sexta-feira, 23 de maio de 2008

Brusel e The Invisible Frontier, Vol's 1 e 2 -Resenha dupla de HQ



Brusel (1996)



Argumento: Benoit Peeters
Desenhos: Francois Schuiten

Sinopse:
Na cidade de Brusel, pacato flo-
ricultor recebe visita de um re-
nomado cientista com interesse
em conhecer suas novas flores
sintéticas que ele acredita
estarem em perfeita sintonia com
a gigantesca reforma pela qual
passa a cidade, e que substituirá
a antiga arquitetura por obras
mais funcionais, incluindo um
imenso hospital a ser erguido
próximo a floricultura.
Inicialmente desconhecendo a
magnitude do projeto de reforma,
o pacato floricultor não se opõe
as mudanças, mas quando sua
floricultura começa a apresentar
problemas relacionados ao for-
necimento de água e linha telefô-
nica e, posteriormente, sua inter-
nação por sintomas de tuber-
culose, ele gradativamente
toma consciência das catastróficas
conseqências da reforma pro-
movida pelo governo.



Crítica:
Brusel é o conto de uma cida-
de caminhando para o colapso,
de egos inflados nublados pelo
poder e ambição, de românticos
idealistas e de pessoas comuns
tragadas e desnorteadas pelo fu-
racão das mudanças.
Constant Abeel (o floricultor)
tosse da primeira a última página,
observa, mais perdido que cachorro
cego em tiroteio, passivamente ao
colapso e destruição, incluindo a sua.
Que não passe a impressão ao leitor
se tratar de uma obra depressiva e ni-
ilista; não, não é. Nela os autores optaram
por um estranho tom que fica entre a
comédia negra, humor melancólico,
alegoria político-absurdita com um
espesso verniz de gentleness. Se no
passado recente a série foi criticada por ser
intelectualmente fria e distante (prefiro
definir como "frieza poética") desta
vez muito esforço foi empreendido na
caracterização dos personagens,todos
memoráveis. Memorável também é o
modo episódico com que os autores
constroem sua alegoria sobre poder
e progresso não planejado. Em Brusel
precisão textual, estrutural e gráfica
andam de mãos dadas.
Ambicioso e multitemático, inteligente,
sofisticado e extremamente elaborado,
Brusel é mais um capítulo memorável de
uma das mais bonitas e originais sagas em
quadrinhos já criadas.

Cotação: ****1/2 de *****



The Invisible Frontier, Vol's 1 e 2 (2002)



Argumento: Benoit Peeters
Desenhos: Francois Schuiten

Sinopse:
Jovem cartógrafo sem diploma é re-
crutado para trabalhar num imenso e
decadente centro cartográfico localizado
numa inóspita área desértica e lá encontra
seu futuro tutor que o orienta em sua nova
função, e logo percebe que o centro passa
por intensas mudanças que não são vistas
com bons olhos pelo seu romântico e i-
dealista chefe. Ao se envolver com uma
misteriosa prostituta, o jovem descobre
uma estranha mancha nas costas da garota
que pode têr uma conexão com a real fron-
teira da região do centro, assim como con-
sequências catastróficas para os planos dos
reformadores do centro caso seja desco-
berta pelas autoridades governamentais.
Após a visita do ambicioso e demagogo
líder da cidade de Sodrovno-Voldachia
para a qual a atual reforma do centro têm
influência direta, o jovem cartógrafo, temen-
do a vida da prostituta, a esconde nos sub-
terrâneos do centro onde, para sua surpresa,
encontra um velho conhecido.



Crítica:
Les Cités Obscures talvez seja a mais original
e sofisticada série de quadrinhos atualmente
publicada na europa. Me lembro bem da minha
estupefação há alguns anos atrás quando li
The Great Walls of Samaris (primeiro volume
da série) pela primeira vez. Estava convencido
de ter lido não apenas um quadrinho excepcional,
mas uma obra muito, muito especial. Mas o melhor
ainda estava por vir. Consegui num golpe de
sorte um exemplar usado do segundo volume
Fever in Urbicand (em 2002 estes álbuns ainda
não tinham adquirido o status de ultra-cult, nem
alcançado os preços astronômicos de hoje
no mercado de usados), obra que considero não
apenas uma obra prima dos quadrinhos franco-belga,
mas uma das melhores HQ's de todos os tempos.
Para minha decepção descobri que grande parte da
obra do Schuiten (especialmente a série Les Cités)
ainda estava inédita em língua inglesa, mas acabei
por encontrar na amazon a recém lançada graphic
novel Brusel e acabei comprando antes que sumisse
das prateleiras.
E eis que chegamos aos dois volumes de
The Invisible Frontier, último lançamento de
uma obra de Schuiten em língua inglesa (descon-
tando um portfólio lançado em 2004).
Não posso deixar de registrar que ao final da leitura
fiquei com um gostinho de decepção, aquela sensa-
ção de "é bom, tá tudo ali, MAS, falta alguma coisa".
Acho que o que me incomodou foi menos os desenhos
(continuam mais bonitos do que nunca e sempre será
o motivo primário para leitura da série!!!) que a
abordagem e o desenvolvimento do enredo. Desta vez
optou-se por uma menor ênfase em arquitetura e
perspectiva (diminuindo assim o sense of mystery e
temor Kafkaeano mais presente nos primeiros ál-
buns). O texto do Peeters é econômico, elegante
e sutil (uma leitura desatenta pode prejudicar o
entendimento da obra) mas desenrola sem muito
foco e o tom suave por vezes descamba para a
opacidade. O direcionamento que a dupla deu para
a história após a visita do líder de Sodrovno-Voldachia
também não me agradou. O primeiro volume finaliza
numa nota de tensão e suspense e no segundo os auto-
res jogam o meticuloso build-up pela janela e partem
para outra estrada. O final é mal resolvido e anti-climático.
Com o texto da qualidade do Peeters e a visão e virtuo-
simo gráfico do Schuiten fica difícil não admirar qualquer
trabalho da dupla mas The Invisble Frontier, a meu ver,
está aquém da habilidade de seus criadores.


Cotação: ***1/2  de  *****

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