



Crítica:
Winsor McCay é considerado quase que por unanimidade
como o primeiro gênio inconteste dos quadrinhos, e a meu
ver é dificil discordar. Claro que seu contemporâneo George
Herriman já fazia barulho com versões mais primitivas do seu
Krazy Kat (considerado por muitos, incluindo este que vos fala,
como a maior tira de HQ já feita) mas Herriman só começou a
acertar o passo e chamar a atenção da intelligentsia e vanguar-
distas no começinho dos anos 20, enquanto que McCay em suas
primeiras tiras já demonstrava sua esplêndida imaginação
visual e virtuosismo gráfico.
Se o sucesso e longevidade do seu magnífico The Little Nemo
in the Slumberland teve um lado negativo foi justamente o de
ofuscar seus outros trabalhos.
Este álbum chega em boa hora para tentar corrigir essa injusti-
ça e o faz maravilhosamente bem. Fazendo uma espécie de retros-
pectiva cronólogica, Daydreams and Nightmares cobre toda a
carreira do McCay (excetuando as tiras do Nemo) desde seu come-
ço como ilustrador, a tiras diárias de sucesso na época (algumas
injustamente esquecidas/ofuscadas como a genial The Dreams of
the Rarebit Fiend) passando por experimentos falhos de curta
duração como Poor Jake, a maravilhosas ilustrações de fundo
filosófico cujo didatismo e sermões ocasionais felizmente são ofus-
cados pelo virtuosismo do McCay.
Por maior e merecido reconhecimento que ele tenha conquistado
como ilustrador, é como artista inovador dos quadrinhos que ele
será primeiramente lembrado.
Vou relacionar as principais tiras desta coleção com breves comentários:
Little Sammy Sneeze - Tira que narra as trapalhadas de uma criança
com um espirro destruidor. Primeiro sucesso do artista, Sammy é
visualmente uma tira belíssma, mas a idéia central deixa pouco
espaço para evolução e depois de algum tempo acaba se tornando
um pouco repetitiva. Por estes motivos teve curta duração.

The Pilgrim's Progress - Andarilho vagueia pelo mundo tentando se
livrar de um fardo/pasta preta com a inscrição Dull Care. Tira aberta-
mente alegórica e filosófica, é provavelmente a mais intelectualiza-
da e instigante do McCay. Visualmente não chega a ser tão genial,
mas serve de interessante contraponto aos seus outros trabalhos
cuja beleza gráfica acaba por ofuscar os textos.
The Dreams of the Rarebit Fiend- O Rarebit Fiend do título se refere
a uma espécie de torrada européia que provoca terríveis pesadelos
para quem as come antes de ir para cama. Aqui o McCay exercita
toda a sua imaginação e humor bizarro-surreal numa sequência de
pesadelos cujas experimentações gráficas atingem um grau de criati-
vidade, sofisticação e beleza plástica somente igualado pelo seu
Little Nemo.
As tiras ora são hilárias e ingênuas, ora bizarras e surreais e as vezes nightmarish
e pertubadoras.

O restante do álbum nos apresenta várias sequências explorando
a sempre interessante temática dos sonhos/pesadelos (sempre com uma deliciosa inclinação para o surreal e o absurdo) e tiras comparativamente menores , porém com momentos interessantes e ocasionais flashes de genialidade.
Se você que consome HQ's importadas está pensando em adquirir esse
álbum essencial, o meu conselho é que corra, corra. A primeira edição se esgotou
rapidinho e esta segunda não vai demorar muito tempo nas prateleiras
Cotação: ***** de *****







