domingo, 24 de janeiro de 2010

Retrospectiva 2009-Leituras












Em matéria de leituras, 2009 para mim foi um
ano muito movimentado. Li e reli muitos, muitos
contos, descobri vários autores que há tempos
queria ler e tive o prazer de redescobrir outros.
Em Ambrose Bierce vemos um mestre absoluto do
humor negro, um estilista que valoriza a clareza e
concisão, um precursor da escrita "jornalística" cujos
mestres Dashiell Hammett, Hemingway e tantos outros
certamente o usaram como modelo literário.
A meu ver a fama do Arthur Machen de exímio escritor
de Weird Tales se resume a pouco mais de uma dúzia
de contos, mas como quantidade nunca foi sinônimo
de qualidade, deixou sua marca e influência
na terceira fase da obra de Lovecarft. Não
fosse o Machen, não teríamos os mitos de Cthulhu
como o conhecemos.
Falar de Poe é chover no molhado mas como o li
pela primeira na língua original fica o registro.
Roger Zelazny foi um dos mais líricos e literatos
escritores da New Wave e ainda que sua fama (e
a maior parte do dinheiro que ganhou com sua escrita)
e popularidade em massa veio com a sua série
de fantasia Amber, para o conoissieur serão os
contos que ficarão na memória, e um dos melhores
que a literatura fantástica já produziu.
Kafka é um escritor que nunca consegui digerir,
mas a sua escola do absurdismo gerou verdadeiros
mestres da narrativa curta.O italiano Dino Buzzati,
mais conhecido pelo romance O Deserto dos Tártaros,
é um dos mais hábeis filhos da escola absurdista. Seus
contos são um primor de forma e conteúdo filo-
sófico e existencial, uma das "descobertas" literárias mais
enriquecedoras que tive em 2009. Do uruguaio Horácio Quiroga
conhecia apenas a novela Anaconda (uma das melhores histórias
de fantasia já escrita por um latino americano) e mais uma
meia dúzia de contos, mas nenhum deles fazia parte de
sua coletânea Contos de Amor Loucura e Morte.Quiroga
é um dos mais intensos e autênticos herdeiros da tradição
Poeana.
Stefan Grabinski é um genial escritor polonês de weird tales
e junto com o Buzatti foi minha melhor descoberta literária de 2009.
Li apenas um conto do Jean Lorrain e fiquei na saudade, pois
é um auttor muito pouco divulgado em língua inglesa.
Romances (re) li apenas O Retrato De Dorian Gray e a cada re-
leitura gosto mais. Do Wilde li também a maravilhosa peça Salomé.
Das HQ's minha leitura predileta foi, sem dúvida, a Creepy e Eeerie
que a Dark Horse está relançando em magníficos encadernados com
reprodução de alta qualidade. Em matéria de horror e fantasia gótica,
o material da Warren só se compara a lendária editora E.C. Comics.
The Goon continua sendo uma das HQ's mais insanamente divertidas
da atualidade, sua mistura de noir, nostalgia, ultra violência cartunesca
e virtuosismo gráfico nos garantem um entretenimento de alta
qualidade.
O Pequeno Príncipe de Joan Sfarr é uma das melhores adaptações
literárias que já li e uma das raras que consegue adicionar novas
camadas de significado, graças a visão única do cartunista Sfarr.
O Vagabundo dos Limbos é uma deliciosa space opera à francesa
sem muitas pretensões mas bastante agradável.
Authorithy:Kev é insano, demente e genial, puro Garth Ennis.
A retro-futurista Terminal City é um dos tesouros escondidos
da linha vertigo, procurem nos sebos que vale a pena.
Uma história tendo como crossover Hulk e Wolverine, só
poderia resultar numa pancadaria infernal; mas em se tra-
tando de um artista como o Sam Kieth é muito, muito mais.
A primeira fase pré-guerra de The Spirit do Eisner é menos
divulgada que a posterior, mas estes contos são uma mara-
vilha da estética pulp.
Para 2010 abrirei um slot em minhas leituras para alguns
romances clássicos e contemporâneos, além de alguns con-
tistas do mainstream literário e fantástico-mainstream como
Primo Levi, Tennesse Williams, F. Scott Fitzgerald, Luigi
Pirandelllo, Isaac Bashevis Singer entre outros.
Na fila de leitura e releitura já estão A Consciência de Zeno-Italo Svevo
(as primeiras trinta páginas já me cativaram por completo),
A Caminho de Swann-Marcel Proust, Trópico de Câncer-Henry Miller
Fome-Knut Hansum, O Senhor das Moscas-William Golding,
Wherter-Goethe, Crime e Castigo-Dostoyesvsky, Ondina-Fouqué
e A História de Peter Schemill-Chamisso.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Máquina Fantástica (A Invenção de Morel)-Adolfo Bioy Casares-Resenha de Romance




Sinopse:
Foragido venezuelano em fuga por um
crime que não cometeu, com a ajuda
de um amigo italiano, consegue um
bote e vai parar numa misteriosa ilha
remota e misteriosa onde em 1924 um
milionário excêntrico construiu uma ca-
pela, um hotel-museu e uma piscina, hoje
abandonados e decrépitos. Se instala no
hotel até a chegada de estranhos visitantes
e, achando serem seus captores, foge para a
parte baixa, pantanosa da ilha, e em meio a marés
perigosas e inconstantes, correndo risco de ser
levado pelas águas de madrugada e se alimen-
tando de bulbos e raízes, observa os habitantes,
dentre eles um estranho homem de nome Morel
e uma mulher de aparência cigana por quem se
apaixona perdidamente e se torna o seu centro
de atenção, mesmo que ela e todos os intrusos
o ignorem completamente, como se ele não
existisse.

Crítica:
Lêr A Máquina Fantástica pela primeira vez (ou
pela segunda, já que poucos livros me gritaram
durante a leitura para serem relidos, coisa que fiz
imediatamente após o virar da última página) é
como andar num terreno pantanoso, labiríntico,
crepuscular onde não se sabe onde está indo,
onde a ambiguidade é uma constante e apesar
dos perigos, ficamos meio que hipnotizados
e maravilhados pelo mistério e beleza enig-
mática da paisagem durante nossa jornada.
Tendo como modelos básicos os romances
de sobrevivência e aventura estilo Robson
Crusoé, Casares, com a habilidade de um veterano
artesão (escreveu este livro com apenas 26 anos),
nos oferece uma fábula Kafkeana-existencialista sobre o drama
e os efeitos do isolamento físico e espiritual, sobre o
"se sentir só, `ínvisível´ em meio a milhões" e sobretudo,
sobre um amor idealizado e metafísico, uma paixão
avassaladora por uma não-pessoa.
Há livros que nos provocam epifanias geralmente nas
páginas finais, esse me provocou a cada parágrafo:
"Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão
adiantou-se" assim começa e vai num crescendo de
pathos, beleza e poesia até a última linha.
Alguns consideram a Máquina Fantástica como o
melhor livro de FC já escrito por um latino americano.
Eu o coloco entre os melhores livros do século XX.
Uma mágica que não se repete.

Cotação: ***** de *****