sexta-feira, 16 de abril de 2010

Trecho da semana: A Primavera-Bruno Schulz


Emaranhado na rede ramosa das árvores negras,o céu cinzento,
abafado, deitava-se nas costas dos homens:tortuosamente a-
montoado, informemente pesado e enorme como um ededrom.
Os homens saíam de debaixo dele de quatro, como escarave-
lhos na umidade quente, farejando com os cornichos sensíveis
o barro doce.O mundo estava mudo,desenrolava-se e crescia
algures em cima, algures por trás e no fundo e corria
deleitosamente exânime. De vez em quando desacelerava
lembrando vagamente de algo, ramificava-se nas árvores,
fazia um transplante com a rede espessa do chileiro dos
pássaros colocados em cima do dia cinzento,e seguia para
o fundo, rumo ao serpentário subterrãneo das raízes, à
pulsaçao cega dos vermes e lagartas,ao estonteamento surdo
da terra negra e do barro.

"A Primavera"-Bruno Schulz

The Overspill-Fred Chappel-Resenha de conto



Sinopse:
Marido aproveitando a ausência da esposa
resolve surpreendê-la cultivando,
com a ajuda do filho, um jardim em um
pedaço árido de terra assim como a
construção de uma ponte de ligação
entre o jardim e seu quintal, mas
um imprevisto provocado por uma
companhia relacionada ao controle
de água acaba por minar seu plano.

Crítica:
Dentre os escritores sulistas america-
nos contemporâneos, Fred Chappel
talvez seja o mais autêntico e para-
doxalmente, o mais idiossincrático e
original.
Desde seu começo no final dos anos
60,Chappel sempre demonstrou um
agudo interesse nos clássicos, na liter-
ratura fantástica e especulativa e Weird
Fiction pulp. Seu More Shapes Than One,
é uma das melhores e mais originais
coletâneas de contos fantásticos contem-
porâneas: de contos líricos e mágicos-realistas
como Mankind Journey Through the Forest
of Symbols sobre um poema simbolista que se
materializa no sul dos EUA a weird tales
especulativos, eruditos e lovecrateanos, Chappel
demonstra versatilidade e fecunda imaginação.
É do Chappell, ao que me consta, da úni-
ca tentativa em fundir em forma de romance
o grotesco-gótico-sulista com Lovecraft e o
resultado é um extraordinário relato de alie-
nação e lenta degradação psicológica; Dagon é
um dos melhores romances de horror psicológico já
escritos.
Hoje ele é mais conhecido como poeta e por uma
série de romances autobiográficos episódicos
(Chappel é em essência um contista) sulistas
autobiográficos cujo lirismo e musicalidade é
somente comparável a uma Eudora Welty e Thomas
Wolfe.Interessante que mesmo nessa veia realista
Chappel insere toques fantásticos, clássicos e até
Surreais, resultando em um southern gothic único.
The Overspill é um conto-episódio do romance I Am
the One With You Forever e é um belíssimo exemplo
da musicalidade do Chappell, assim como de sua
sensibilidade mágica e poética.
Narrado numa veia realista, em seu parágrafo final
se transmuta num (sur)realismo mágico:

The tear on my mother’s cheek got larger and larger. It detached from her face and became a shiny globe, widening outward like an inflating balloon. At first the tear floated in the air between them, but as it expanded it took my mother and father into itself. I saw them suspended, separate but beginning to slowly drift towards one another. Then my mother looked past my father’s shoulder, looked through the bright skin of the tear, at me. The tear enlarged until at last, it took me in, too. It was warm and salt. As soon as I got used to the strange light inside the tear, I began to swim clumsily towards my parents.

Como não se entregar a esse feitiço literário?

Cotação: ***** de *****