permanente.
Retribution não aringe o mesmo nível de Cure e Kairo, e talvez
nem seja tão bacana quanto Doppelganger, mas é cinema de
qualidade, filmado com um público alvo mais, digamos, espe-
cífico, mas deixa no chinelo a maioria das produções orientais.
Kurosawa é o trapaceiro cinemático que constantemente  
manipula a solidez do chão e nos puxa o tapete com a sutileza de
um hábil prestidigitador e a sabedoria de um piadista cósmico,
o Deus da risada negra.
Quem aprecia as obras do Philip K. Dick não terá dificuldades
em digerir este filme críptico, confuso mas ao mesmo tempo
belo e fascinante.

Cotação: ****1/2 de *****

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