quarta-feira, 5 de março de 2008

The Last Trick (1964)-Resenha de curta de animação

Direção: Jan Svankmajer



Sinopse:
Em um palco dois mágicos rivais duelam
para conquistar a admiração da platéia
com truques grotescos e extravagantes.




Crítica:
Este primeiro curta de animação do
mestre do surreal já revela toda a in-
ventividade e destreza técnica que o
tornaria num dos artistas do fantástico
mais influentes do século XX (Tim
Burton, Grant Morrison, Jiri Barta
e os Irmãos Quay já cantaram elogios e
reconheceram sua influência).
Interessante notar que desde o começo
Svankmajer já demonstrava uma delicio-
sa inclinação para o grotesco o absurdo e
o surreal (elementos estes que o acompanha-
riam por toda sua carreira e que mais tarde
serviriam como ferramentas para obras
mais sérias onde ele abordaria temas como
autoritarismo, conformismo, violência, censura
etc.).Vale ressaltar também o excelente traba-
lho de edição e som.
The Last Trick pode não ser tão substancial
como seus curtas posteriores mas é uma obra
muito acima da média e talvez a introdução
ideal ao universo complexo e pertubador deste
artista genial.

Cotação: **** de *****

The Ghost Village (1992) e Ashputtle (1996) - Peter Straub-Resenhas de contos



THE GHOST VILLAGE



Sinopse:

Fugindo de um ataque surpresa nas
selvas do Vietnam, batalhão vai parar
numa vila sem quaisquer resquícios
de atividade humana e animal.
Inspecionando a área, um sargento
e dois soldados descobrem uma es-
pécie de poço dentro de uma das
cabanas, aparentemente usado para
sessões de interrogatório e tortura.
Paralelamente, soldado começa a
demonstrar comportamento obsessivo
e paranóico após tomar conhecimento
através de uma carta enviada pela sua
esposa do abuso sexual sofrido pelo
seu filho pelo líder do coral da igreja.

Crítica:
Sempre leio menos do que queria e deveria,
mas sempre procurei ficar antenado com o que
rola lá fora, sou um leitor assíduo de publicações
on-line como Sfsite, Strange Horizons, Locus Ma-
gazine etc. Nos últimos dez anos desenvolvi um
forte interesse pelo que hoje se convencionou a
chamar ficção slipstream, New Weird, Magic
(Sur) realism ou outra definição que provavelmente não
fará o menor sentido se você não colocar o tra-
seiro em uma confortável poltrona e ler um bom
livro do "gênero" (quem lê o meu blog sabe
que eu tenho uma relação de amor e ódio com ró-
tulos, gêneros e definições). Rótulos quase sempre
são limitadores, inadequados e insuficientes,
confundem mais que elucidam, mas em alguns
casos são um mal necessário.
O que estes novos rótulos e definições tentam
encapsular: ficção fantástica (FC, horror, dark fantasy
etc.) de inclinação literária; complexa, metafórica
e com uma sensibilidade mainstream não encontrada
nas maioria do que se convencionou a chamar
"literatura de gênero".
Peter Straub têm escrito dark fantasy literária de alto
calibre desde meados dos anos 70 e ainda nesta dé-
cada atingiu o status de best-seller com o livro Ghost
Story (no Brasil com o errático título de Os Mortos
Vivos). Por um curto período se tornou o grande es-
critor de horror da américa, dividindo o trono com
o Stephen King, com quem escreveu o Talismã e sua
sequência A Casa Negra. No final dos anos 80 se
afasta gradualmente do (explicitamente) sobrenatural
e começa a usar o formato do thriller/suspense para
explorar temas como perda de identidade, paranóia,
família, traumas de infância, natureza do bem e mal,
o perigo das ilusões, o absurdo da guerra, memória,
o peso e importância do passado em nossas
vidas, e de um modo mais obtuso e indireto, a na-
tureza da realidade. O que se ganhou em profundidade e
sofisticação perdeu-se no número de leitores. Straub sem-
pre foi um escritor popularíssmo mas nunca conseguiu
repetir o feito de Ghost Story que ficou trocentas semanas
na lista dos mais vendidos.
Como todo autor de qualidade, não se atém a fórmulas e
clichês (geralmente os utiliza para subvertê-los), não se
prende a gêneros (ainda que seja taxado como horror e thriller
por, acredito eu, uma necessidade mercadológica).
The Ghost Village (prêmio World Fantasy Award para me-
lhor conto longo) é uma espécie de companion do igual-
mente premiado romance Koko (lançado no Brasil pela
Francisco Alves) pois compartilha dos mesmos perso-
nagens e cenário.
Straub é soberbo com as caracterizações (entrar na mente
dos seus personagens é uma viagem que pode não ter volta)
e com o uso da linguagem. Em TGV somos confrontados
não apenas com o horror real da guerra, mas também com
o horror sobrenatural (ou da loucura, já que não fica claro
se as aparições sejam realmente entidades incorpóreas)
e num plano pessoal o horror da perda e impotencialidade
(ilustrado pelo sentimento de dor e revolta do soldado para-
nóico ao receber notícias do seu filho). Infelizmente o con-
to é excessivamente dependente e como li o Koko há mais
de 15 anos fiquei voando em algumas partes (vou fazer ques-
tão de relê-lo em breve); têm-se a impressão de se tratar de
um fragmento de um romance inacabado. Outro problema (en-
contrado também em outras obras) é que em certos momentos
o enredo é desnecessariamente complexo e o que é explicado,
QUANDO explicado, é feito de uma maneira excessivamente
vaga, obtusa, e indireta (titio Straub não facilita a vida do
leitor). Mesmo com esses problemas TGV é um conto sen-
sacional e me atiçou a curiosidade para reler Koko, desta
vez na língua original.

Cotação: ****1/2 de *****


ASHPUTTLE



Sinopse:
Professora primária, obesa, cin-
quentona e com tendências assassi-
nas, relembra a sua infância pro-
blemática, ao mesmo tempo que
imagina ser uma princesa num reino
encantado e se prepara para mais
uma "travessura".

Crítica:
Santo deus!! Minha nossa senhora!!
Vade retro SATANÁS!!! Como diabos
vou falar de tamanha demência literá-
ria? Se eu disser que é um take pós
moderno do conto de fadas Cindere-
la adiantará alguma coisa? Provavel-
mente não, porque Ashputtle (nome
original dado ao conto Cinderela
pelos Irmãos Grimm) não é um apenas
uma releitura de um conto clássico,
nem uma variação gore de um fairy tale,
é também um assustador e emocionante
retrato da criação de uma mente assassina,
da "necessidade" em se criar um
mundo encantado e ilusório como um
"mecanismo de defesa", da natureza ilu-
sória das aparências.
A narrativa é extremamente complexa,
alternando presente (sua atual posição
como uma simpática professora),
passado (sua infeliz e conturbada
infância com a mãe e madrasta) e
o mundo encantado (onde ela imagina
ser uma linda princesa e tudo que ela
não é no mundo real). O conto se torna
progressivamente mais complexo na medida
em que os dois mundos (real e ilusório)
começam a se misturar, complementar
e dialogar, acrescente-se a tudo isso as
alternâncias entre a primeira e terceira pessoa
(criando um delicioso efeito de "intrusão
autoral" que fica entre o sério e o sardônico)
e uma sutil referência/homenagem literária ao
clássico do weird O Papel de Parede Amarelo
da Charlotte Perkins Gillman (o conto trata
da obsessão de uma mulher por um papel
de parede e de sua psicose progressiva).
Ashputtle é uma fascinante viagem pelos labirintos
psicológicos, emocionais e estruturais, arquitetado
e excecutado com o esmero e precisão dos melhores
miniaturistas.

Cotação: ****1/2 de *****