quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

EC Archives-Tales from the Crypt Vol 1: Crypt of Terror #19 -Resenha de HQ


Sinopse:
Quatro estórias de suspense e horror
roteirizadas pelo Al Feldstein e dese-
nhada por diversos artistas.

Crítica:
Quando, no final dos anos 40,
os editores da revista Crime Patrol
notaram uma maior aceitação
popular pelas estórias com foco
nos aspectos horroríficos,
se fez necessário uma mudança
de nome e direcionamento.
A partir do número 20 Crypt
of Terror teve seu nome modificado em
definitivo para Tales from the Crypt.


Ghost Ship!

Sinopse:

Casal sobrevivente de um
acidente aéreo embarca
em um navio aparentemente
vazio e lá encontra esqueletos
e um diário de bordo.


Crítica:
Tentativa em se criar um
conto de horror marítmo
na linha do William Hope
Hodgson. Boa arte com
uma impactante cena
no final, mas falta ao conto
tensão e atmosfera.

Cotação: *** de *****


The Hungry Grave:


Sinopse:
Para se livrar do marido al-
coólatra e ficar com herança
mulher convence o amante a
envenená-lo, mas o tiro
sai pela culatra.

Crítica:

Não é dos mais engenhosos e im-
pactantes (o final é previsível e
telegrafado) mas o que o eleva
acima do mediano é a extraordi-
nária arte do Graham Ingels. Dono
de um estilo que eu classificaria
como weird-gothic, Ingels é o
mestre das sombras, atmosfera e
distorções faciais.
Este conto caberia como uma luva
na série Alfred Hitchcok Presents.

Cotação: **** de *****



The Cave Man:

Sinopse:
Curador de um museu se vê
obrigado a abandonar um
projeto particular a contragosto
para se concentrar em uma
descoberta arqueológica.

Crítica:
Este conto um tanto bobo
e previsível caberia melhor num
dos encadernados de Weird
Science ou Weird Fantasy.

Cotação: *** de *****


Voodoo

Sinopse:
Jornalista registra com sua câmera
uma estranha ressureição em um ri-
tual voodoo e vai atrás do seu anfitrião
a procura de informações.

Crítica:
O que anda deixando a desejar em al-
guns contos desta primeira fase da
Crypt é a falta de um big punch e/ou
pay-off no final. Voodoo têm
ótimos momentos mas murcha no final.


Cotação: *** de *****

No geral uma edição decepcionante e inferior
as anteriores cujo destaque é
a estréia do monumental desenhista Graham
Ingels no título, que por si só já vale a leitura.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

The Defenders(1952)-Philip K. Dick-Resenha de conto


Sinopse:
Em uma guerra no futuro, a humanidade passa a viver
nos subterrâneos terrestres enquanto os conflitos
são travados por robôs na inabitável e radioativa
superfície terrestre. Quando um oficial em recesso
recebe um comunicado para comparecer em caráter de
urgência no sub-gabinete do seu superior,um segredo
vem à tona e eles se vêem obrigados a explorar a su-
perfície terrestre a fim de descobrir a verdade sobre
a guerra.

Crítica:
Na primeira metade dos anos noventa,
por meio das coleções de FC portuguesas
e tupiniquins, eu estava devorando os
livros do mestre da irrealidade praticamente
de uma sentada em quantidades cavalares.
Blade Runner,Ubik, Loteria Solar, Os Três
Estigmas de Palmer Eldritch... em meio a esses
e outros clássicos me caíram em mãos tranquei-
ras como Vulcan's Hammer (mesmo em seus piores
momentos Dick sempre nos surpreende com alguma
ironia cósmica ou idéia interessante) e títulos
relativamente obscuros como Os Clãs da Lua Alfa
(um dos seus livros mais subestimados)e A Penúl-
tima Verdade. Este último, lido após os clássicos
citados, me soou como uma leitura mais "realista"
e down to earth e mesmo tendo me deixado a im-
pressão de uma leitura agradável e intelectualmente
estimulante, me deixou também a sensação de uma
obra com conceito e idéias centrais engenhosos
porém mal aproveitados, uma obra com um potencial
não totalmente realizado.
The Defenders foi o conto que serviu de base para
o romance e em vários aspectos é superior a obra
expandida. Em apenas 20 páginas Dick constrói um cenário
futurista detalhado e realista com uma quantidade de idéias
e questões dignos de um romance de 500 páginas.
Compacto, straight to the point, intelectual
e filosoficamente estimulante, com suspense, mistério e
drama muito bem dosados, The Defenders é uma pequena
pérola que só não leva nota máxima pelo "discurso" na
parte final um tanto piegas.


Cotação: ****1/2 de *****

domingo, 7 de dezembro de 2008

The Men Return (1957)-Jack Vance-Resenha de conto


Sinopse:
Ao passar por uma área de não-causalidade a terra
entra em colapso e a população é praticamente dizi-
mada junto com uma raça conhecida como Relicts.
Em meio ao caos, vivendo em um mundo caótico
onde tudo pode acontecer, os Organisms (como são
conhecidos os humanos sobreviventes) e os Relicts
se confrontam em uma terra devastada e em constante
mutação onde nada é fixo nem permanente, a procura
do bem mais precioso: comida.


Crítica:

The Men Return é um assustador retrato de um mundo onde
a causalidade não se aplica e consequentemente os sobreviven-
tes travam uma infindável batalha pela sobrevivência e "perma-
nência" numa terra em constante convulsão e transformação:
jatos de fontes de pedra líquida que se ramificam em corais
negros, ar sólido servindo como "navios aéreos", pirâmides
que se transformam em domos que se transmutam em tesse-
racts, terrenos traiçoeiros e sem solidez, superfícies
vitrificadas e ao mesmo tempo maleáveis, áereas de vácuo que
funcionam como armadilhas...
No mundo de Vance o ambiente molda o comportamento e
ações dos sobreviventes, assim como suas reações acabam por
influênciá-lo.
The Men Return não retrata um futuro distante e sim um futuro
impossivelmente distante onde o sense of strangeness, vastness,
e alieness reinam supremo.
Esta pequena pérola me lembrou positivamente tanto o conto
Black Destroyer do A E. Van Vogt (pela cena inicial da criatura
faminta no sopé de uma montanha à procura de comida e a at-
mosfera tensa e sombria) assim como o fabuloso Road to Night-
fall (já resenhado por mim) do Robert Silverberg.
A execução e imagética quase surreal se assemelha a alguns experi-
mentos da new wave (talvez o J. G Ballard ou Barrington J. Bayley)
O refinamento estilístico e a imaginação febril do Vance criam, em
menos de 10 páginas, uma pequena obra prima.

Cotação: ***** de *****

EC Archives-Tales from the Crypt Vol. 1: Crypt of Terror # 18 -Resenha de HQ


Sinopse:
Quatro estórias de suspense e horror
roteirizadas pelo Al Feldstein e dese-
nhadas por diversos artistas.

Crítica:
Quando, no final dos anos 40,
os editores da revista Crime Patrol
notaram uma maior aceitação
popular pelas estórias com foco
nos aspectos horroríficos,
se fez necessário uma mudança
de nome e direcionamento.
A partir do número 20 Crypt
of Terror teve seu nome modificado em
definitivo para Tales from the Crypt.


The Maestro's Hand

Sinopse:
Médico se vinga de
famoso pianista após este ter
lhe roubado a esposa.


Crítica:
A idéia central foi "emprestada"
de The Hands of Orlac, romance do Maurice
Level. Não sou um grande admirador de contos
narrados em flashback mas no material da E.C.
eles funcionam muito bem.

Cotação: ****1/2 de *****


The Living Corpse

Sinopse:
Funcionário de necrotério é atacado
por duas vezes por corpos apa-
rentemente reanimados.

Crítica:
Conto com um enredo extremamente
simples mas de uma eficiência
extraordinária. Um de seus trunfos
é justamente na condução da
estória. Além do ritmo frené-
tico e quase paranóico os
desenhos do Wally Wood criam
uma densa atmosfera de pesadelo
demencial.
Uma verdadeira aula de atmosfera
e storytelling.Tudo isto em apenas
sete páginas.


Cotação: ***** de *****


Madness at Manderville:

Sinopse:

Após perder seu filho, esposa
passa a apresentar sinais de psicose
mas é ajudada pelo seu marido que
a leva para ser tratada


Crítica:
Nas HQ's da E.C. quanto menos se
entrega o plot melhor. Basta dizer
que este conto têm um dos twists
mais engenhosos e coerentes
que já tive oportunidade de ler.
Quem gosta daqueles thrillers
da Hammer certamente apreciará
este conto.


Cotação: ****1/2 de *****



Mute Witness Murder

Sinopse:
Mulher perde a voz após
presenciar pela janela do
seu apartamento um
assassinato.

Crítica:
Thriller hitchcokeano
carregado de suspense e tensão.
Um belo desfecho para uma edição
memorável.


Cotação: ****1/2 de *****

domingo, 23 de novembro de 2008

EC Archives-Tales from the Crypt Vol 1: Crypt of Terror # 17 -Resenha de HQ



Sinopse:
Quatro estórias de suspense e horror
roteirizadas pelo Al Feldstein e dese-
nhadas por diversos artistas.

Crítica:
Quando, no final dos anos 40,
os editores da revista Crime Patrol
notaram uma maior aceitação
popular pelas estórias com foco
nos aspectos horroríficos,
se fez necessário uma mudança
de nome e direcionamento.
A partir do número 20 Crypt
of... teve seu nome modificado em
definitivo para Tales from the Crypt.
Inicialmente receioso em investir um
money relativamente elevado em um
archival hardcover cujo contéudo foi
classificado como tame e mixed bag
quando comparado a qualidade artística
e blood-baths das edições posteri-
ores, fui pego de surpresa.Certamente me-
nos violento e twisted que o material
posterior, sem os finais irônicos e
talvez sem o mesmo punch, mesmo
assim Crypt é uma HQ excelente
e percebe-se claramente o porque do
fascínio e adoração quase religiosa
exercida por esse gibi e outras
publicações da E.C.
Os enredos podem parecer um tanto
clichês e formulaicos à primeira vista
mas é importante frisar que no começo
da década de 50 eram novidade e a meu
ver muito pouco produzido pos-
teriormente nessa linha se equipara a
qualidade da arte e enredo destes contos.
Neste post (e em outros que se seguirão)
vou relacionar o material de cada número
assim como breves comentários e cotações
individuais.


Death Must Come!

Sinopse:
Cirurgião se mantém jovem
por mais de 50 anos por meio da extração e
troca de uma glândula que acelera o envelhe-
cimento.

Crítica:
Narrada em flashbacks, é um conto
envolvente e um perfeito kick off.

Cotação: ****1/2 de *****



The Man Who Was Death

Sinopse:
Executor psicótico resolve fazer
justiça com as próprias mãos
após absolvição dos últimos réus.

Crítica:
Conto com generosas doses de sadismo com
uma arte que nem sempre se equipara
ao excelente texto.

Cotação: ****1/2 de *****


The Body That Nobody Knew

Sinopse:
Conto sobre a identidade de um cadáver des-
figurado descoberto pela esposa de um detetive.

Crítica:
Material rotineiro mas com excelente arte.

Cotação: *** de *****


Curse of the Full Moon!

Crítica:
Estruturalmente semelhante ao
Death Must Come!, Curse of...é um inteligente
conto de lobisomen que trata a licantropia
menos como superstição e mais como uma aflição
psíquica.

Cotação: ****1/2 de *****

The End of a Summer's Day (1968)-Ramsey Campbell-Resenha de Conto



Sinopse:
Mulher sexualmente reprimida, adentra
uma caverna com seu companheiro em
uma excursão e passa a temê-la de maneira
um tanto irracional. A situação se complica
quando seu marido desaparece e seus com-
panheiros de excursão começam a se
comportar de maneira estranha.

Crítica:

Este conto faz parte daquele seleto grupo
que eu classificaria como "que merda é essa!
": estórias praticamente desprovidas
de enredo, narradas de maneira obtusa e
indireta, com forte concentração nas sensa-
ções, estados psicológicos e paisagens mentais
de seus personagens e com uma tendência para o
simbólico, metafórico, psicodélico, visionário
e surreal.
Ramsey Campbell é um dos poucos escritores
a dominar essa forma que têm como ilustres represen-
tantes o Walter De La Mare e o grande Robert
Aickman.
Por se tratar de uma obra vaga e surreal acho que o
melhor mesmo é reproduzir alguns trechos da
magia verbal e força imagética do Campbell.
Ele transforma cenas rotineiras em puro delírio
surreal, como nesta descrição de um casal de
namorados se acariciando:

"In a dark niche between two ridged stalactites
they saw a couple: the girl's head was back,
gulping as at water, their heads rotated on the
axis of their mouths like planets in the darkness."


e nesta:

"The vault was vast.The walls curved up like ribs,
fanged with dislocated teeth about to salivate and
close."


ou momentos de puro pathos:

"Even afterwards, as they lay quiet, bodies touching
trustingly, she never felt that peace which releases the
tongue, enabling her to tell him what she felt."


Sacaram?? É weird fiction da mais original, literata e
delirante que se possa imaginar.
Me deixou uma profunda impressão.

Cotação: ***** de *****

terça-feira, 21 de outubro de 2008

The Cremator (1969)-Resenha de Filme

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Direção: Juraj Herz

Sinopse:
Em uma Tchekoslovakia prester a ser
invadida pelas forças alemãs durante
a guerra, cremador nacionalista se con-
tamina pela ideologia nazista e passa
gradualmente a demonstrar comporta-
mento estranho e obsessivo para com
seus compatriotas e sua família.
A situação se complica quando ele
descobre que sua esposa pode ter
sangue judeu.

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Crítica:
O eslovako Juraj Herz ocupa uma posição
curiosa no cinema tcheco.Tendo estreiado
no começo da new wave do cinema tcheco
em meados dos anos 60, nunca foi muito
aceito pelos colegas devido a sua origem co-
mo animador de bonecos e chegou a ter seu
média metragem excluído do filme-antologia
Pearls of the Deep (obra importante para a
consolidação estética da new wave).
Seu entusiasmo e interessesse pelos aspectos
góticos, grotestos, surreais e decadentes, assim
como sua predileção para estilização
gótico-barroca e por um cinema comparati-
vamente menos engajado, certamente contri-
buiram para sua exclusão do movimento.
Com o resgate desta pérola em DVD fe-
lizmente o trabalho deste criador idiossin-
crático começa a ter o reconhecimento que
merece.
The Cremator é um filme feito de absurdos.
Do absurdo de pessoas hipócritas, superficiais
e oportunistas que se deixam levar por ideais
furados, do absurdo ideológico da pureza de
raça; do absurdo (e imbecilidade) das guerras
e da concentração de poder em poucas mãos.
É tambem uma mordante e "mal disfarçada"
alegoria política (a Tchekoslovakia nazista não
é la muito diferente da comunista dos anos 60);
um assustador retrato da descida gradual de um
indivíduo no delírio e psicose e, acima de tudo,
um maravilhoso orgasmo cinemático, um exercício
expressionista em humor negro, grotesquerie e
excesso gótico como poucas vezes se viu na telona.
Eu poderia ficar por horas babando em cima deste
filme, mas infelizmente meu estoque de saliva é limitado
assim como minha habilidade para definí-lo. Basta dizer
que The Cremator exala genialidade pelos poros: não
existe um diálogo ou sequência que não seja genial; seja
pela engenhosidade e literacy do roteiro ou pelo estilo
visual, truques e exploração da linguagem cinematográ-
fica in extremis. Da utilização da lente olho de peixe
a zoom e closes extremos, do extraordinário trabalho
de montagem e edição a arrepiante trilha sonora, todos
os recursos são explorados com uma função específica,
nada é gratuito. Se o horror (literário e cinematográfico) é
(infelizmente) mais conhecido pelo que ele representa de
pior (pelo menos pelo público médio), fica fácil entender
porque ele não ficou muito conhecido por essas
bandas (no leste europeu foi o terceiro filme mais
visto nos festivais antes de ser banido do seu país natal).
The Cremator é uma obra sui generis cuja originalidade
de concepção e maestria de execução a colocam entre
os maiores triunfos cinematográficos do século XX.

Cotação: ***** de *****

Sandman: Estação das Brumas-Resenha de HQ

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Argumento: Neil Gaiman
Arte: Vários


Sinopse:
Em uma reunião dos perpétuos Lorde Morpheus
se dá conta do seu erro de ter condenado sua
amante Nada aos confins do inferno por puro
orgulho e capricho.
Arrependido, empreende uma viagem aos sub-
terrâneos infernais para salvar sua amada e se redi-
mir do erro.
Chegando lá, com o lugar praticamente vazio, en-
contra um Lúcifer exausto e recém abdicado
do posto de senhor do inferno que lhe entrega a
chave do domínio e a responsabilidade pelo uso do
mesmo. Rapidamente a novidade se espalha pelo
cosmo e o destino da chave terá que ser decidido
no coração do sonhar.


Crítica:
Em Estação das Brumas Mr. Gaiman exercita
toda a sua erudição e talento para justaposição,
unindo mitologias "reais" e imaginárias num
todo coeso e com uma lógica interna própria.
A naturalidade e desenvoltura que ele costura
elementos da mitologia bíblica, nórdica,
egípcia etc, na tapeçaria onírica da Sandman
é digna dos melhores tecelões.
Uma Bast da mitologia egípcia sendo assediada
por um Thor mitológico, ou um love affair entre
criaturas demoníacas pode soar rídiculo,
mas o toque mágico do autor faz tudo parecer
verossímil e natural. Ao longo de seus oito
capítulos testemunhamos uma impressionante
multiplicidade de estilos e tons que vão do
horror a mais pura poesia visual e textual.
Desde os primeiros anos no começo
do século XX, quando lançadas como
tiras de jornais, nunca me pareceu faltar
bons roteiristas nas HQ's, mas pouquíssi-
mos roteiristas antes do Gaiman (Alan
Moore incluso) conseguiram elevar o texto
a um grau tão alto de refinamento e sofisti-
cação.
Por mais que eu admire os goticismos
e britishness de Prelúdios e Noturnos
(o traço do Sam Kieth é uma maravilhosa
homenagem ao trabalho do Bernie
Wrightson) e o surrealismo, horror e caos
estrutural de Casa de Bonecas, Estação das
Brumas talvez seja a obra prima do Gaiman.

Cotação: ***** de *****

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Feios, Sujos e Malvados (1976)-Resenha de Filme

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Direção: Ettore Scola

Sinopse:
O filme narra a movimentada e tumultosa rotina
de uma extensa família miserável em uma favela italiana
cujo patriarca nutre uma patológica obsessão
pelo dinheiro proveniente de um seguro. A situação
se complica quando ele arranja uma parceira
para morar junto com a mulher e os filhos.

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Crítica:
Não sei se seria adequado classificar Feios, Sujos e Malvados
como uma comédia social. Ainda que todos os elementos
estejam lá, há algo de subversivo e transcendente que impede
que o enxerguemos como tal. Durante seus 100 minutos
somos inundados por uma torrente de imagens e situações
em que o riso brota naturalmente. Mas é um sorriso nervoso,
inquieto, desconfortável, quase desesperado. Ao mostrar a dura
realidade das favelas italianas (e por extensão a nossa realidade)
empregando a linguagem do caricato e absurdo
(por vezes quase surreal) Scola nos joga em situações
incômodas, coloca à nossa frente aquele espelho social
que frequentemente evitamos e o efeito é desconcertante.
O negócio é rir para não chorar!!!
A grande sacada do Scola foi conseguir criar e sustentar um tom
estranho e variável que oscila entre o hilário-fanfarrão e o
angustiante-desesperador, foi fazer um filme accessível,
"fácil" de assistir (para quem não se incomoda com humor
negro e grotesco é claro), que diverte e entretém durante sua
duração mas que ao mesmo tempo é profundo e incisivo.
Em meio ao espetáculo de bizarrerrie e grotesquerie o diretor
intercala momentos de um belíssimo realismo poético, conferindo
assim ao espectador um "refresco" cinemático.
Feios, Sujos e Malvados é um ataque a mente e aos sentidos,
é aquele chute no saco que dói prá cacete, mas necessário.

Cotação: ***** de *****

Moomin Vol. 1 - Resenha de HQ

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Texto e arte: Tove Jansson

Sinopse:
Coleção de tiras de jornais que narra a rotina
de uma familia semelhante a hipopótamos
antropomorfizados.

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Crítica:
Quando a escritora finlandesa Tove Jansson
aceitou o convite de um jornal inglês, na pri-
meira metade dos anos 50, para transformar sua
série de livros infanto juvenis Moomin em tiras
diárias com uma abordagem mais adulta e irôni-
ca ela já era um escritora consagrada e traduzida
para mais de 15 línguas e em seu auge chegava a
circular em 40 jornais nos quatro cantos do mundo.
Por cinco anos a autora escreveu e desenhou, mas, no
final dos anos 50, alegando falta de tempo e esgota-
mento criativo, passou o bastão ao seu irmão
que continou com a tira até meados dos anos 70.
Se por um lado os livros da série se tornaram popu-
laríssimos, os quadrinhos tiveram um destino um tanto
estranho. Bastante popular quando produzido, caiu numa
inexplicável obscuridade quase absoluta nas últimas
décadas e provavelmente continuaria no limbo
não fosse a maravilhosa iniciativa da editora canadense
Drawn & Quarterly em editar toda a fase da Jansson em
edições que realmente fazem justiça a esta tira mag-
nífica.
Moomins é uma HQ de animais falantes com boa dose
de sátira e comentário social onde o absurdo e o sense
of strangeness
jamais soa deslocado e intrusivo; tudo em
Moomins é bonito e harmonioso, tudo flui como um rio
de água clara. O texto limpo, inteligente e compacto é
complementado por um belíssimo traço de grande refi-
namento e rigor estético.
Este primeiro volume é divido em 4 contos de 30 páginas,
todos excelentes, com especial destaque para Moomins on
the Riviera
onde a família abandona sua idílica existência
no Mommin Valley para passar uma temporada na riviera
francesa. É o conto clássico do caipira ingênuo que sai
do seu meio e adentra um meio social desconhecido e inós-
pito e se mete em trapalhadas. Porém aqui o twist é a alta
dose de sátira social e humor ácido não muito distante dos
contos do Saki ou John Collier.
Moomin é uma das mais inteligentes e bonitas tiras já criadas
e merece figurar ao lado de clássicos do quilate de Little Nemo
e Krazy Kat.

Cotação: ***** de *****

sábado, 20 de setembro de 2008

Abaixo o Imprevisto!-Resenha de HQ

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Argumento e desenhos: Boucq

Sinopse:
Coletânea de contos gráficos sobre
um vendedor de seguros chamado Jerome
Moucherot e suas aventuras na selva urbana
em busca de novos clientes.

Crítica:
De simples e direto no trabalho do Boucq
só a minha tentativa de resumo na sinopse.
Atualmente um dos mestres do conto curto
gráfico, sua série Jerome Moucherot (assim como
outros contos reunidos no álbum Pioneers
of the Human Adventure) é uma deliciosa
mistura de surrealismo, non sense, absurdismo,
alegoria, crítica social, intelectualismo e
um senso de humor tipicamente francês.
Boucq não economiza na imagética extravagante
e bizarra: veículos com "cascos" de fuscas e
patas de tartarugas (ou seria o oposto?), bordéis
em meio a selvas urbanas habitados por prostitutas
tendo como moradas bocas de hipopótamos;
rinocerontes com chifres em forma de falo;
folhas outonais conscientes filosofando sobre sua
natureza transitória...
O que poderia soar como um surrealismo agressivo
e escatológico é amenizado pela carismática figura
de Moucherot vestido em um terno de pele de tigre
e uma caneta trespassada no nariz como um canibal
e também pelo constante senso de humor.
Sempre com ótimas sacadas e uma criatividade que
parece não ter limites, Moucherout é uma pérola do
humor, crítica e nonsense. Altamente recomendado.


Cotação: ***** de *****

Violated Angels (1967)-Resenha de Filme

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Direção: Koji Wakamatsu

Sinopse:
Homem mentalmente pertubado
adentra um dormitório de enfer-
meiras a convite de uma delas,
assassina um casal de lésbicas
e promove uma sessão de tor-
turas físicas e psicológicas an-
tes de assassiná-las.
Prevendo futuros homicídios
uma das enfermeiras tenta inti-
midá-lo por meio do diálogo
mas o ato têm um efeito oposto.

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Crítica:
Baseado em um fato real ocorrido em
Chicago nos anos 60, Violated Angels
acabou por se tornar o filme mais co-
nhecido do diretor no ocidente.
Wakamatsu não é um artista lá muito
fácil. Seus filmes incomodam não apenas
pelo alto grau de violência e perversidade
mas principalmente pela maneira como o
diretor disseca as mentes de seus monstros
psicopáticos e (nem sempre) vítimas indefesas, sejam
elas prostitutas, executivos ou cidadões comuns.
Mais que simples sangue, ultra-violência e nudez
(em quantidades generosas diga-se de passa-
gem) seus filmes são acima de tudo densas
explorações psicológicas de mentes pertubadas,
character studies cujo approach e plano de
ataque fica entre o puro exploitation e o
avant-garde, o cru e o sutil, o real e o metafórico,
o sagrado e o profano; em seus filmes high brow
e low brow andam de mãos dadas, convivem
harmoniosamente mas por vezes deixam escapar
aquele risinho irônico e sardônico, aquela sugestão
de uma guerra secreta sendo travada pela supre-
macia.
Violated Angels é um filme incômodo e perverso
(ainda que não alcance os mesmos extremos de sadis-
mo psicopático de The Embryo Hunts in Secret),
daqueles que despertam no espectador um estranho
mix de repulsa e atração (tive a mesma sensação
ao assistir O Desperrtar da Besta do nosso Mojica)
e ao final tive a sensação de assistir a mais um Wakamatsu
vintage, mesmo não tendo o mesmo "peso" e substância
de filmes superiores como Go Go Second Time Virgin
(em minha opinião sua obra prima), Ecstasy of the Angels,
Shinjuki Mad (meu segundo preferido e já resenhado aqui)
e o já citado Embryo.


Cotação: ****1/2 de *****

The Miracle Workers-Jack Vance-Resenha de romance curto

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Crítica:
Neste romance curto Vance vira os clichês da fantasia
e FC de ponta a cabeça e nos mostra uma sociedade
medieval com um passado tecnológico onde fortalezas
rivais se degladiam em uma espécie de guerra-voodoo
comandadas por "feiticeiros" que praticam uma espécie
de "magia racional". O twist fica por conta da abordagem
onde a mágica é considerada racional e a ciência, quase
esquecida, confinada a um passado que seria o equiva-
lente a nossa idade das trevas. Vance é sempre genial.

Cotação: ****1/2 de *****

sábado, 13 de setembro de 2008

A Serpente (1966)-Resenha de Filme

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Direção: John Gilling

Sinopse:
Rapaz morto por uma estranha criatura
na mansão de um doutor em teologia,
deixa em seu testamento sua casa (em
frente a mansão) para o seu irmão, que
logo se muda para a nova morada com
sua esposa.
Excecrado pelos frequentadores de um pub
na sua chegada, tendo sua casa depredada
e não inteiramente convencido dos moti-
vos da morte do seu irmão, resolve investi-
gar as causas desta e outras mortes mis-
teriosas no vilarejo, ao mesmo tempo em que
toma contato com a enigmática e misteriosa
filha do doutor.

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Crítica:

OK, eu sei que o que eu vou dizer é meio paradoxal e
não faz lá muito sentido, mas não tenho como colocar
de outra maneira: os filmes do estúdio inglês Hammer,
em sua grande maioria, não me causam nenhum medo
e inquietação, mas por algum motivo que não sei
explicar, eles me provocam um fascínio e maravilha-
mento que são únicos. John Gilliam é um dos mais profi-
ssionais e competentes diretores do cinema fantástico dos
anos 60, mas infelizmente teve o azar de filmar numa época
em que a concorrência era braba. Competir com um Mario
Bava ou Terence Fisher (seu companheiro de estúdio) não
tinha a menor graça e consequentemente obras sensacionais
como Epidemia de Zumbis, A Sombra do Gato e este A Ser-
pente acabaram por ficar  menos conhecidas como
mereciam; Gilliam foi ofuscado.
Talvez menos preciso que o Terence Fisher, mas com um estilo
mais fluido e de maior densidade atmosférica, em certos momentos
esta obra alcança uma intensidade quase hipnótica e alucinatória;
infelizmente a maquiagem um tanto fake acaba por vezes por di-
ssipar um pouco do efeito, mas não prejudica significantemente
o produto final.
A Serpente é puro Hammer e é um dos filmes que primeiro
me vem a mente (além dos primeiros clássicos do Lee/Cushing/
Fisher é claro) quando alguém me pede indicações.
Envolvente, movimentado, belamente fotografado e
com deliciosos momentos de bizarrerie e grotesquerie,
A Serpente é uma maravilha de cinema fantástico.
Hammer vintage.


Cotação: ****1/2  de  *****

Jumper-George Zebrowski-Resenha de Conto

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Sinopse:
Psicólogo recebe uma paciente
que afirma acordar em um lugar
diferente onde originalmente
adormeceu. Achando se tratar
de um típico caso de sonam-
bulismo, oferece um tratamento
prolongado mas intriga-se com
a relutância da paciente em admitir
problemas com o sono. Disposta a
provar se tratar de um caso de
desmaterialização, propõe ao
psicólogo que a acompanhe durante o
sono por uma noite, proposta esta
que ele recusa temendo abalar sua
reputação. Envolvido afetivamente
com a paciente e disposta a ajudá-la
acaba por aceitar a proposta mas
mal sabe o que lhe espera.


Crítica:
George Zebrowski está se tornando
o meu modelo ideal de um contista
de ficção especulativa: fortes caracte-
rizações, sólida base científica,
enredos ousados e originais, belo uso
de conceitos filosóficos e existenciais
e um estilo de uma lucidez, concisão
e precisão digno dos melhores minia-
turistas.
Jumper caberia como uma luva numa
daquelas séries de FC clássicas como
Twilight Zone ou Outer Limits. Quase
visualizo suas situações embaladas na-
quela maravilhosa fotografia do gênio
do preto e branco Conrad Hall ou o
Rod Serling introduzindo o conto.
Nas primeiras linhas o autor joga o leitor
no mente dos personagens: o psicólo-
go sendo "invadido" pela inteligência
e convicção da paciente e ela ao mesmo
tempo profundamente pertubada com
os "jumps" noturnos implorando impli-
citamente por ajuda.
Falar mais é estragar as surpresas deste
conto maravilhoso.

Cotação: ***** de *****

sábado, 16 de agosto de 2008

The Town Where No One Got Off-Ray Bradbury-Resenha de Conto



Sinopse:
Vendedor desembarca de um trem em um
vilarejo isolado e aparentemente inóspito
com o intuito de sair de sua monótona
rotina de viajante. Em suas andanças pela
cidade ele encontra o idoso que o recebeu
no desembarque e trava um diálogo
sobre a natureza do bem e do mal e a
possibilidade de um crime perfeito.


Crítica:
Ray Bradbury pode ser mais conhecido
como um autor de fantasias poéticas,
sentimentais e as vezes açucaradas, e pelos
romances As Crônicas Marcianas (na verdade
um romance mosaico que pode ser lido também
como contos independentes) e Fareinheith 451
(leitura obrigatória nas universidades americanas),
mas uma leitura mais abrangente de sua obra reve-
la um autor de extraordinária versatilidade. Do conto
autobiográfico a humor irlandês, realismo mágico,
humor negro, contos realistas, mistério, crime,
horror psicológico... os anos 40 e 50
foram décadas de incessante produção, criatividade
e experimentação e se nas décadas subsequentes pou-
co houve em renovação temática e estilística, Bradbury,
aquela altura, já tinha deixado sua marca na literatura
americana.
The Town pode ser classificado como um conto de
suspense psicológico (foi publicado na Ellery Queen
Mystery Magazine) mas com o característico "toque
mágico" do autor. Sim, aqui estão seus personagens
perdidos e solitários sufocados pela rotina e isolamento
espiritual, as paisagens inóspitas e desérticas que
parecem refletir o vazio e carência emocional de indiví-
duos patéticos que não passam de zumbis, sacos de ossos.
"Voce já odiou alguém?", pergunta o velho ao viajante e
a partir daí se trava um duelo psicológico cujo desfecho
é tão inesperado quanto apropriado.
The Town é um conto memorável.

Cotação: ****1/2 de *****

The Push Man and Other Stories-Resenha de HQ


Argumento e desenhos: Yoshihiro Tatsumi

Sinopse:
Coleção de contos sobre pessoas comuns
envolvidas em situações inusitadas e bizarras.



Crítica:
Yoshihiro Tatsumi é um dos criadores dos
comix underground japoneses. Interessante
saber que na época (final dos anos 60) o au-
tor desconhecia o movimento na américa
e como consequência seus contos gráficos
acabaram por se tornar meio que
"passáros raros" no mundo dos comics. Apesar
de serem definitivamente underground, estão
a anos luz de distância dos americanos em
matéria de temas, estilo e approach. Aqui
você não vai encontrar aquela energia
frenética, experimentalismo desenfreado e
"surrealismo involuntário" dos americanos, nem
aquele anarquismo maníaco que parece berrar nas
entrelinhas "vou-chutar-o-pau-da-barraca-e-que-se-fodam
os-conservadores. Tatsumi é mais um existencialista
clássico, uma espécie de "anarquista espiritual".
Suas HQ's estão mais próximas da literatura
existencialista e cinema underground
que das HQ's (não consegui encontrar nada remotamente
semelhante produzido nos comics na mesma época).
Se você conseguir imaginar uma fusão entre o existencialis-
mo clássico, a crueza e realismo social do cineasta Koji
Wakamatsu (sem o extremismo e ultra-violência do mesmo),
com a distorção espiritual, patologias emocionais e aberrações
psicológicas de escritores como o Edgar Allan Poe, Edogawa
Rampo ou cineastas na linha do Yasuzo Masumura, você terá
uma idéia do universo ficcional do Tatsumi.
Em Piranha, conto que abre a coleção, um operário se acidenta
propositalmente para conseguir o seguro que supostamente lhe daria
uma melhor qualidade de vida; noutro um mecânico tímido e mar-
ginalizado pelos colegas se apaixona por uma apresentadora de  
um programa erótico mas têm uma grande decepção ao encontrá-la
pessoalmente em sua oficina; no brilhante Test-Tube um jovem
cientista doador de esperma se apaixona pela receptora, mas ...;
My Hitler faz um arrepiante paralelo entre homens e ratos e
esgoto e sociedade. Os contos do Tatsumi são assim mesmo:
simples e bizarros em sua superfície, filosóficos e profunda-
mente humanos nas entrelinhas.

Cotação: *****  de  *****

Hellboy: The Troll Witch and Others-Resenha de HQ




Sinopse:
Coletânea de diversos contos gráficos publicados
separadamente como minisséries e em revistas
da editora Dark Horse.


Crítica:
Na primeira metade do novo milênio Migno-
la toma a infeliz decisão de afastar o Hellboy
do B.P.R.D.. A meu ver parte do charme
da revista era justamente aquela mistura úni-
ca de horror lovecrafteano, ciência bizarra,
pancadaria hard-boiled e heroísmo.
Minisséries como Sementes da Destriuição
e O Verme Vencedor são clássicos eternos
de ameaça cósmica e delírio gótico. Parale-
lamente a estes épicos, Mignola nos brindava
com maravilhosos "contos folclóricos
bizarros" com atmosfera e lirismo funéreo
emanando pelos poros.
Não me veio como surpresa que os me-
lhores contos desta coleção irregular são
justamente aqueles desenhados e escritos
pelo Mignola explorando as duas vertentes.
O livro abre com The Penanggalan e The
Hydra and the Lion, duas obras menores
cujo maior atrativo é a sempre bonita arte
do Mignola. The Troll Witch não só é dis-
parado o melhor conto da coleção como
uma das melhores coisas já produzidas
para a série; um conto transbordante
de beleza, horror e pathos. The Vampire
of Prague, desenhado pelo P. Craig Russel
e produzido especialmente para esta edição,
é um conto bobo que não acrescenta absolu-
tamente nada e me passa a impressão de ser
mera encheção de linguiça. The Ghoul têm
belos desenhos mas não me impressionou.
Dr. Carp's Experiment têm todos os ingre-
dientes que tornaram Hellboy um clássico
e é o melhor conto depois de Troll Witch.
Makoma é uma interessante
releitura de um conto folclórico africano
enriquecido pelo vermelhão no papel de uma
figura messiânica "matador"de gigantes e pe-
lo traço idiossincrático do lendário ilustrador
Richard Corben.
Mesmo sendo um livro irregular com muitos
altos e baixos The Troll Witch and Others
é uma leitura agradável e certamente vale
a pena ser aquirido por aqueles que
já conhecem o gibi.

Cotação: ***1/2   de    *****

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Mr. Fox and Other Feral Tales-Resenha de livro



The invisibility of Norman Partridge among fans of horror and dark fiction is difficult to understand. He is the most underrrated writer of the 90's and the most original voice since Thomas Ligotti.
Partridge's fiction is often compared to that of Joe Lansdale.They share a love of drive-in movies, old west mythology and similar stuff, but when comes to approach and style they are poles apart and in my opinion his short stories are superior to that of Lansdale.
Partridge's prose is richly textured and the facility with which he blends genres and handle different styles borders on the scary.
The quality of Partridge's short fiction is remarkable high and even his lesser pieces are far superior to the majority of dark fiction being published today.
The expanded MR FOX AND OTHER FERAL TALES isn't Partridge's best collection (Bad Intentions and The Man With the Barbed-Wire Fists are slightly superior) but it displays his immense range: from weird dark suspense (The Entourage) to subtle ghost stories (Vessels, Sandprints), delightful juveniles (Velvet Fangs), weird western (!Cuidado!), pop culture and media (The Beauty, Like the Night, Save the Last Dance for Me) and unclassifiable pieces ( Mr Fox). I could go on and on...
For those who apreciate literate dark fiction Partridge is the writer.


MR FOX AND OTHER FERAL TALES:

Mr Fox ==================================== *****
The Baddest Son of a Bitch in the House === ****
Black Leather Kites =======================
Save the Last Dance For Me ================ ****
Sandprint ================================= ****
Vessels =================================== ****
In Beauty, Like the Night ================= *****
The Body Bags =============================
Cosmos ==================================== **
Stackalee ================================= ****
Tooth & Nail ============================== ****1/2
The Entourage ============================= ****
Kiss of Death ============================= **
Treats ==================================== ****
Velvet Fangs ============================== ****
!Cuidado! ================================= ****1/2
When the Fruit Comes Ripe ================= **1/2
Walkers =================================== **
The Season of Giving ====================== *****

Teeth-Stephan Dedman-Resenha de conto



Sinopse:
Negociante de objetos de arte
e memorabília ilegal tenta ven-
der a um produtor de
Hollywood dois mini caixões
de ébano contendo os dentes
de Edgar Allan Poe e de sua
mãe. Enfurecido por dúvidas
quanto a origem dos dentes e
pela postura um tanto petulante do
negociante ele planeja uma vingança
a altura da arrogância do negociante.


Crítica:
Humor negro-sardônico na linha do
Robert Bloch e Roald Dahl, tempe-
rado por deliciosas referências literá-
rias e históricas é o que nos oferece o
veterano australiano Stephan Dedman.
Interessante notar que o autor, ao lon-
go do conto, retrata o produtor como
uma pessoa tão canalha e inescrupulosa
quanto o negociante. Sua admiração pelo
Allan Poe diz muito mais a respeito a mís-
tica e mitos em torno de sua imagem que
aos seus escritos.
Entretenimento erudito e engenhoso embalado
em prosa urbana, direta e elegante.
Uma pequena pérola.



Cotação: **** de *****

The Earth Around His Bones-George Zebrowski-Resenha de Conto



Sinopse:
Pertubado por vozes e lamentos
durante o sono, zelador idoso
de um cemitério passa a descon-
fiar que os sons podem estar
vindo de uma cova próxima a sua
cabine.


Crítica:

Simplista como parece ser (culpa deste
blogueiro metido a besta que se mete a
resumir vinhetas) este micro-conto
do filosófico Zebrowski têm mais subs-
tância intelectual em 2 páginas que muito
romance de 500.
Utilizando a imagética do horror gótico
(covas, cemitérios) o autor trata da rela-
ção entre corpo/carne e mente/cérebro.
No conto, o defunto, através do sono do
zelador, relata sua morte na adolescência
e lamenta não ter tido tempo para uma
maior maturidade intelectual. O zelador,
profundamente pertubado pelas conclu-
ões que chega após ouvir as vozes,
é atormentado por anos pelas vozes que,
devido sua idade avançada, já não se têm
certeza não ser um produto da sua mente.
Poderia a mente sobreviver após a deca-
dência da carne? Seríamos criaturas menos
erráticas e contraditórias caso nosso tempo
de vida fosse alongado possibilitando
assim maior tempo para o desenvolvimento
da mente e de nossas capacidades intelec-
tuais?
Só não leva nota máxima pois lhe falta
no parágrafo final o impacto que o formato
necessita.

Cotação: **** de *****

domingo, 8 de junho de 2008

The Hollow of the Three Hills/The Man of Adamant/Wakefield-Nathaniel Hawthorne-Resenhas de contos




The Hollow of the Three Hills

Sinopse:
Mulher adúltera com sentimento de culpa,
contrata os serviços de uma bruxa para lhe
revelar a atual condição dos parentes
que ela envergonhou.


Crítica:
Interessante notar que em um dos primeiros
contos publicados pelo autor já se percebe
em estágio embrionário temas, elementos e
obsessões que iriam assombrar sua obra
por vinte anos: culpa, pecado, redenção,
intolerância etc.Também fica claro o consu-
mado estilista que é, principalmente no que diz res-
peito a pinturas verbais e impressões paisagís-
ticas.
Uma baita duma alegoria moral que funciona igualmente
como puro horror, graças ao final chocante e pertubador.

Cotação: ***** de *****



The Man of Adamant

Sinopse:
Fanático religioso se isola da humanidade
e passa a morar em uma caverna no meio
de uma floresta. Ao receber a visita de uma en-
tidade religiosa incorpórea que lhe pede que
retorne ao convívio social, ele se rebela e se
torna ainda mais amargo e isolado. Recu-
sando-se a sair da caverna para matar a sede
em uma fonte de água fresca, sem medir con-
sequências, recorre ao líquido da caverna
que contém uma substância calcificadora.


Crítica:
Fábulas, parábolas ou qualquer tipo de obra
com aspectos didáticos, doutrinários
ou que tenha sido escrita com o intuito primá-
rio de "passar uma mensagem" nunca foram
meu cup of tea. É verdade que o Hawthorne
se especializou neste tipo de escrita, também é
verdade que seu estilo nem sempre se mostra
palatável ao leitor "moderno" e que seu ponto de
vista puritano, em alguns casos, soa totalmente
ultrapassado. Dito tudo isto, ainda assim o
considero um dos gênios incontestes do conto
e da fábula fantástica. Nenhum autor fantástico
foi tão fundo e com tamanha delicadeza na
nos mistérios e labirintos da condição humana
quanto o Hawthorne.
The Man of Adamant é uma fábula repleta de be-
leza e simbolismo: da caverna simbolizando o
"coração de adamante", a fonte de água límpida;
da aparição da entidade religiosa (narrada com uma
maravilhosa economia de efeito) a extraordinária cena
final, tudo é beleza e bom gosto.
Poético e delicado mas ao mesmo tempo profundo e
pertubador, The Man of Adamant é um dos mais inci-
sivos retratos sobre fanatismo e solidão já escritos.


Cotação: ***** de *****




Wakefield

Sinopse:
Cidadão de meia idade ausenta-se de
sua casa sob o pretexto de passar poucos
dias no campo e acaba por desaparecer
por vinte anos. Mal sabem os parentes e
amigos que na verdade ele continua
morando em um apartamento contíguo
a sua antiga rua e passa, disfarçado, a frente
da sua antiga casa diariamente.


Crítica:
Em um famoso ensaio sobre o trabalho do
Nathaniel Hawthorne, o escritor e poeta argen-
tino Jorge Luis Borges nos aponta a semelhan-
ça de Wakefield com as obras do escritor eu-
ropeu Franz Kafka. De fato qualquer um que
tenha lido qualquer obra mais conhecida do
mestre do absurdo reconhecerá em Wakefield
elementos puramente Kafkeanos: isolamento,
distanciamento, inquietações existenciais etc.
Wakefield se sente compelido a agir de uma
maneira pouco ortodoxa mas, no fundo, não
sabe o porquê; sua nova morada não lhe traz
prazer nem conforto; ama a sua mulher ao
mesmo tempo em que se distancia dela e dos
seus parentes; faz e não sabe o porque.
Em sua exposição dos efeitos e consequências
do isolamento físico e espiritual , da capacidade
humana para o mal e, principalmente, da natureza
essencialmente misteriosa da alma humana,
Wakefield é uma belíssima e pertubadora fábula sobre
a condição humana, das melhores que a literatura
já produziu.

Cotação: ***** de *****

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Obra completa de Edward Gorey-Guia




Amphigorey

Amphigorey Too

Amphigorey Again

Amphigorey Also


Nestes 4 volumes estão contidos a quase totalidade
da obra de um dos grandes excêntricos do século
XX.
Gorey é geralmente encontrado nas prateleiras de HQ's
mas na verdade é um artista que criou um estilo e lingua-
gem próprios que não se adequa a rótulos. Dono de um
estilo detalhado, meticuloso e refinado, complementado
por um texto rebuscado e temperado de humor negro e
ironia, seus maravilhosos "painéis sequenciais" misturam
estética gótica, sátira, crítica social, cinismo, surrealismo
e ironia mordaz em uma mistura única. Apesar de ainda não ser
um artista muito conhecido se comparado
a outros, sua influência se faz notar no trabalho de
artistas tão díspares como Andrew Nieffeger (autora do best-
seller The Time Traveler's Wife), Dame Darcy (autora da
genial HQ underground Meat Cake) a fenômenos pop como
o diretor Tim Burton e a fantasista Caitlin Kiernan que chegou
a escrever um conto em sua homenagem.
Com essa enxurrada de lançamentos de HQ's em nossa terri-
nha seria pra lá de interessante que algum editor corajoso lan-
çasse essas jóias por aqui. O leitor merece.

Abaixo segue uma relação dos 4 volumes com cotações (de cunho
inteiramente pessoal) para cada obra:

AMPHIGOREY:
The Unstrung Harp (1953) ========================= ****1/2
The Listing Attic (1954) ========================= *****
The Doubtful Guest (1957) ======================== ****1/2
The Object-Lesson (1958) ========================= ****
The Bug Book (1959) ============================== ***1/2
The Fatal Lozenge (1960) ========================= *****
The Hapless Child (1961) ========================= *****
The Curious Sofa (1961) ========================== ****1/2
The Willowdale Handcar (1962) ==================== ****1/2
The Gashlycrumb Tinies (1963) ==================== *****
The Insect God (1963) ============================ *****
The West Wing (1963) ============================= ***1/2
The Wuggly Ump (1963) ============================ ****1/2
The Sinking Spell (1964) ========================= ****1/2
The Remembered Visit (1965) ====================== ****

AMPHIGOREY TOO:
The Beastly Baby (1962) =================== *****
The Nursery Frieza (1964) ================= -
The Pious Infant (1966) =================== ****1/2
The Evil Garden (1966) ==================== ****1/2
The Inanimate Tragedy (1966) ============== ****
The Gilded Bat (1966) ===================== ****
The Iron Tonic (1969) ===================== ****
The Osbick Bird (1970) ==================== ****1/2
The Chinese Obelisks (Sketch) (1970) ====== ***
The Chinese Obelisks (1970) =============== ****
The Deranged Cousins (1970) =============== ****1/2
The Eleventh Episode (1971) =============== ****
The Untitled Book (1971) ================== ***1/2
The Lavander Leotard ===================== ***
Direspecful Sermons ======================= ****1/2
The Abandoned Sock (1972) ================= ****
The Lost Lions (1973) ===================== ****
Story for Sara ============================ ****
The Salt Herring ========================== ***
Leaves for a Mislaid Album (1972) ========= ***
A Limerick (1973) ========================= ****1/2

AMPHIGOREY ALSO:
The Utter Zoo (1967) ======================== *****
The Blue Aspic (1968) ======================= ****1/2
The Epileptic Bicycle (1969) ================ ****
The Sopping Thrusday (1970) ================= ****1/2
The Grand Passion (1976) =================== **1/2
Les Passementeries Horribles ================ ***
The Ecletic Abecedarium ===================== ***
L'eure Bleau ================================ ***
The Broken Spoke (1976) ===================== ****
The Awdrey-Gore Legacy (1972) =============== ****
The Glorious Nosebleed (1975) =============== ****
The Loathsome Couple (1977) ================= ****1/2
The Green Beads (1978) ====================== ****
Les Urnes Utiles ============================ ***
The Stupid Joke (1980-1982) ================ ****1/2
The Prune People (1983) ===================== ****
The Tuning Fork ============================= ****1/2

AMPHIGOREY AGAIN:
The Galoshes of Remorse (illustration) ==========
Signs of Spring ======================= ***1/2
Seasonal Confusion =================== ***1/2
Random Walk ====================== ***1/2
Category (illustration) =================
The Other Statue (1968) =============== ****
10 Impossible Objects ================= -
The Universal Solvent (1989) ============ -
Scénes de Ballet ===================== ***1/2
Verse Advice ======================= ***
The Deadly Blotter (1997) ============== ***
Creativity ========================= ***
The Retrieved Locket (1994) ============ ***
The Water Flowers (1982) ============== ***1/2
The Haunted The-Cosy (1988) =========== ***1/2
Christmas Wrap-up (illustration) =========
The Headless Bust (1999) ============== ****
The Just Dessert (1997) ================ **1/2
The Admonitory Hippopotamus =========== ***1/2
Negected Murderesses (1980) ============ ***1/2
Tragédies Topiaries ==================== ****
The Raging Tide (1987) ================= ****
The Unknown Vegetable (1995) ============****
Another Random Walk =================== ***1/2
Serious Life: A Cruise ===================***1/2
Figbash Acrobate (Illustrations) =============
La Malle Saignante ======================****
The Izzard Book ======================== ***

Polly Charms, The Sleeping Woman (1974) Avram Davidson- resenha de conto





Sinopse:
Numa espécie de universo ou
realidade alternativa semelhante a
Europa do século 19, em uma loca-
lidade conhecida como Monarquia Triuna
Scythia-Pannonia-Transbalkania,
um estranho show envolvendo uma
jovem adormecida há mais de trinta
anos desperta a atenção de um comissá-
rio de polícia e do renomado,
polivalente e pau-pra-toda-obra
Doutor Eszterhazy.

Crítica:
Nesta delirante fantasia Steampunk
(primeiro conto de uma série que
narra as aventuras do Doutor num
maravilhoso universo alternativo se-
lhante a inglaterra vitoriana)
Davidson usa sua metralhadora verbal,
finura estilística e imaginação surreal na
criação de um mundo estranho e fasci-
nante.
Nas primeiras páginas fui diretamente arre-
metido ao universo do Lord Dunsany,
não pelos temas e conteúdo e sim
pelas suas qualidades poéticas e descritivas.
Davidson é um daqueles artesões literá-
rios que fazem cada palavra valer a pena.
Ainda que o enredo seja interessante o
suficiente para manter-nos grudados nas
páginas, o encanto do conto está nos deli-
ciosos detalhes do mundo e seus excêntricos
habitantes: a ponte que corta Bella (capital da
monarquia), supostamente projetada pelo
Leonardo Da Vinci; o misterioso poeta que nela
tirou a própria vida por causa de um amor
não correspondido; os charmes e indiossin-
cracias dos habitantes de Bella; a misteriosa
"bela adormecida".... mas nada disso teria vida
não fosse a destreza linguística e forte imagética
do autor (as pinturas verbais, especialmente a
descrição da misteriosa Polly Charms, estão entre
as mais bonitas que já tive oportunidade de ler; poe-
sia em prosa de alto calibre).
A conclusão é enigmática e belíssima.
Depois de meia dúzia de contos lidos já dá para
colocar o Davidson naquela seleta galeria dos gênios
miniaturistas, lá em cima, no primiero patamar fazendo
companhia com o Gene Wolfe, Bradbury, Dunsany,
Ligotti, Ballard, Lovecraft, C. A. Smith, Sheckley,
R.A. Lafferty, Steven Millhauser e mais uma meia dúzia
de gatos pingados.
Um conto para ficar na memória.

Cotação: ***** de *****

sexta-feira, 23 de maio de 2008

The Big Book of the Unexplained-Resenha de HQ



Argumento e Desenhos: Vários

Sinopse:
Coleção de fatos inexplicáveis e bizarros
apresentados no formato de quadrinhos.

Crítica:
Alguém se lembra daquelas coleções em
capa dura das Seleções Reader's Digest
com aqueles títulos sonoros e chamativos
como Os Maiores Crimes que o Mundo
Conheceu ou As Maiores Farsas de Todos
os Tempos? Nunca fui leitor dessas coleções,
mas me lembro bem das histórias e causos
que meu pai me contava: o homem que rou-
bou a torre Eiffel, o farsante que vendeu uma
máquina de fazer dinheiro...
Este volume, assim como todos os
outros da coleção da Paradox Press
(extinto selo da DC), segue mais ou menos
a mesma cartilha da Digest com o diferencial
que os textos são auxiliados e complementados
por desenhos.
A julgar pela quantidade de volumes temáticos
lançados, há de se supor que a série teve um
mínimo retorno financeiro e é de se lamentar
que um projeto tão interessante tenha sido
interrompido (vários volumes estão fora de
catálogo e alguns chegam a alcançar altos pre-
ços no mercado de livros usados).
Alguns volumes como o de Fairy Tales são,
comparativamente, tematicamente mais limitados,
outros como este Unexplained são mais variados,
justamente por não se ater a nenhum tema espe-
cifico.
Um dos aspectos que primeiro salta aos olhos
é a variedade e qualidade dos desenhos, que vão
do realista e econômico ao barroco e caricatural.
Intessante notar que nos "causos" e "fenômenos"
mais absurdos (as vezes de fundo folclórico)
o traço ganha contornos mais caricaturais.
O texto é informativo e muito bem escrito, as vezes
com toques de humor e ironia que dão um belo
colorido ao já "colorido" conteúdo do livro.
Os fenômenos propriamente ditos são bastante
variados.Têm bizarrices para tudo quanto é
gosto!!! Dos famosos crop circles ingleses,
a pedras e caixões móveis; de avistamentos
de ovnis a esquisitices Forteanas como o
o "mito do mar supenso de sargasso" e
chuvas estranhas. Desaparecimentos miste-
riosos, coincidências absurdas, maldições
egípcias, viagens no tempo,
dentre outras bizarrerries são narradas
em tons que vão do sério e documental
ao sardônico e escrachado.
The Big Book of the Unexplained é muito
bem pesquisado e editado e um mavilhoso
entretenimento para os arqueólogos do
bizarro e curiosos de plantão.

Cotação: ***** de *****

Brusel e The Invisible Frontier, Vol's 1 e 2 -Resenha dupla de HQ



Brusel (1996)



Argumento: Benoit Peeters
Desenhos: Francois Schuiten

Sinopse:
Na cidade de Brusel, pacato flo-
ricultor recebe visita de um re-
nomado cientista com interesse
em conhecer suas novas flores
sintéticas que ele acredita
estarem em perfeita sintonia com
a gigantesca reforma pela qual
passa a cidade, e que substituirá
a antiga arquitetura por obras
mais funcionais, incluindo um
imenso hospital a ser erguido
próximo a floricultura.
Inicialmente desconhecendo a
magnitude do projeto de reforma,
o pacato floricultor não se opõe
as mudanças, mas quando sua
floricultura começa a apresentar
problemas relacionados ao for-
necimento de água e linha telefô-
nica e, posteriormente, sua inter-
nação por sintomas de tuber-
culose, ele gradativamente
toma consciência das catastróficas
conseqências da reforma pro-
movida pelo governo.



Crítica:
Brusel é o conto de uma cida-
de caminhando para o colapso,
de egos inflados nublados pelo
poder e ambição, de românticos
idealistas e de pessoas comuns
tragadas e desnorteadas pelo fu-
racão das mudanças.
Constant Abeel (o floricultor)
tosse da primeira a última página,
observa, mais perdido que cachorro
cego em tiroteio, passivamente ao
colapso e destruição, incluindo a sua.
Que não passe a impressão ao leitor
se tratar de uma obra depressiva e ni-
ilista; não, não é. Nela os autores optaram
por um estranho tom que fica entre a
comédia negra, humor melancólico,
alegoria político-absurdita com um
espesso verniz de gentleness. Se no
passado recente a série foi criticada por ser
intelectualmente fria e distante (prefiro
definir como "frieza poética") desta
vez muito esforço foi empreendido na
caracterização dos personagens,todos
memoráveis. Memorável também é o
modo episódico com que os autores
constroem sua alegoria sobre poder
e progresso não planejado. Em Brusel
precisão textual, estrutural e gráfica
andam de mãos dadas.
Ambicioso e multitemático, inteligente,
sofisticado e extremamente elaborado,
Brusel é mais um capítulo memorável de
uma das mais bonitas e originais sagas em
quadrinhos já criadas.

Cotação: ****1/2 de *****



The Invisible Frontier, Vol's 1 e 2 (2002)



Argumento: Benoit Peeters
Desenhos: Francois Schuiten

Sinopse:
Jovem cartógrafo sem diploma é re-
crutado para trabalhar num imenso e
decadente centro cartográfico localizado
numa inóspita área desértica e lá encontra
seu futuro tutor que o orienta em sua nova
função, e logo percebe que o centro passa
por intensas mudanças que não são vistas
com bons olhos pelo seu romântico e i-
dealista chefe. Ao se envolver com uma
misteriosa prostituta, o jovem descobre
uma estranha mancha nas costas da garota
que pode têr uma conexão com a real fron-
teira da região do centro, assim como con-
sequências catastróficas para os planos dos
reformadores do centro caso seja desco-
berta pelas autoridades governamentais.
Após a visita do ambicioso e demagogo
líder da cidade de Sodrovno-Voldachia
para a qual a atual reforma do centro têm
influência direta, o jovem cartógrafo, temen-
do a vida da prostituta, a esconde nos sub-
terrâneos do centro onde, para sua surpresa,
encontra um velho conhecido.



Crítica:
Les Cités Obscures talvez seja a mais original
e sofisticada série de quadrinhos atualmente
publicada na europa. Me lembro bem da minha
estupefação há alguns anos atrás quando li
The Great Walls of Samaris (primeiro volume
da série) pela primeira vez. Estava convencido
de ter lido não apenas um quadrinho excepcional,
mas uma obra muito, muito especial. Mas o melhor
ainda estava por vir. Consegui num golpe de
sorte um exemplar usado do segundo volume
Fever in Urbicand (em 2002 estes álbuns ainda
não tinham adquirido o status de ultra-cult, nem
alcançado os preços astronômicos de hoje
no mercado de usados), obra que considero não
apenas uma obra prima dos quadrinhos franco-belga,
mas uma das melhores HQ's de todos os tempos.
Para minha decepção descobri que grande parte da
obra do Schuiten (especialmente a série Les Cités)
ainda estava inédita em língua inglesa, mas acabei
por encontrar na amazon a recém lançada graphic
novel Brusel e acabei comprando antes que sumisse
das prateleiras.
E eis que chegamos aos dois volumes de
The Invisible Frontier, último lançamento de
uma obra de Schuiten em língua inglesa (descon-
tando um portfólio lançado em 2004).
Não posso deixar de registrar que ao final da leitura
fiquei com um gostinho de decepção, aquela sensa-
ção de "é bom, tá tudo ali, MAS, falta alguma coisa".
Acho que o que me incomodou foi menos os desenhos
(continuam mais bonitos do que nunca e sempre será
o motivo primário para leitura da série!!!) que a
abordagem e o desenvolvimento do enredo. Desta vez
optou-se por uma menor ênfase em arquitetura e
perspectiva (diminuindo assim o sense of mystery e
temor Kafkaeano mais presente nos primeiros ál-
buns). O texto do Peeters é econômico, elegante
e sutil (uma leitura desatenta pode prejudicar o
entendimento da obra) mas desenrola sem muito
foco e o tom suave por vezes descamba para a
opacidade. O direcionamento que a dupla deu para
a história após a visita do líder de Sodrovno-Voldachia
também não me agradou. O primeiro volume finaliza
numa nota de tensão e suspense e no segundo os auto-
res jogam o meticuloso build-up pela janela e partem
para outra estrada. O final é mal resolvido e anti-climático.
Com o texto da qualidade do Peeters e a visão e virtuo-
simo gráfico do Schuiten fica difícil não admirar qualquer
trabalho da dupla mas The Invisble Frontier, a meu ver,
está aquém da habilidade de seus criadores.


Cotação: ***1/2  de  *****

quinta-feira, 1 de maio de 2008

The Moment of Eclipse (1969)- Brian Aldiss-Resenha de conto





 Sinopse:
Cineasta experimental se apaixona por uma
enigmática mulher de nome Christiania e vi-
aja para uma politicamente turbulenta África
a fim de encontrá-la, ao mesmo tempo que filma
um documentário na região. Aos poucos come-
ça a ser acometido por estranhas sensações e
por um senso de possessão que acaba por o
conduzir ao "Momento do Eclipse".


Crítica:
Tentar "sinopsizar" um autor tão contundente e complexo
como o Aldiss, ainda mais um conto escrito no pico da
New Wave britânica da FC, é tarefa ingrata, simplesmente
porque para grandes autores como o Aldiss, enredos
certinhos e lineares e/ou a importância que se dá a eles em
detrenimento a outros aspectos literários funcionam mais
como um "freio limitador". Com isso não estou dizendo
que as boas "histórias" seguem APENAS a cartilha (se é
que existe uma!!) dos experimentalistas; nunca vou esque-
cer do prazer que senti de ter lido o Stephen King e Isaac
Asimov pela primeira vez e para ser sincero leio compara-
tivamente pouquíssima literatura pós-moderna.
Aldiss é um artista de mil faces. Discípulo da tradição clássica
da FC britânica existencial-filosófica do Olaf Stapledon,
começou sua carreira como escritor de FC em meados dos
anos 50 com uma série memorável de contos de FC poéticos
e líricos que incorporavam elementos tão díspares como contos
de fadas, fábulas e o cosmicismo do já citado Stapledon.
Na segunda metade dos anos 60 mergulha de
cabeça no psicodelismo e experimentalismo da New Wave
através da publicação de contos na inovadora revista
New Worlds. Sempre inquieto e desbravando
novos caminhos, nos anos oitenta se torna best seller
na europa com uma elogiada série de romances
sociais mainstream e com uma trilogia de FC
chamada Helliconia que já foi comparada mais
de uma vez com a série Duna.
Enquanto que a maioria dos escritores usam o
formato do conto apenas como plataforma ou
"training ground" para romances, Aldiss
continua produzindo histórias curtas de alto
calibre, e a partir do final dos anos 80, artista
inquieto que é, produz uma série de contos inclassificá-
veis e idiossincráticos que misturam mainstream, FC,
absurdismo, realismo mágico, especulação teológica
e filosófica, humor negro e mais um montão de coisas.
Não que estes elementos não estivessem presentes em
sua ficcão clássica, mas desta vez eles ganham
mais destaque, com os tropes e clichês da FC
ficando mais no background.
The Moment of Eclipse é o que poderíamos chamar de novel of
character
onde o foco é mais na psique do personagem que no
enredo e ação propriamente dito. Nele Aldiss bebe diretamente
da fonte dos anti-novelistas franceses onde as variações tonais,
complexidade estrutural, subjetivismo, paralelismo e obliquidade
ditam as regras do jogo.
Senti também um cheirinho dos decadentes com o seu fatalismo,
e a atração do protagonista por "mulheres com naturezas corrup-
tas". Fica difícil falar muito de uma obra tão oblíqua e alusiva
mas não posso deixar de registrar que a cena do suposto "eclipse"
é das coisas mais estranhas e pertubadoras que já tive oportuni-
dade de ler.
Os contos do Brian Aldiss publicados entre 1968-1972
representam a nata da new wave e Moment of Eclipse
um dos exemplos mais representativos.

Cotação: ***** de *****

Best American Comics 2006-Resenha de HQ



Sinopse:
Seleção das melhores HQ's publicadas entre
o período 2005-2006 selecionadas pelos
editores Elizabeth Moore e Harvey Pekar.

Crítica:
Com o aumento de publicações anuais Best
Of no mercado americano, não me veio
como surpresa a proposta em se lançar
por uma grande editora uma seleção
dos melhores quadrinhos do ano. O que me
surpreendeu foi justamente o foco em pu-
blicações indies e de circulação mais restrita.
Maravilhoso ver como o underground ame-
ricano borbulha em liberdade e criatividade
artística.
Claro que por essa proposta em se criar
quadrinhos mais "pessoais" os autores al-
gumas vezes caiam nas armadilhas da auto-
indulgência e panfletarismo político. Mas,
enfim...
Por ter sido co-editada pelo criador da HQ
autobiográfica é natural que a maioria das
seleções apresentem  um conte-
údo mais intimista e/ou introspectivo,
mas a diversidade de estilos e abordagens
é impressionante. Do humor extraordinaria-
mente sutil e poético do Ben Katchor, ao
surrealismo desenfreado e experimentação 
formal da Rebecca Dart, da simplicidade des-
concertante do Ivan Brunetti aos devaneios 
metafíscos do Kurt Wolfgang, da travessura
pós moderna do Joel Priddy a intensidade
dramática do Justin Hall, The Best of é puro
deleite. 
No geral as histórias mais longas (a partir de
agora classificadas como " conto longo e "conto
curto") me pareceram mais interessantes
que as curtas, mas a qualidade como um todo é
bastante alta.
Trezentas páginas de quadrinhos underground,
encadernadas em capa dura e vendida a um
preço comparativamente accessível (geralmente
estas HQ's são lançadas por editoras minúsculas
ou de publicação do próprio autor e custam o olho
da cara) é um verdadeiro presente dos deuses,
mas seria interessante também um pouco de
espaço para o material mainstream. Em sua in-
trodução o Pekar deixa claro sua aversão e
até certo ponto ignorância quanto as HQ's mais
comerciais e a não inclusão de material mais
comercial me deixa a impressão de um certo mau
gosto por parte dos editores.
Mesmo com estes pequenos defeitos The Best of
é uma publicação absolutamente indispensável
para quem quiser saber o que anda rolando no
underground americano.
Abaixo vou relacionar alguns contos que consi-
dero os melhores, seguidos de comentários.

La Rubia Loca-Justin Hall: Extraordinário
conto sobre uma lésbica em crise que em-
barca num ônibus em excursão para o mé-
xico e acaba por se envolver com uma
mulher de comportamento estranho que
posteriormente passa a demonstrar sinto-
mas dos distúrbios de múltipla personalidade.
Talvez o melhor conto do livro e certamente
o mais intenso e dramático. Me deixou uma
profunda impressão.

The Amazing Life of Onion Jack-Joel Priddy:
Deliciosa brincadeira pós-moderna sobre a
vida e morte de um chef que por um acidente
do destino acaba se tornando um super herói
meio relutante.
Interessante o contraste entre os desenhos
estilo "palitinho" e o texto descolado e denso
em referências a cultura pop. Um deleite do
começo ao fim.

Passing Before Life's Very Eyes-Kurt Wolfgang:
Belísima fábula metafísica sobre as últimas
horas de um idoso e sua viagem pela vida tendo
como companheiro em certo ponto seu "eu"
jovem.
Taí um momento quando receio que minhas
palavram sejam insuficientes para transmitir
a beleza e profundidade de um conto. Tái um
novo autor para se ficar de olho; um artista que
conhece a fundo a linguagem dos quadrinhos,
que sabe ser sério sem perder o humor e o
sense of fun.
Simplesmente maravilhoso.

Thirteen Cats of My Childhood-Jesse Reklaw:
Delicioso conto longo sobre a saga de uma família
narrada pelo ponto de vista de uma família de
gatos.
Doce, singelo e humano, Thirteen Cats é uma
pequena pérola. pena que os desenhos não
estejam a altura do texto.

RabbitHead-Rebecca Dart: Quase impossível
de ser resumido e classificado, RabbitHead é
uma espécie de homenagem aos faroestes
italianos utilizando elementos de fábula animal
e dose cavalares de surrealismo e experimen-
tação. Confesso que não estava lá muito entusi-
asmado já que não sou um grande admirador
de experimentações formais, mas ao final da
"leitura" (o conto não têm diálogo) me deixou
uma profunda impressão.
Complexo sem descambar para a incompreen-
sibilidade (pelo menos no que diz respeito ao
desenrolar da ação) e estruturalmente inovador,
RabbitHead é um maravilhoso exercício em
imaginação visual e demência criativa!!
Não me recordo de ter lido uma HQ tão inovadora.

Ready to Die-Kim Deitch: Numca me interessei mui- 
to por "reportagens ilustradas" mas o que me impres-
sionou neste conto-reportagem foi a "falta" daquele
distanciamento jornalístico comum a este tipo de obra.
Me passa impressão que o Deitch acabou se envolven-
do mais do que deveria no caso real de um jovem
americano que estuprou e assassinou pessoas ligadas
a sua namorada após uma crise de ciúmes. Excelente
material jornalístico com uma surpreendente dimensão
humana.

The Adventures of Paul Bunyan and His Ox Babe-Lile Carré:
Singela e humana releitura de um conto folklórico
americano sobre sonhos inocentes e o que é ser
diferente em uma sociedade fria e predatória.

Walkin' the Streets-Robert Crumb: Belíssimo conto
autobiográfico onde o autor narra seu relaciona-
mento com o irmão Charles antes de abandonar sua
casa em definitivo.
Surpreendentemente singelo e poeticamente melan-
cólico, Crumb pode não usar sua metralhadora gira-
tória com a mesma velocidade de outrora, mas seu
virtuosismo gráfico, clareza de visão e genialidade
permanecem intactos.

Goner Pillow Company-Ben Katchor: Humor sutil
e poesia urbana são a tônica desta pérola.
O melhor conto curto da coletânea.

Two Questions-Lynda Barry: Excelente "confissão
ilustrada" sobre os labirintos, bloqueios, dúvidas e
desilusões do processo da criação artística.

Nakedness and Power-Tobocman/Turner/Brownhill:
Energética "reportagem-denúncia" sobre a exploração
dos territórios africanos pelas fábricas de óleo do
ocidente.
Um tanto histérica e panfletária mas também humana e
envolvente.

The Wonder Wart-Hog That Came In from the Cold-
Gilbert Shelton
: O vovô do underground e contêm-
porâneo do Crumb continua queimando chumbo com
seu maravihoso senso de humor anárquico.

John Porcellino, Alison Bechdel, Anders Nilsen, Chris
Ware, Ivan Brunetti
, contribuem com contos de
qualidade variável. Nenhuma história me deixou
uma má impressão mas os trabalhos da Jessica
Abel,  Joe Sacco e Jonathan Bennet
, por uma
questão puramente pessoal, não me impressionaram.


Cotação:  ****1/2  de  *****

domingo, 6 de abril de 2008

Interpose-George Zebrowski-Resenha de conto





Sinopse:
Resgatado por uma patrulha temporal
momentos antes de sua morte, Jesus
acorda em um quarto habitado por
soldados da patrulha que desconfiam
de sua identidade e pretendem usá-lo
para outros fins.Consegue fugir e cai
num fluxo temporal que lhe conduz
ao futuro e vai parar no começo do
século XX. 20 anos depois, em 1935,
vivendo em uma cidade quase aban-
donada e com a memória consumida
pelo álcool e pelos efeitos da viagem
temporal, vaga pelas ruas sem saber
quem realmente é e qual seu papel
e influência na civilização ocidental.
Se ele é realmente Jesus, a Bíblia
não passa de um mero exercício de
imaginação?
Será preciso morrer para justificar a
existência do livro sagrado?
É ele realmente o Filho do Homem
ou um mero cidadão condenado a
cruz como tantos outros em sua
época?

Crítica:
Zebrowski é um dos mais cerebrais e
certamente o mais filosófico dentre os
autores da FC contemporânea.
Mesmo não sendo um leitor entusiasta
de FC hard, seu Ponto Omega me dei-
xou uma boa impressão quando o li
nos anos 90. Seus contos são mais
variados e talvez (pelo menos sua dark
fantasy) menos hard. Se eu fosse
classificá-los em apenas uma umbrella
eu os definiria como dark fantasy
especulativa com inclinação filosó-
fico-existencial.
Interpose é um conto cerebral e ambí-
guo; lento em seu ritmo e cósmico
em seu ponto de vista. Nele as pergun-
tas são mais importantes que as res-
postas, e elas, insuficientes.
Pela sua natureza ambígua é natural que
alguns pontos não tenham ficado claro
e talvez tenha sido a intenção do
autor. Não é revelado em detalhes,
por exemplo, a natureza dos experi-
mentos genéticos da patrulha temporal,
nem fica claro se o desejo que ele se
torne o "homem da ciência" tenha
realmente partido do Pai.
Não posso deixar de ressaltar a
precisão linguística do Zebrowski;
do pouco de FC hard que conheço
ele é certamente o mais polido e literato.
Interpose aborda temas incômodos,
mas estes são tratados com grande
maturidade, seriedade e finura de
estilo.
Ambíguo, pertubador e
intelectualmente estimulante,
Interpose é ficção especulativa de
alto calibre.

Cotação: ****1/2 de *****

Coleção Midnite Movies-Guia



 Desde minha infância, quando eu fugia
da cama aos sábados para assistir aos
corujões da Globo, o cinema fantás-
tico têm me fascinado. Claro que para um
garoto com menos de 10 anos, classifi-
cações e definições não fazem muito sentido
e na época não fazia idéia do que me atraía
em certos filmes, mas a verdade é que mui-
to do que vi na TV ficou gravado na mi-
nha memória, e olhando para trás noto que
o que mais me fascinava (e ainda fascina mas
de uma outra maneira) era o estranho (na defini-
ção Freudeana), o bizarro, o fantástico, o
misterioso e o surreal. Como esquecer das ce-
nas finais de O Homem de Palha, da imagética
onírica de Black Moon, da extravagância barroca
de Rosas de Sangue e Barbarella, do fanfarronismo
quase surreal de Amarcord, dos delírios camp
 e "surrealismo involuntário" de séries como
James West, Os Vingadores, ou das charmosas
tosqueiras de Os Invasores, Terra de Gigantes,
Perdidos no Espaço etc.
Nos anos 80 chega o videocassete e o que era fixa-
ção vira febre e obssessão. Nos primórdios do VHS
eu chegava a assistir a 5 filmes por dia (claro que o es-
tudo, para desespero dos meus pais, ficava num
segundo plano). Na segunda metade dos anos 80 era
preciso algum atendente de locadora me ligar para
conseguir algum lançamento de horror!! Nessa época
comecei também a cultivar o hábito de gravar filmes
da TV mas foram nos anos 90, com a chegada da TV por
assinatura que eu desandei a vasculhar os catálogos
dos canais a procura de alguma pérola fantástica da mi-
nha infância e acabei por desenterrar filmes que procurava
a anos.
Não sei se por algum azar, mas nunca tive a oportunidade de
assistir aos filmes de horror do Corman e qual não foi a minha
surpresa quando o canal Telecine exibiu a alguns anos todo o
ciclo de adaptações do Poe dirigidos pelo Corman. Nesta épo-
ca eu já não estava muito interessado em cinema; em parte pela
política dos canais em exibir novidades apenas na época do
Halloween e como o TNT há muito não mais exibia cinema clássico
aos poucos fui perdendo a paciência e interesse e consequente-
mente minhas pescarias foram ficando escassas. Acontece que
os filmes do Corman funcionaram como uma pancada no coco-
ruto e um chute no saco. Eu fiquei chapado com o Vincent Price,
com o estilo fluído de direção do Corman, com a bela dire-
ção de arte do Daniell Haller e com a belíssima paleta de cores.
Cinema comercial de baixíssimo orçamento, é verdade,
mas feito com um tesão e entusiasmo que não se vê todo dia.
Foi nessa mesma época que o DVD começava a engatinhar e
quando descobri o verdadeiro potencial da nova tecnologia fiquei
de queixo caído com a qualidade. Não era questão de apenas
a assistir filmes em um novo formato e sim "descobrir" um "novo"
filme. Quem já colecionou VHS e fez intercâmbio de filmes raros
em cópias de quarta e quinta gerações sabe do que eu estou falando.
Pouco tempo depois de comprar meu primeiro aparelho tomei
conhecimento de uma coleção de horror em DVD da MGM cha-
mada Midnite Movies. Com o dólar nas alturas e a tecnologia
ainda engatinhando não me entusiasmei muito para importar
os primeiros títulos; além do mais naquela época a
esmagadora maioria dos lançamentos no gênero
não passavam de pura picaretagem: empresas
fuleiras simplesmente lançavam filmes de horror
(geralmente em domínio público) sem qualquer
 remasterização ou tratamento digital (alguns deles se
davam ao luxo de terem qualidade de imagem pior
que um VHS!!). Mas quando The Fall of House of Usher
(um dos primeiros títulos da coleção) me caiu nas
mãos imeditamente tive a certeza que a MGM levava
a sério seu público consumidor.
Assistir a clássicos do fantástico com tão bem cuidada
remasterização foi um presente dos deuses (costumo dizer
que a tecnologia digital foi criada sob medida para os
arqueólogos cinematográficos).
De lá para cá grandes estúdios como a Universal e Warner
lançaram coleções com seu acervo clássico mas foi a MGM
que deu o pontapé inicial e hoje , apesar de turbulências
 geradas pela venda de direitos, a coleção continua firme
e é parada obrigatória para qualquer colecionador
minimamente interessado em cinema fantástico.
 
Este guia não é, e nem pretende ser completo ou definitivo,
mas a maior parte está aí.

01: Angry Red Planet
02: Bucket of Blood, A
03: Donovan's Brain
04: Dr. Goldfoot And The Bikini Machine
05: Food of the Gods, The
06: Frogs
07: I Bury The Living
08: Island of Dr. Moreau
09: Killer Klowns From Outer Space
10: Man From Planet X
11: Mars Needs Women
12: Pajama Party
13: Planet of The Vampires
14: Reptilicus
15: Witchfinder General
16: X - The Man With The X-Ray Eyes

Double Features:

01: The Attic/Crawlspace
02: Deranged/Motel Hell
03: Masque Of The Red Death/Premature Burial
04: The Oblong Box/Scream And Scream Again
05: What's The Matter With Helen?/Whoever Slew Auntie Roo?
06: Angel Unchained/The Cycle Savages
07: Cry Of The Banshee/Murders In The Rue Morgue
08: Invisible Invaders/Journey To The Seventh Planet
09: Muscle Beach Party/Ski Party
10: Psych-Out/The Trip
11: The Comedy Of Terrors/The Raven
12: Countess Dracula/The Vampire Lovers
13: The Haunted Palace/Tower Of London
14: The Tomb Of Ligeia/An Evening Of Edgar Allan Poe
15: The Abominable Dr. Phibes/Dr. Phibes Rises Again
16: Attack Of The Puppet People/Village Of The Giants
17: Beach Blanket Bingo/How To Stuff A Wild Bikini
18: Beach Party/Bikini Beach
19: Count Yorga Vampire/The Return Of Count Yorga
20: Empire Of The Ants/Tentacles
21: The Fall Of The House Of Usher/The Pit And The Pendulum
22: The Ghost Of Dragstrip Hollow/Ghost In The Invisible Bikini
23: The Incredible Two-Headed Transplant/The Thing With Two Heads
24: Invasion Of The Star Creatures/Invasion Of The Bee Girls
25: The Land That Time Forgot/The People That Time Forgot
26: Monster That Challenged The World/It! Terror From Beyond Space
27: Strange Invaders/Invaders From Mars
28: Theater Of Blood/Madhouse
29: The Wild Angels/Hell's Belles
30: Wild In The Streets/Gas-s-s-s!
31: Die Monster Die!/The Dunwich Horror
32: Fireball 500/Thunder Alley
33: Last Man On Earth/Panic In Year Zero!
34: The Mini-Skirt Mob/Chrome And Hot Leather
35: Morons From Outer Space/Alien From L.A.
36: Tales Of Terror/Twice Told Tales
37: Voodoo Island/The Four Skulls Of Jonathan Drake
38: War-Gods Of The Deep/At The Earth's Core
39: Crystalstone/Boy and the Pirates, The
40: Fortunes of Captain Blood/Captain Pirate
41: Beast Within, The/Bat People, The
42: Blueprint for Murder, A/Man in the Attic
43: Chosen Survivors/Earth Dies Screaming, The
44: Devils of Darkness/Wichcraft
45: Gorilla at Large/Mystery on Monster Island
46: House on Skull Mountain, The/Mephisto Waltz, The
47: Konga/Yongary, Monster From The Deep
48: Phantom from 10,000 Leagues/Beast With A Million Eyes, The
49: Return Of Dracula/Vampire, The
50: Tales from the Crypt/Vault of Horror