segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Daydreams and Nightmares-Resenha de HQ











Crítica:
Winsor McCay é considerado quase que por unanimidade
como o primeiro gênio inconteste dos quadrinhos, e a meu
ver é dificil discordar. Claro que seu contemporâneo George
Herriman já fazia barulho com versões mais primitivas do seu
Krazy Kat (considerado por muitos, incluindo este que vos fala,
como a maior tira de HQ já feita) mas Herriman só começou a
acertar o passo e chamar a atenção da intelligentsia e vanguar-
distas no começinho dos anos 20, enquanto que McCay em suas
primeiras tiras já demonstrava sua esplêndida imaginação
visual e virtuosismo gráfico.
Se o sucesso e longevidade do seu magnífico The Little Nemo
in the Slumberland teve um lado negativo foi justamente o de
ofuscar seus outros trabalhos.
Este álbum chega em boa hora para tentar corrigir essa injusti-
ça e o faz maravilhosamente bem. Fazendo uma espécie de retros-
pectiva cronólogica, Daydreams and Nightmares cobre toda a
carreira do McCay (excetuando as tiras do Nemo) desde seu come-
ço como ilustrador, a tiras diárias de sucesso na época (algumas
injustamente esquecidas/ofuscadas como a genial The Dreams of
the Rarebit Fiend) passando por experimentos falhos de curta
duração como Poor Jake, a maravilhosas ilustrações de fundo
filosófico cujo didatismo e sermões ocasionais felizmente são ofus-
cados pelo virtuosismo do McCay.
Por maior e merecido reconhecimento que ele tenha conquistado
como ilustrador, é como artista inovador dos quadrinhos que ele
será primeiramente lembrado.

Vou relacionar as principais tiras desta coleção com breves comentários:

Little Sammy Sneeze - Tira que narra as trapalhadas de uma criança
com um espirro destruidor. Primeiro sucesso do artista, Sammy é
visualmente uma tira belíssma, mas a idéia central deixa pouco
espaço para evolução e depois de algum tempo acaba se tornando
um pouco repetitiva. Por estes motivos teve curta duração.



The Pilgrim's Progress - Andarilho vagueia pelo mundo tentando se
livrar de um fardo/pasta preta com a inscrição Dull Care. Tira aberta-
mente alegórica e filosófica, é provavelmente a mais intelectualiza-
da e instigante do McCay. Visualmente não chega a ser tão genial,
mas serve de interessante contraponto aos seus outros trabalhos
cuja beleza gráfica acaba por ofuscar os textos.

The Dreams of the Rarebit Fiend- O Rarebit Fiend do título se refere
a uma espécie de torrada européia que provoca terríveis pesadelos
para quem as come antes de ir para cama. Aqui o McCay exercita
toda a sua imaginação e humor bizarro-surreal numa sequência de
pesadelos cujas experimentações gráficas atingem um grau de criati-
vidade, sofisticação e beleza plástica somente igualado pelo seu
Little Nemo.
As tiras ora são hilárias e ingênuas, ora bizarras e surreais e as vezes nightmarish
e pertubadoras.



O restante do álbum nos apresenta várias sequências explorando
a sempre interessante temática dos sonhos/pesadelos (sempre com uma deliciosa inclinação para o surreal e o absurdo) e tiras comparativamente menores , porém com momentos interessantes e ocasionais flashes de genialidade.

Se você que consome HQ's importadas está pensando em adquirir esse
álbum essencial, o meu conselho é que corra, corra. A primeira edição se esgotou
rapidinho e esta segunda não vai demorar muito tempo nas prateleiras


Cotação: ***** de *****

Sorum (2001)-Resenha de filme


Direção: Jong-chan Yun

Sinopse:
Jovem motorista de táxi com uma
fixação por Bruce Lee se muda para
um soturno e decrépito edifício
marcado por tragédias e mortes mis-
teriosas. Tomando contato com os
moradores e envolvendo-se afe-
tivamente com uma mulher casada
que lhe relata uma morte ocorrida em
seu apartamento recentemente, acaba
por descobrir uma sinistra cadeia de
eventos e (outras) mortes ocorridas
antes da sua chegada que podem ter
alguma conexão com seu passado.





Crítica:
Ingmar Bergman meets David Lynch
meets Kiyoshi Kurosawa. Da leva do
horror oriental pós O Chamado, Acacia
e Sorum são, a meu ver, os filmes mais
injustiçados desse boom. Amado e odia-
do mais ou menos na mesma proporção
e com a mesma intensidade, esta pequena
obra prima do horror psicológico têm con-
fundido e maravilhado cinéfilos dentro e
fora do gênero. Estranho e soturno demais
para ser engolido pela maioria do público
mainstream; literato, sensível, profundo e
oblíquo em excesso para se adequar com
conforto no cinema de gênero, Sorum é um
pássaro raro, e como consequência acabou
adquirindo o status de cult, apesar de ser um
filme relativamente novo.
Concordo com algumas críticas: ritmo lento,
humor (as vezes) forçado, excessivamente frag-
mentado; mas Sorum não é, a nível de enredo,
um filme incompreensível, pelo menos no que
diz respeito aos seus principais segredos.
Por vezes confuso, é verdade, mas seria mais
correto classificá-lo como complexo.
Não tentem entender tudo numa primeira assistida.
Para ser devidamente apreciado vejam pelo menos
duas vezes e só depois formem uma opinião (não
me veio como surpresa que a maioria das críticas
"sem noção" tenham partido de gorehounds).
O diretor Jong-chan Yun entende do riscado e sabe onde
está pisando. Sorum é um filme rico em emoções com
creepiness e atmosfera saindo pelos poros, têm ótima
direção de atores, enquadramentos estilosos e uma
bela fotografia. Mesmo aqueles não muito interessados
em abordagens mais intelectuais e oblíquas do cinema
de entretenimento, dificilmente negarão a qualidade téc-
nica deste filme sui-generis.

Cotação: ****1/2  de  *****

John Mortonson`s Funeral-Ambrose Bierce-Resenha de conto



Sinopse:
Durante o funeral de John Mortonson,
em meio aos pêsames, rezas e cantos,
sua viúva recebe um choque ao contem-
plar o caixão e para surpresa dos paren-
tes e amigos um macabro segredo é re-
velado.


Crítica:
Resenhar vinhetas literárias não é algo que faço
frequentemente pelo fato de que em sua esmagadora
maioria não passam de puro entretenimento superficial
que se esvaem da memória como fumaça no ar.
Felizmente não é esse o caso de alguns escritores como
Bierce e mais uma meia dúzia de gatos pingados como o
Fredric Brown.
Bierce e Brown são escritores negros cuja visão de mundo é
profundamente pessimista (ou realista dependendo do ponto
de vista) mas cujo talento para o humor sardônico e alfinetadas
críticas e ácidas, telegrafadas com a precisão de um relógio suíço,
distanciam seus contos do mero entretenimento insubstancial.
Em Mortonson, Bierce escancara toda a pompa e hipocrisia que
rodeiam os ritos funerais: "amigos" que prestam homenagens aos
falecidos quando estes não mais precisam de atenção nem home-
nagens; penetras que fazem tudo pelo "social"; ritos funerais e pa-
dres cuja pompa e cânticos parecem importar mais que o próprio
morto; parentes "preocupadíssimos"com a morte do ente querido.
Bierce, em pouco mais de uma página, através de um estilo direto
e certeiro, não deixa pedra sobre pedra, e como bônus, no final,
ainda nos mostra que um certo animalzinho de estimação pode
ser menos inocente que aparenta.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 8 de dezembro de 2007

The Outer Limits: The Sixth Finger-Resenha de episódio


Sinopse:
Cientista desenvolvendo experimentos relacionados
a longevidade e aumento de inteligência usa um jo-
vem mineiro como cobaia, mas o experimento to-
ma um rumo inesperado e o jovem passa a se tornar
uma ameaça para a humanidade.





Crítica:
The Outer Limits era uma daquelas séries que tinha tudo
para dar errado: um orçamento ridículo, concorrentes
de peso no mesmo horário e exigências do anunciante
(naquela época os horários televisivos eram geralmente
"comprados" por apenas um anuciante) a torná-lo um
programa mais palatável. Consequentemente os produ-
tores se viram meio que obrigados a colocar um "mons-
tro" por episódio (carinhosamente apelidados como
"Monster of the Week") que acabavam por consumir mais
de 60% do ridículo orçamento. Mas tinha o outro lado da
moeda: concepção e supervisão criativa do Leslie Stevens,
(autor do clássico maldito Incubus estrelado pelo William
Shatner), Joseph Stefano (que mais tarde escreveria o script
de Psicose), um grupo de roteiristas profundamente familia-
rizado com a FC literária e o oscarizado diretor de fotogra-
fia, o gênio do preto e branco, Conrad Hall.
Pelo seu tom sério e realista, boas caracterizações e uma
habilidosa manipulação do que a gente costuma classificar
em inglês como "the suspension of disbilief" (algo como
"a suspenção da incredulidade") TOL pode e deve ser consi-
derado como o real precursor de Arquivo-X ( a meu ver a
semelhança com Kolchak: The Night Stalker é apenas super-
ficial).
The Sixth Finger têm todos os elementos que fizeram de TOL
uma série cultuada, além daqueles já citados: eficiente uso de
sons e background sonoro, atmosférica fotografia e um roteiro
maravilhosamente filosófico e literato.
Adorei a idéia de colocar o laboratório em um casarão semi-gótico
no meio de um vale (sou um profundo admirador do cinema
e estética gótica). Deu um têmpero soturno e melancólico
no que poderia se tornar um conto friamente científico.
O resultado final é uma obra que caminha a fina linha entre o
cheesy e o sofisticado; o ingênuo, despretensioso e ao mesmo tempo
profundo e cerebral; entretenimento superficial e substância na
medida certa. É justamente essa fusão do high brow e low brow
que torna TOL uma série tão carismática e admirada.

Cotação: ***** de *****

The Overworld (1966)-Jack Vance-Resenha de conto





Sinopse:
Comerciante falido e aventureiro trapaceiro cha-
mado Cugel, após ouvir uma tentadora proposta de
um colega de trabalho, resolve roubar o isolado cas-
telo do temido mago Iucounu, mas acaba se perden-
do num labirinto de vidro pouco antes de abandonar
a moradia do mago, e acaba por ser descoberto pelo
próprio retornando da feira onde Cugel vendia seus
falsos talismãs.
Como punição o mago promete enviar o trapaceiro
para os recônditos do inferno a não ser que ele acei-
te a proposta de viajar por meios mágicos para o
mundo de Cutz e recuperar uma esfera mágica perdi-
da durante uma guerra ancestral com o poder de pos-
sibiltar ao usuário "visualizar" uma espécie de mundo
espiritual ou dimensão superior onde a realidade obje-
tiva é descortinada e consequentemente o Overworld
revelado. Como "garantia" de lealdade a missão, Iu-
counu coloca por meios mágicos ao lado do fígado de
Cugel uma criatura-vigia espinhuda e ganchuda pronta
para causar danos no trapaceiro.
No teto da excêntrica morada do mago, Cugel é "con-
vencido" pelo próprio a entrar em uma gaiola-transporte
e após uma invocação, ele e sua criatura-vigia são
arremessados e rebocados por um demônio alado em
direção ao norte afim de cumprir sua missão e pagar o
seu débito com Iucounu.


Crítica:
Não se deixem enganar pela sinopse um tanto comum e formu-
laica de Overworld. Em Vance o enredo é apenas um prop ou
manequim para sustentação de infindável invenção, ornamentos,
arcaísmos, barroquismos e experimentações linguísticas que vão
de palavras inventadas ou ultra-obscuras (não leiam o Vance sem um
bom dicionário na mão) a diálogos indiretos de uma inventividade
e refinamento incomuns na fantasia e FC.
Nesta primeira aventura de Cugel (na verdade o episódio ini-
cial do segundo livro da série Dying Earth: The Eyes of the
Overworld
) nota-se uma mudança radical no tom em relação
ao primeiro romance da série (The Dying Earth aka Mazirian
the Magician
). Com a introdução de um trapaceiro amoral as
aventuras se tornam mais picarescas, movimentadas e (infeliz-
mente) menos poéticas e melancólicas. Se no primeiro livro
Vance evocava fantasistas clássicos como o Lord Dunsany
e o Clark Ashton Smith, aqui, pelo humor sardônico, diálogos
sarcásticos e tom geral de farsa as aventuras lembram positi-
vamente a genial Sword & Sorcery Fahfrd and the Grey
Mouser
do Fritz Leiber.
Não é a toa que Cugel é o personagem mais popular do Van-
ce dentre os leitores. Apesar de ser um trapaceiro amoral pou-
quíssimo confiável, é também um trapalhão carismático.
The Overworld pode não ser dos trabalhos mais substanciais
do Vance mas é certamente um dos mais criativos, coloridos e
com um personagem realmente memorável.

Cotação: ****1/2 de *****