sábado, 5 de junho de 2010

O Balanço publicado no Arquivo do Barreto

O Balanço:


http://www.arquivodobarreto.com/home/index.php?action=obra&id=103

Leiam e comentem.

domingo, 30 de maio de 2010

Contos lançados e relançados

A Vingança do Ghoul:

http://casadasalmas.blogspot.com/2010/05/vinganca-do-ghoul.html#comments

Viagem ao Âmago:

http://www.estronho.com.br/contos-e-cronicas/279-contos-e-cronicas/4460-viagem-ao-amago.html

A Prova: http://miragensofuscantes.blogspot.com/

Leiam e comentem (:

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Trecho da semana: A Primavera-Bruno Schulz


Emaranhado na rede ramosa das árvores negras,o céu cinzento,
abafado, deitava-se nas costas dos homens:tortuosamente a-
montoado, informemente pesado e enorme como um ededrom.
Os homens saíam de debaixo dele de quatro, como escarave-
lhos na umidade quente, farejando com os cornichos sensíveis
o barro doce.O mundo estava mudo,desenrolava-se e crescia
algures em cima, algures por trás e no fundo e corria
deleitosamente exânime. De vez em quando desacelerava
lembrando vagamente de algo, ramificava-se nas árvores,
fazia um transplante com a rede espessa do chileiro dos
pássaros colocados em cima do dia cinzento,e seguia para
o fundo, rumo ao serpentário subterrãneo das raízes, à
pulsaçao cega dos vermes e lagartas,ao estonteamento surdo
da terra negra e do barro.

"A Primavera"-Bruno Schulz

The Overspill-Fred Chappel-Resenha de conto



Sinopse:
Marido aproveitando a ausência da esposa
resolve surpreendê-la cultivando,
com a ajuda do filho, um jardim em um
pedaço árido de terra assim como a
construção de uma ponte de ligação
entre o jardim e seu quintal, mas
um imprevisto provocado por uma
companhia relacionada ao controle
de água acaba por minar seu plano.

Crítica:
Dentre os escritores sulistas america-
nos contemporâneos, Fred Chappel
talvez seja o mais autêntico e para-
doxalmente, o mais idiossincrático e
original.
Desde seu começo no final dos anos
60,Chappel sempre demonstrou um
agudo interesse nos clássicos, na liter-
ratura fantástica e especulativa e Weird
Fiction pulp. Seu More Shapes Than One,
é uma das melhores e mais originais
coletâneas de contos fantásticos contem-
porâneas: de contos líricos e mágicos-realistas
como Mankind Journey Through the Forest
of Symbols sobre um poema simbolista que se
materializa no sul dos EUA a weird tales
especulativos, eruditos e lovecrateanos, Chappel
demonstra versatilidade e fecunda imaginação.
É do Chappell, ao que me consta, da úni-
ca tentativa em fundir em forma de romance
o grotesco-gótico-sulista com Lovecraft e o
resultado é um extraordinário relato de alie-
nação e lenta degradação psicológica; Dagon é
um dos melhores romances de horror psicológico já
escritos.
Hoje ele é mais conhecido como poeta e por uma
série de romances autobiográficos episódicos
(Chappel é em essência um contista) sulistas
autobiográficos cujo lirismo e musicalidade é
somente comparável a uma Eudora Welty e Thomas
Wolfe.Interessante que mesmo nessa veia realista
Chappel insere toques fantásticos, clássicos e até
Surreais, resultando em um southern gothic único.
The Overspill é um conto-episódio do romance I Am
the One With You Forever e é um belíssimo exemplo
da musicalidade do Chappell, assim como de sua
sensibilidade mágica e poética.
Narrado numa veia realista, em seu parágrafo final
se transmuta num (sur)realismo mágico:

The tear on my mother’s cheek got larger and larger. It detached from her face and became a shiny globe, widening outward like an inflating balloon. At first the tear floated in the air between them, but as it expanded it took my mother and father into itself. I saw them suspended, separate but beginning to slowly drift towards one another. Then my mother looked past my father’s shoulder, looked through the bright skin of the tear, at me. The tear enlarged until at last, it took me in, too. It was warm and salt. As soon as I got used to the strange light inside the tear, I began to swim clumsily towards my parents.

Como não se entregar a esse feitiço literário?

Cotação: ***** de *****

terça-feira, 30 de março de 2010

Eudora Welty-Resenha de Contos



Crítica:
A tradição literária do sul dos EUA
que ficou conhecida como Southern Gothic
(Gótico Sulista) rendeu (e ainda rende) alguns
dos mais interessantes e originais escritores
do século XX. Da densidade estilística e dra-
mática do William Faulkner, a precisão lin-
guística da Katherine Anne Porter, da melan-
colia, lirismo e calor humano da Carson
Mccllures ao realismo brutal da Flannery
O'Connor, o Gótico Sulista, ainda que
tematicamente um tanto repetitivo, ainda
hoje encanta e fascina com sua galeria
de grotesques, desajustados, intolerantes,
sua atmosfera regionalista outonal e sense
of place.
Eudora Welty talvez seja a mais enigmática
e sem sombra de dúvida a mais versátil e
aventurosa escritora dessa tradição. Dona
de um estilo de difícil classificação que
incorpora elementos tão díspares que
vão do naturalismo clássico ao surrealismo
e prosa poética, transparecendo em alguns
contos um surrealismo sutil e um proto-realismo
mágico, o laboratório linguístico da Welty não
para e o resultado é um experimentalismo sutil
muito bem dosado, sem nunca cair para um
experimentalism for experimentalism's sake.
Lendo alguns de seus contos percebe-
mos a clara influência dos seus escritos na
obra do Ray Bradbury cuja coletânea Os Frutos
Dourados do Sol compartilha tom, temas e até o
idêntico título.
A Curtain of Green é sua coletânea clássica e
a julgar por Death of a Traveling Salesman (seu
primeiro conto publicado) Welty já "nasceu pronta".
Alguns contos clássicos como Lilly Daw and
the Three Ladies são quase monólogos, mas a
meu ver Welty mostra todo seu poder de fogo
em contos com mais narração: neles ela imprime
uma atmosfera ambígua, intimista, as vezes per-
tubadora e angustiante. Sua narração ora é leve e
seca, ora densa, poética e com alta dose de lirismo.
Dos contos dessa segunda categoria destacaria os
soberbos Death of A Traveling Salesman que
narra as últimas horas de um caixeiro viajante
marcado por uma existência vazia. A Curtain
of Green é uma densa fábula sobre os efeitos
do isolamento físico e espiritual. The Whistle
nos conta a história de um casal de idosos
e seus esforços para salvar sua plantação
da nevasca. The Worn Path pode ser lido como
uma alegoria religiosa repleto de simbolismos.
Pelo seu approach ambíguo e oblíquo Welty
pode não ser uma escritora lá muito digerível
para leitores de gosto católico, mas quem
quiser se aventurar em uma escrita sulista
mais experimental, Welty é obrigatória.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Trecho da semana: A função da arte/1-Eduardo Galeano



Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff,
levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas
alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava
na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e
tanto seu fulgor,que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!

Atlas Era: Strange Tales Vol.1-Resenha de HQ



Atlas Era: Strange Tales Vol.1 is one of the earliest horror
mags from Timely/Atlas/Marvel and is slighty inferior to
his sister publication Journey into Mystery, partly because
Atlas staff didn't know exactly how to sell and promote
such a strange beast like a horror comic (remember that we
are on early fifties!!!)and partly because the majority of the
early scripts really stinks.
The first four or five issues have some highlights but
the overall quality is not good. Later issues are much better
plotted and drawn,despite some clunkers. Atlas horror is
not distinguished for scripting sophisticated stories but
some of them are very fun and enganging and the level of art
is remarkable high.
If you don't know the fascinating horror comics from the
fifties I strongly recommend the comics from E.C. like
Tales from the Crypt and Vault of Horror and the Atlas
as a second option.

Here are my personal ratings:

Atlas Era: Strange Tales Vol. 1:

Strange Tales #1:

Strange Men ===================== **1/2
The Beast ======================= *
The Room That Didn't Exist ====== *1/2
A Call in the Night ============= **


Strange Tales #2:

The Egg! ======================== *****
Trapped in the Tomb! ============ ****1/2
The Pin! ======================== **1/2
The Island of Madness =========== **




Strange Tales #3:

The Shadow ======================= ****
The man Who Never Was ============ *****
The Invisible Death ============== **
The Madman ======================= *1/2
Voodoo =========================== **1/2



Strange Tales #4:

The Evil Eye! ===================== ****
Dial... City Morgue =============== ***1/2
It ================================ **
The Man on the Beach ============== **



Strange Tales #5:

The Room Without Door ============ ****
The Little Man Who was There ===== ****1/2
The Trap ========================= *****
My Brother Harry ================= ****1/2


Strange Tales #6:

The Unihabited ==================== *****
The Eyes of March ================= ****
The Back Door ==================== **1/2
The Killers ======================= ****1/2
The Ugly Man ==================== ***


Strange Tales #7:

My Brother Talks to Bats ============== ****1/2
He Wished He was a Vampire ========== ***1/2
Tap!Tap!Tap! ======================= ****
Who Stands in the Shadow ============ ***1/2
The Horrible Man ==================== ****

Strange Tales #8:

The Old Mill =========== ****1/2
Fame =================== ***1/2
The Storm ============== ****
Something in the Fog === ***
If the Shoe Fits ======= ****

Strange Tales #9:

Blind Date ============== **
Strange Game =========== *
The Man from Mars ======= **
Drink Deep Vampire ====== **1/2
The Voice of Doom ======= ***1/2

Strange Tales #10

The Boy Who Was Afraid ====== ****1/2
The Monster s Son =========== ****1/2
The Frightful Feet! =========== *****
The Hidden Head =========== ****1/2
Keep Out! ================= *****

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Possível Baldi(1936)-Juan Carlos Onetti-Resenha de conto


Sinopse:
Advogado bem sucedido na vida financeira e sentimental,
ainda que desiludido com o mundo, encontra, ao atravessar
uma avenida movimentada, uma misteriosa mulher que
lhe agradece por tê-la ajudado a se livrar de uma
indesejável companhia e lhe pede para contar-lhe
a história de sua vida. O advogado, vendo neste pedi-
do uma válvula de escape para o tédio de sua existência,
cria autobiografias imaginárias em que ele se vê,
dentre outros papéis e personificações, como um impiedoso
caçador de negros na África.


Crítica:
Quando se fala em realismo mágico latino americano,
Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa e
mais recentemente Isabel Allende são os
nomes que, talvez, primeiro nos pululam à mente.
Com certo esforço, puxando um pouco mais pela
memória, poderíamos citar o Alejo Carpentier,
Manuel Escorza e Juan Rulfo.
O uruguaio Juan Carlos Onetti, ainda que tenha re-
cebido o prestigioso prêmio Cervantes em 1980, não
é um nome frequentemente citado dentre os pratican-
tes desta corrente literária e, ainda que seja
idolatrado por figurinhas carimbadas como Júlio
Cortazar (que o considerava o maior romancista la-
tino americano), e tenha se tornado verdadeiro objeto de culto
entre os conoissieurs de plantão, permanece um escritor
CRIMINALMENTE obscuro, um típico writer's writer.
Parte desta relativa obscuridade se deve ao fato de que
a aplicação do termo realismo mágico para sua obra
se revela inadequada, insuficiente e injusta. Na lite-
ratura do Onetti não encontraremos paisagens selváticas
tropicais, enredos intrincados e atmosfera mágica. Nela
veremos (anti) heróis, fumantes inveterados, que, não
importando condição financeira e status social, carregam
nas costas todo o absurdo e tédio da existência como
um fardo que mesmo depois da morte os assombrarão
pela eternidade. Para eles as fantasias, lorotas, ilusões,
auto-engano e até as "autobiografias imaginárias" lhes
servem como um antídoto de curta duração para os
o pesado fardo da existência, e algumas vezes do deses-
pero absoluto e suicídio.
Praticante do que me convencionou a definir como uma espécie
de existencialismo-introspectivo-onírico-poético-melancólico,
Onetti embala suas fábulas de ilusão e auto-engano em prosa
sinuosa impecável, de uma precisão, beleza plástica, intensidade
poética e finura psicológica digna dos maiores mestres.
A literatura de Onetti jamais se esgota na primeira leitura e após o
término de O Possível Baldi fico com a sensação de ter desco-
berto um autor, muito, muito especial.

Cotação: ***** de *****

domingo, 24 de janeiro de 2010

Retrospectiva 2009-Leituras












Em matéria de leituras, 2009 para mim foi um
ano muito movimentado. Li e reli muitos, muitos
contos, descobri vários autores que há tempos
queria ler e tive o prazer de redescobrir outros.
Em Ambrose Bierce vemos um mestre absoluto do
humor negro, um estilista que valoriza a clareza e
concisão, um precursor da escrita "jornalística" cujos
mestres Dashiell Hammett, Hemingway e tantos outros
certamente o usaram como modelo literário.
A meu ver a fama do Arthur Machen de exímio escritor
de Weird Tales se resume a pouco mais de uma dúzia
de contos, mas como quantidade nunca foi sinônimo
de qualidade, deixou sua marca e influência
na terceira fase da obra de Lovecarft. Não
fosse o Machen, não teríamos os mitos de Cthulhu
como o conhecemos.
Falar de Poe é chover no molhado mas como o li
pela primeira na língua original fica o registro.
Roger Zelazny foi um dos mais líricos e literatos
escritores da New Wave e ainda que sua fama (e
a maior parte do dinheiro que ganhou com sua escrita)
e popularidade em massa veio com a sua série
de fantasia Amber, para o conoissieur serão os
contos que ficarão na memória, e um dos melhores
que a literatura fantástica já produziu.
Kafka é um escritor que nunca consegui digerir,
mas a sua escola do absurdismo gerou verdadeiros
mestres da narrativa curta.O italiano Dino Buzzati,
mais conhecido pelo romance O Deserto dos Tártaros,
é um dos mais hábeis filhos da escola absurdista. Seus
contos são um primor de forma e conteúdo filo-
sófico e existencial, uma das "descobertas" literárias mais
enriquecedoras que tive em 2009. Do uruguaio Horácio Quiroga
conhecia apenas a novela Anaconda (uma das melhores histórias
de fantasia já escrita por um latino americano) e mais uma
meia dúzia de contos, mas nenhum deles fazia parte de
sua coletânea Contos de Amor Loucura e Morte.Quiroga
é um dos mais intensos e autênticos herdeiros da tradição
Poeana.
Stefan Grabinski é um genial escritor polonês de weird tales
e junto com o Buzatti foi minha melhor descoberta literária de 2009.
Li apenas um conto do Jean Lorrain e fiquei na saudade, pois
é um auttor muito pouco divulgado em língua inglesa.
Romances (re) li apenas O Retrato De Dorian Gray e a cada re-
leitura gosto mais. Do Wilde li também a maravilhosa peça Salomé.
Das HQ's minha leitura predileta foi, sem dúvida, a Creepy e Eeerie
que a Dark Horse está relançando em magníficos encadernados com
reprodução de alta qualidade. Em matéria de horror e fantasia gótica,
o material da Warren só se compara a lendária editora E.C. Comics.
The Goon continua sendo uma das HQ's mais insanamente divertidas
da atualidade, sua mistura de noir, nostalgia, ultra violência cartunesca
e virtuosismo gráfico nos garantem um entretenimento de alta
qualidade.
O Pequeno Príncipe de Joan Sfarr é uma das melhores adaptações
literárias que já li e uma das raras que consegue adicionar novas
camadas de significado, graças a visão única do cartunista Sfarr.
O Vagabundo dos Limbos é uma deliciosa space opera à francesa
sem muitas pretensões mas bastante agradável.
Authorithy:Kev é insano, demente e genial, puro Garth Ennis.
A retro-futurista Terminal City é um dos tesouros escondidos
da linha vertigo, procurem nos sebos que vale a pena.
Uma história tendo como crossover Hulk e Wolverine, só
poderia resultar numa pancadaria infernal; mas em se tra-
tando de um artista como o Sam Kieth é muito, muito mais.
A primeira fase pré-guerra de The Spirit do Eisner é menos
divulgada que a posterior, mas estes contos são uma mara-
vilha da estética pulp.
Para 2010 abrirei um slot em minhas leituras para alguns
romances clássicos e contemporâneos, além de alguns con-
tistas do mainstream literário e fantástico-mainstream como
Primo Levi, Tennesse Williams, F. Scott Fitzgerald, Luigi
Pirandelllo, Isaac Bashevis Singer entre outros.
Na fila de leitura e releitura já estão A Consciência de Zeno-Italo Svevo
(as primeiras trinta páginas já me cativaram por completo),
A Caminho de Swann-Marcel Proust, Trópico de Câncer-Henry Miller
Fome-Knut Hansum, O Senhor das Moscas-William Golding,
Wherter-Goethe, Crime e Castigo-Dostoyesvsky, Ondina-Fouqué
e A História de Peter Schemill-Chamisso.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Máquina Fantástica (A Invenção de Morel)-Adolfo Bioy Casares-Resenha de Romance




Sinopse:
Foragido venezuelano em fuga por um
crime que não cometeu, com a ajuda
de um amigo italiano, consegue um
bote e vai parar numa misteriosa ilha
remota e misteriosa onde em 1924 um
milionário excêntrico construiu uma ca-
pela, um hotel-museu e uma piscina, hoje
abandonados e decrépitos. Se instala no
hotel até a chegada de estranhos visitantes
e, achando serem seus captores, foge para a
parte baixa, pantanosa da ilha, e em meio a marés
perigosas e inconstantes, correndo risco de ser
levado pelas águas de madrugada e se alimen-
tando de bulbos e raízes, observa os habitantes,
dentre eles um estranho homem de nome Morel
e uma mulher de aparência cigana por quem se
apaixona perdidamente e se torna o seu centro
de atenção, mesmo que ela e todos os intrusos
o ignorem completamente, como se ele não
existisse.

Crítica:
Lêr A Máquina Fantástica pela primeira vez (ou
pela segunda, já que poucos livros me gritaram
durante a leitura para serem relidos, coisa que fiz
imediatamente após o virar da última página) é
como andar num terreno pantanoso, labiríntico,
crepuscular onde não se sabe onde está indo,
onde a ambiguidade é uma constante e apesar
dos perigos, ficamos meio que hipnotizados
e maravilhados pelo mistério e beleza enig-
mática da paisagem durante nossa jornada.
Tendo como modelos básicos os romances
de sobrevivência e aventura estilo Robson
Crusoé, Casares, com a habilidade de um veterano
artesão (escreveu este livro com apenas 26 anos),
nos oferece uma fábula Kafkeana-existencialista sobre o drama
e os efeitos do isolamento físico e espiritual, sobre o
"se sentir só, `ínvisível´ em meio a milhões" e sobretudo,
sobre um amor idealizado e metafísico, uma paixão
avassaladora por uma não-pessoa.
Há livros que nos provocam epifanias geralmente nas
páginas finais, esse me provocou a cada parágrafo:
"Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão
adiantou-se" assim começa e vai num crescendo de
pathos, beleza e poesia até a última linha.
Alguns consideram a Máquina Fantástica como o
melhor livro de FC já escrito por um latino americano.
Eu o coloco entre os melhores livros do século XX.
Uma mágica que não se repete.

Cotação: ***** de *****