quarta-feira, 5 de março de 2008

The Ghost Village (1992) e Ashputtle (1996) - Peter Straub-Resenhas de contos



THE GHOST VILLAGE



Sinopse:

Fugindo de um ataque surpresa nas
selvas do Vietnam, batalhão vai parar
numa vila sem quaisquer resquícios
de atividade humana e animal.
Inspecionando a área, um sargento
e dois soldados descobrem uma es-
pécie de poço dentro de uma das
cabanas, aparentemente usado para
sessões de interrogatório e tortura.
Paralelamente, soldado começa a
demonstrar comportamento obsessivo
e paranóico após tomar conhecimento
através de uma carta enviada pela sua
esposa do abuso sexual sofrido pelo
seu filho pelo líder do coral da igreja.

Crítica:
Sempre leio menos do que queria e deveria,
mas sempre procurei ficar antenado com o que
rola lá fora, sou um leitor assíduo de publicações
on-line como Sfsite, Strange Horizons, Locus Ma-
gazine etc. Nos últimos dez anos desenvolvi um
forte interesse pelo que hoje se convencionou a
chamar ficção slipstream, New Weird, Magic
(Sur) realism ou outra definição que provavelmente não
fará o menor sentido se você não colocar o tra-
seiro em uma confortável poltrona e ler um bom
livro do "gênero" (quem lê o meu blog sabe
que eu tenho uma relação de amor e ódio com ró-
tulos, gêneros e definições). Rótulos quase sempre
são limitadores, inadequados e insuficientes,
confundem mais que elucidam, mas em alguns
casos são um mal necessário.
O que estes novos rótulos e definições tentam
encapsular: ficção fantástica (FC, horror, dark fantasy
etc.) de inclinação literária; complexa, metafórica
e com uma sensibilidade mainstream não encontrada
nas maioria do que se convencionou a chamar
"literatura de gênero".
Peter Straub têm escrito dark fantasy literária de alto
calibre desde meados dos anos 70 e ainda nesta dé-
cada atingiu o status de best-seller com o livro Ghost
Story (no Brasil com o errático título de Os Mortos
Vivos). Por um curto período se tornou o grande es-
critor de horror da américa, dividindo o trono com
o Stephen King, com quem escreveu o Talismã e sua
sequência A Casa Negra. No final dos anos 80 se
afasta gradualmente do (explicitamente) sobrenatural
e começa a usar o formato do thriller/suspense para
explorar temas como perda de identidade, paranóia,
família, traumas de infância, natureza do bem e mal,
o perigo das ilusões, o absurdo da guerra, memória,
o peso e importância do passado em nossas
vidas, e de um modo mais obtuso e indireto, a na-
tureza da realidade. O que se ganhou em profundidade e
sofisticação perdeu-se no número de leitores. Straub sem-
pre foi um escritor popularíssmo mas nunca conseguiu
repetir o feito de Ghost Story que ficou trocentas semanas
na lista dos mais vendidos.
Como todo autor de qualidade, não se atém a fórmulas e
clichês (geralmente os utiliza para subvertê-los), não se
prende a gêneros (ainda que seja taxado como horror e thriller
por, acredito eu, uma necessidade mercadológica).
The Ghost Village (prêmio World Fantasy Award para me-
lhor conto longo) é uma espécie de companion do igual-
mente premiado romance Koko (lançado no Brasil pela
Francisco Alves) pois compartilha dos mesmos perso-
nagens e cenário.
Straub é soberbo com as caracterizações (entrar na mente
dos seus personagens é uma viagem que pode não ter volta)
e com o uso da linguagem. Em TGV somos confrontados
não apenas com o horror real da guerra, mas também com
o horror sobrenatural (ou da loucura, já que não fica claro
se as aparições sejam realmente entidades incorpóreas)
e num plano pessoal o horror da perda e impotencialidade
(ilustrado pelo sentimento de dor e revolta do soldado para-
nóico ao receber notícias do seu filho). Infelizmente o con-
to é excessivamente dependente e como li o Koko há mais
de 15 anos fiquei voando em algumas partes (vou fazer ques-
tão de relê-lo em breve); têm-se a impressão de se tratar de
um fragmento de um romance inacabado. Outro problema (en-
contrado também em outras obras) é que em certos momentos
o enredo é desnecessariamente complexo e o que é explicado,
QUANDO explicado, é feito de uma maneira excessivamente
vaga, obtusa, e indireta (titio Straub não facilita a vida do
leitor). Mesmo com esses problemas TGV é um conto sen-
sacional e me atiçou a curiosidade para reler Koko, desta
vez na língua original.

Cotação: ****1/2 de *****


ASHPUTTLE



Sinopse:
Professora primária, obesa, cin-
quentona e com tendências assassi-
nas, relembra a sua infância pro-
blemática, ao mesmo tempo que
imagina ser uma princesa num reino
encantado e se prepara para mais
uma "travessura".

Crítica:
Santo deus!! Minha nossa senhora!!
Vade retro SATANÁS!!! Como diabos
vou falar de tamanha demência literá-
ria? Se eu disser que é um take pós
moderno do conto de fadas Cindere-
la adiantará alguma coisa? Provavel-
mente não, porque Ashputtle (nome
original dado ao conto Cinderela
pelos Irmãos Grimm) não é um apenas
uma releitura de um conto clássico,
nem uma variação gore de um fairy tale,
é também um assustador e emocionante
retrato da criação de uma mente assassina,
da "necessidade" em se criar um
mundo encantado e ilusório como um
"mecanismo de defesa", da natureza ilu-
sória das aparências.
A narrativa é extremamente complexa,
alternando presente (sua atual posição
como uma simpática professora),
passado (sua infeliz e conturbada
infância com a mãe e madrasta) e
o mundo encantado (onde ela imagina
ser uma linda princesa e tudo que ela
não é no mundo real). O conto se torna
progressivamente mais complexo na medida
em que os dois mundos (real e ilusório)
começam a se misturar, complementar
e dialogar, acrescente-se a tudo isso as
alternâncias entre a primeira e terceira pessoa
(criando um delicioso efeito de "intrusão
autoral" que fica entre o sério e o sardônico)
e uma sutil referência/homenagem literária ao
clássico do weird O Papel de Parede Amarelo
da Charlotte Perkins Gillman (o conto trata
da obsessão de uma mulher por um papel
de parede e de sua psicose progressiva).
Ashputtle é uma fascinante viagem pelos labirintos
psicológicos, emocionais e estruturais, arquitetado
e excecutado com o esmero e precisão dos melhores
miniaturistas.

Cotação: ****1/2 de *****

2 comentários:

Lord of Erewhon disse...

Não conheço esse de Straub, fiquei com vontade de ler. Leio em Inglês... aqui por Portugal quase nada dele está traduzido.

Ramon Bacelar disse...

Você pode encontrá-los no livro Magic Terror.