sábado, 26 de janeiro de 2008

Essa coisa chamada amor: George Herriman e o seu Krazy Kat-Artigo



Um gato(a) inocente e de raciocínio curto (Krazy Kat)
ama perdidamente um rato anarquista (Ignatz Mouse)
que, além de não retorna-lhe o amor e afeição, lhe res-
ponde com tijoladas na cabeça que Kat, ingenuamente, inter-
preta como "mensagens de amor". Um cachorro policial,
(Ofissa Pup), perdidamente apaixonado por Kat (que parece
não notar o amor de Pup), frequentemente encarcera Ignatz
não apenas para cumprir seu dever, mas também por não
suportar os maltratos de Ignatz para com Kat. K & I é a
história de um triângulo amoroso não correspondido de nenhum
dos lados e também a mais inteligente, original e idiossincrática
tira de quadrinhos já criada.
Inicialmente inseridos timidamente em The Dingbat Family/The
The Family Upstairs em 1910 (primeira tira de sucesso do
George Herriman), aos poucos o gato e o rato começaram
a roubar a cena e em 1913 ganham sua tira diária.
No começo eles tinham papéis mais ou menos definidos
na tradição clássica.
Em 1916, graças a boa aceitação das tiras diárias,
K & I ganha o suplemento dominical, permitindo a
Herriman um maior espaço para o exercício do seu
humor erudito, surreal e idiossincrático e do emprego
de jogos linguísticos que já foi (sabiamente) definido
por um crítico como uma mistura de The Katzjenjammer
Kids (famosa tira da época que no Brasil ficou conhecida
como Os Sobrinhos do Capitão) com James Joyce.
No começo dos anos 20 a tira começa a adquirir seu
formato clássico e a despertar a atenção de intelectuais,
artistas e poetas;  atenção esta que só iria aumentar
com o passar dos anos. 
Dentre seus admiradores podemos citar o Walt Disney,
Charles Chaplin, Pablo Picasso, E. E. Cummings (que
chegou a escrever um famoso ensaio sobre a tira) e
mais recentemente Umberto Eco.
Não só lhes chamaram a atenção a inventidade e
virtuosismo gráfico e textual, mas  principalmente suas
qualidades surreais, filosóficas e poéticas. 
A partir da segunda metade dos anos 20 a tira atinge
considerável popularidade, mesmo que nunca tenha
chegado perto de destronar os campeões da época. 
Ainda que se note claramente a genialidade e origi-
nalidade  do Herriman em cada quadro de suas tiras
diárias (especialmente do ano de 1920), são nas pá-
ginas dominicais que veremos Krazy &  Ignatz em
toda a sua glória; nelas o exercício non-sense e  teatro
absurdista atinge níveis de virtuosismo gráfico, beleza
plástica, pathos e poesia tão altos a ponto de alguns
críticos considerarem (acertadamente) algumas
destas páginas como pura poesia visual.
Se na primeira metade dos anos 30 as páginas dominicais
já tinham atingido um nível artistico incomparável,
como comentar o material produzido a partir de
1935 EM CORES? O que era genial atingiu o status de
obra de arte e talvez nada produzido nos quadrinhos
antes ou depois se compare a esses painéis.
Se contarmos suas primeiras aparições  como coadju-
vantes  em 1910, Krazy Kat permaneceu "no ar" por
34 anos, mas a grande ironia é que nunca foi uma tira
muito popular e em seus últimos anos circulava em
pouquíssimos jornais.
Calma que eu explico.







O magnata dos jornais William Randolph Hearst (re-
tratado no filme Cidadão Kane) era um fã incondicio-
nal da tira, e sempre que algum editor reclamava
da reação negativa dos leitores, Hearst praticamente
obrigava-os a não retirá-la  pois ele mesmo era um fã
incondicional e por pior reputação que ele tenha adquirido
com o passar do tempo, é importante notar que ele
foi o responsável direto pela longevidade e reconhecimento
quase póstumo da obra do Herriman.
Ainda hoje Krazy & Ignatz divide opiniões; para alguns é um
quadrinho repetitivo e com um senso de humor um
tanto estranho, para outros é justamente na repetição das
situações (tijoladas na cabeça, encarceramento de Ignatz
por Ofissa Pup etc.) que reside um dos seus (muitos)
charmes; Herriman conseguiu repetir a mesma idéia por 34
anos ininterruptos  mas sempre com variações  extremamente
criativas.
A minha opinião é que Krazy tem um efeito cumulativo
no leitor: a beleza e poesia brotam justamente da leitura
contínua e da infindável repetição das situações.
Krazy Kat nunca vai alcançar o status de fenômeno popular de um
Calvin e Haroldo ou Charlie Brown, mas não seria exagero  
considerá-la como o Sgt. Peppers dos quadrinhos e a meu
vêr nada produzido para os jornais ou talvez nas HQ's
como  um todo se compare a esta obra sui generis