domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Possível Baldi(1936)-Juan Carlos Onetti-Resenha de conto


Sinopse:
Advogado bem sucedido na vida financeira e sentimental,
ainda que desiludido com o mundo, encontra, ao atravessar
uma avenida movimentada, uma misteriosa mulher que
lhe agradece por tê-la ajudado a se livrar de uma
indesejável companhia e lhe pede para contar-lhe
a história de sua vida. O advogado, vendo neste pedi-
do uma válvula de escape para o tédio de sua existência,
cria autobiografias imaginárias em que ele se vê,
dentre outros papéis e personificações, como um impiedoso
caçador de negros na África.


Crítica:
Quando se fala em realismo mágico latino americano,
Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa e
mais recentemente Isabel Allende são os
nomes que, talvez, primeiro nos pululam à mente.
Com certo esforço, puxando um pouco mais pela
memória, poderíamos citar o Alejo Carpentier,
Manuel Escorza e Juan Rulfo.
O uruguaio Juan Carlos Onetti, ainda que tenha re-
cebido o prestigioso prêmio Cervantes em 1980, não
é um nome frequentemente citado dentre os pratican-
tes desta corrente literária e, ainda que seja
idolatrado por figurinhas carimbadas como Júlio
Cortazar (que o considerava o maior romancista la-
tino americano), e tenha se tornado verdadeiro objeto de culto
entre os conoissieurs de plantão, permanece um escritor
CRIMINALMENTE obscuro, um típico writer's writer.
Parte desta relativa obscuridade se deve ao fato de que
a aplicação do termo realismo mágico para sua obra
se revela inadequada, insuficiente e injusta. Na lite-
ratura do Onetti não encontraremos paisagens selváticas
tropicais, enredos intrincados e atmosfera mágica. Nela
veremos (anti) heróis, fumantes inveterados, que, não
importando condição financeira e status social, carregam
nas costas todo o absurdo e tédio da existência como
um fardo que mesmo depois da morte os assombrarão
pela eternidade. Para eles as fantasias, lorotas, ilusões,
auto-engano e até as "autobiografias imaginárias" lhes
servem como um antídoto de curta duração para os
o pesado fardo da existência, e algumas vezes do deses-
pero absoluto e suicídio.
Praticante do que me convencionou a definir como uma espécie
de existencialismo-introspectivo-onírico-poético-melancólico,
Onetti embala suas fábulas de ilusão e auto-engano em prosa
sinuosa impecável, de uma precisão, beleza plástica, intensidade
poética e finura psicológica digna dos maiores mestres.
A literatura de Onetti jamais se esgota na primeira leitura e após o
término de O Possível Baldi fico com a sensação de ter desco-
berto um autor, muito, muito especial.

Cotação: ***** de *****

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